AUTONOMIA: Você tem de verdade? Ou só pensa que tem?

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Se existe uma coisa que sempre me atraiu, essa coisa é a autonomia. Desde que me percebo gente, nunca tive um segundo sequer de vacilo ou de dúvida sobre meu estado de vida: sempre fui e desejei ser autônomo. Fui educado assim e aprendi, desde cedo, a duras penas, que tudo o que fazemos e queremos tem um preço e, no momento final, essa tal de autonomia daria um valor e um sabor melhor àquilo que se quer e que se é. Ser autônomo custa e custa caro.

São muitas as vezes em que, na clínica, clientes questionam sobre seu estado de liberdade (ou não) e entendem que mudar de casa, morar só, mudar de cidade seja sinônimo de autonomia. Ou ainda, sair do emprego castrador, largar do namorado possessivo, sair do casamento falido ou mudar de curso seja o máximo de autonomia. Eu ouço, respiro bem fundo e pergunto? Você acha que é autonomia? Por que você pensa assim? E espero pela reflexão que se expõem daí em diante; geralmente ouço respostas evasivas, propostas infundadas, articulações mambembes, sem sustentação e sem foco no motivo da mudança. O que possibilita o início de um diálogo sobre essa tal autonomia, que não é uma realização material ou física que a define.

Muito mais do que uma mudança de endereço ou de estado civil, além da conclusão ou abandono de um curso, a autonomia é algo mais denso, mais consistente e bem menos palpável: ela é um estado de espírito daquele que tem posse de si. Daquele que, apesar de viver com outros, de compartilhar mesmos espaços, de garantir a pertença neste ou naquele grupo social, mantém sua liberdade de escolha e de pensar, independente e plena em todas as circunstancias que envolvam seu contexto sócio afetivo, cultural, espiritual e emocional. Trata-se de uma pessoa livre. Empoderada.

Apesar de não gostar desta palavra porque ela faz parte do curto vocabulário dos politicamente corretos, ainda assim é a que melhor indica o estado de alma daqueles que se sentem autônomos. Perceber e agir com poder sobre si mesmo, poder atuar sem ter que pedir licença, não depender da vontade ou do gosto de ninguém, escolher e assumir – para o bem e para o mal – sua própria escolha, realizar algo e se responsabilizar por isso. Ai está a autonomia e suas extensões. Ter poder para virar a própria mesa, independente do que possam pensar ou querer ou tentar; ser autor de sua própria história e assumir os atalhos errantes e os desvios acertados que foram traçados. Muito difícil e temido este estado de coisa.

Como devo ter deixado claro, não se trata de trocar de roupa, de par afetivo, de grupo de colegas ou de partido político que revela nossa autonomia: todo o conjunto de questões que se referem a estas trocas estão no pacote da tal autonomia. Ela é gigantesca e pesada, se analisada à distância, mas doce, meiga e edificante quando vivemos plenamente suas consequências. É um indicativo da vida adulta; um prenuncio das tomadas de decisões sérias e assertivas que devemos exercer, ao longo de nossa caminhada, porém, a autonomia não é para todo mundo. Alguns partem sem nunca terem percebidos que jamais foram autônomos.

Quantos não são nossos parentes ou amigos ou chefes que temem pela sua própria liberdade? Quantos não são nossos companheiros que jamais sentiram o gosto de uma decisão mais firme, por medo do julgamento alheio ou por aquilo que erradamente se chama de respeito? Muitas vezes apenas não queremos criar clima. Muitas vezes, ainda, apenas não queremos ter que explicar nosso ponto de vista contrário às normas de casa. Outras muitas vezes não queremos abandonar um curso que já passou da metade, apenas para não parecermos insatisfeitos ou teimosos; e perdemos o direito de exercer nossa autonomia. A vontade do outro, ou a liderança de outros, ou ainda a existência do outro não pode se caracterizar como limite de nossas atitudes. É preciso enxergar o horizonte que buscamos atingir, com critérios balizados em seriedade e ética, sem deixarmos de planejar as estratégias adequadas para cada etapa deste processo: a autonomia não brota. Ela é construída aos poucos e vai se solidificando a cada etapa desejada e atingida; não se passa por um golpe de sorte nem pelo dinheiro que temos (ou não), mas pelas escolhas e responsabilidades assumidas diante das várias etapas do processo de desenvolvimento humano.

Alguns fatores limitantes são bem aparentes. A indecisão na tomada de decisão é um forte candidato a não nos permitir autônomos. Os indecisos são constantemente iludidos por si próprios, visto que criam ilusões que os seguram num passado onde não vivem mais, porém é saudoso e querido. Não haverá avanço, serão eternamente saudosistas e amargos pelo que não conseguiram se lançar ou construir. Estarão sempre esperançosos mas nunca pró-ativos. Terão uma rotina de dependência da opinião de todos, até do peixinho do aquário sobre a mesa.

Outro fator limitante bastante comum é a falta de iniciativa. Esta se dá em função dos medos de assumir posições e ter que lutar por elas ou, até mesmo, pela própria falta de opinião ou de criatividade. Não ter iniciativa obriga a seguir a iniciativa de outros ou ser apenas mais um num rebanho de liderados sem direito ao voto; triste posição para quem almeja alguma transformação no decorrer da Vida. A falta de iniciativa me leva a ouvir a música dos outros, a ler as notícias dos outros a perder o protagonismo da minha história. Transforma-me em mais um.

O desconhecimento da realidade, o não saber do contexto ou o saber enviesado de algo também me limita na conquista da autonomia. Pessoas com limite de informações e limite de percepções se colocam a mercê da opinião de demais membros do grupo, num mundo tomado pelos preconceitos e pelas noções reduzidas das verdades existentes no contexto. São vítimas de si e dos grupos por onde circundam, sem alterar o giro da roda: existem. E só.

Observar este quadro não é uma visão de toda agradável, mas garante-nos a percepção real da sociedade de consumo onde vivemos e dos membros das comunidades a que pertencemos. Longe não está o fato de vermos algumas pessoas serem tripudiadas ou esquecidas por seus próprios colegas, mas não oferecem reação nem lutam por alguma auto transformação: resignam-se a seus papéis medíocres e assumem posições folclóricas por não atingirem suas próprias autonomias. São liderados por João, porque João fala bem e são liderados por Maria porque Maria tem boas relações. Não conseguem assumir seus próprios caminhos e vivem uma vida sem rumo, sem deixar marcas por onde passam.

O autônomo tem voo próprio. Tem alcance mais amplo de seus olhares e intenções. Planeja com mais firmeza e executa com mais precisão, o que lhe dá mais chance de, se errar, retomar rapidamente ao ponto de partida e reexecutar sua proposta, sem perda de tempo e sem o temor pelo erro: deslizes são etapas da aprendizagem e da edificação, sempre. Possivelmente a marca indelével da autonomia esteja nas tentativas frustradas e nos acertos, que conduzirão ao resultado final satisfatório. Sim, os autônomos também sofrem. E muito.

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Sofrem por sonhar demais. Sofrem por buscar muito e chocam-se com e contra limites morais e éticos que sabem não poder ultrapassar. Mas avançam com passadas duras e rápidas, as vezes até titubeantes, as nunca imobilizam-se, em suas trajetórias: a estratégia do projeto foi muito bem elaborada e muito testada antes de ser colocada em prática. Portanto, não há porque não avançar. E, este misto de teimosia e arrogância conferem a saga de destemido que todo autônomo apresenta, ainda que seja uma falsa impressão ou uma enganosa capa para uma timidez real. Diria que se trata de uma incógnita, porque ser autônomo custa muito caro e paga-se a cada segundo.

Porém, mesmo pagando com gotas de seu próprio sangue, os autônomos seguem em frente e corajosamente continuam a escrever as linhas de suas próprias vidas, mesmo que sem a ajuda de ninguém. Eles são autônomos. Para o bem. E para o mal.

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology. Aluno da FATI.

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