15, dezembro , 2018
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Cantos que nos sintonizam com a natureza: AS BALEIAS

Não foi erro do corretor ortográfico: sim, é com o canto das baleias que vamos nos sintonizar na crônica de hoje, com o assombro da maravilha que pode nos proporcionar. Várias espécies possuem repertório próprio que vem sendo descoberto por pesquisadores em todo o mundo, e ainda há muito a conhecer, se a sanha pela caça aos indivíduos restantes por países como Islândia, Noruega e principalmente Japão puder ser detida: estima-se que já foram mortas quase 2 milhões de indivíduos, reduzindo-se a 5% da população original.

Nada é parecido com o canto das baleias no reino animal, possuindo variação de tons e notas, organizadas em sequencias definidas que formam frases que, repetidas, são chamadas de “temas”. Nas baleias jubarte, cujo nome científico é “Megapteranovaeanglie”, não é a toa que são chamadas de “cantoras” pois esse tema pode durar em média de 6 a 35 minutos, havendo registros de 22 horas!

As jubarte dão um presente às águas brasileiras passando seu período reprodutivo nas águas rasas especialmente da região de Abrolhos, sul da Bahia. “Elas emitem sons enquanto realizam as mais variadas atividades: as fêmeas,por exemplo, conversam com os filhotes, enquanto grupos competitivos da espécie emitem uma diversidade de notas,e os machos costumam cantar. A cada ano os cantos sofrem alterações que consistem na perda de um pedaço mais antigo da frase cantada e na adição de novas notas, aprendido por todos do mesmo grupo”, nos conta o ecólogo Eduardo Moraes Arraut, que trabalha diretamente com a gravação e análise desses cantos em pesquisa na UNICAMP (https://bit.ly/2E3uv5A).

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As baleias jubarte são chamadas de “corcunda”, pois expõem acima da superfície da água seu corpo e nadadeiras em saltos; aliás, é por meio de fotografias de sua cauda que se dá seu monitoramento, pois são únicas, como se fosse seu “RG”. São extremamente dóceis, facilitando a aproximação de pesquisadores e também de seus maiores e mais cruéis predadores, os homens, sendo conhecida entre os navios baleeiros de “rightwhale”, ou “a baleia certa”, pois por ser um animal gigante, com muita gordura e óleo, não oferecia resistência nem mesmo depois de arpoada e sangrando mortalmente. Era o animal certo para ser caçado: maior lucro com menor risco e esforço.

Registros de sua caça remontam há mais de 15 mil anos, pelos esquimós. Mas foi indiscutivelmente com o homem branco e sua caça predatória, e, a partir do desenvolvimento das granadas explosivas e dos navios-fabrica no inicio do século XX, que os limites foram ultrapassados, dizimando-as. Argumentos como o da Islândia, que alega haver competição da pesca com as baleias não é consistente, pois elas se alimentam basicamente de krill, minúsculos camarões, de algas e, em menor quantidade, de peixes pequenos. Carne de baleia é oferecida para os turistas na Islândia e na Noruega ou exportada para o Japão, esse sim com baleeiros na ativa, subsidiados pelo governo japonês, abatendo ilegalmente e sempre colocando em cheque a moratória imposta desde 1986 pela Comissão Baleeira Internacional (CBI), órgão ligado à ONU, alegando entre outros uso em pesquisas científicas, inexistentes.

Uma imagem que ilustra como a caça era feita, por séculos, até inicio do século XX(acima) como os baleeiros não tinham capacidade de trazer os animais abatidos à bordo, estes eram emparelhados ao navio e após se seguia o desmembramento, com um aproveitamento de apenas 10%, sendo o restante do animal descartado. O uso destinava-se a óleo para iluminação pública e lamparinas, fertilizantes, tintas, unguentos para dores; pela sua flexibilidade, os ossos eram empregados em sombrinhas, espartilhos, móveis; o âmbar, até hoje é usado na perfumaria de luxo. Após 1920, com o “progresso tecnológico”, o número de 2.000 baleias mortas ao ano saltou para 20.000, chegando, em 1971, a 70.000. Rumo à extinção, sem peias!

A moratória imposta e assinada pela grande maioria dos países, aliada às ações de proteção, educação e pesquisa têm sido decisivos para a conservação da espécie, e paulatinamente elas começam a se reproduzir novamente, com uma expectativa maior de vida, que chegaria a 60-70 anos sem a caça. Um aparte para a relevância de ações de ONGs mundiais, como o Greenpeace, ou mais contundentes, como o Sea Shepard, para coibir a caça ilegal ainda hoje.

No Brasil temos o Projeto Baleia Jubarte, com muitas atividades locais, pedagógicas, acadêmicas e de turismo para avistar essas dóceis baleias cantadoras(acima): uma experiência que silencia e traz o canto delas para dentro do coração, para sempre!!

Para saber mais, Instituto Baleia Jubarte: www.baleiajubarte.org.br. Vamos ver e ouvir essas lindas baleias cantando? Olha só, sintonizando…


ELIANA CORRÊA AGUIRRE DE MATTOS

Engenheira agrônoma e advogada, com mestrado e doutorado na área de análise ambiental e dinâmica territorial (IG – UNICAMP). Atuou na coordenação de curso superior de Gestão Ambiental, consultoria e certificação em Sistemas de Gestão da qualidade, ambiental e em normas de produção orgânica agrícola.


CRÉDITOS DAS FOTOS:

Principal – baleia jubarte: https://bit.ly/2RvoyB5

Baleeiros: https://bit.ly/2BW8WRH

Visualização baleia jubarte: https://bit.ly/2C0FmKY

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