Plantando consciência. ERVAS que alimentam e curam

ERVAS

Não é de hoje que o ser humano utiliza a natureza para fins de veneração, observação, abrigo, alimentação, saúde, entre outros. Bem antes da comunicação escrita, o homem já sabia quais ervas eram apropriadas à alimentação, para cura, venenosas ou alucinógenas.

O mais antigo documento registrado sobre o uso de plantas medicinais, é um tratado médico chinês de 3700 a.C, escrito pelo imperador Shen Wung. Em 1500 a.C. os egípcios utilizavam ervas aromáticas na culinária, na medicina e nas técnicas para embalsamar seus mortos, assim como os sábios sumérios na Mesopotâmia que detinham receitas secretas conhecidas apenas por eles e pelos feiticeiros.

Na Idade Média, os monges eram os responsáveis pelo cultivo ao redor dos mosteiros e igrejas, e preparo das ervas para consumo como alimento, bebidas ou remédios.

No Brasil o conhecimento das propriedades medicinais das plantas é uma das nossas maiores riquezas indígenas. Passada de geração a geração, o conhecimento profundo que eles têm sobre as características curativas e preventivas da flora medicinal são aplicadas pelo pajé, em rituais cheios de misticismo e magia.

Existe uma grande quantidade de espécies em todo o mundo e, só a Amazônia abriga 50% da biodiversidade do Planeta. De acordo com dados de instituições de pesquisas da região, cerca de cinco mil, dentre as 25 mil espécies amazônicas, já foram catalogadas e suas propriedades terapêuticas estudadas.

Com o discurso de ausência de medicamentos em algumas partes do mundo, principalmente nas regiões rurais e periféricas, a Organização Mundial de Saúde (OMS)vem recomendando desde a década de 1970, o uso de terapias alternativas/complementares nos cuidados da saúde. Estas classificações são oriundas da medicina ocidental, já que na Medicina Oriental (onde se inclui a acupuntura e a fitoterapia chinesa) tais terapias são aplicadas a mais de quatro mil anos e nem sempre foram utilizadas como complementares.

Essas recomendações para a valorização do conhecimento tradicional/ popular foram apresentadas, internacionalmente, na Assembleia de Alma-Ata5(é uma carta de intenções resultantes da 1ª Conferência Internacional sobre os Cuidados de Saúde Primários em 1978) e inseridas nas políticas da Organização Mundial de Saúde (OMS), que recomendou, aos seus Estados membros, a inclusão, em seus sistemas oficiais de saúde, de práticas integrativas e complementares, denominadas como medicina tradicional e medicina complementar e alternativa, e a elaboração de políticas nacionais de valorização voltadas para a atenção primária à saúde.

Em qualquer lista de livros, sites ou compêndios sobre fitoterapia, você não vai encontrar nada sobre a Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha, embora ela seja utilizada há muito tempo em vários países do mundo, para fins medicinais.

Porque ela ainda não figura na lista de plantas medicinais? Porque ela não deve ser consumida in natura devido aos seus efeitos alucinógenos. Mas, um componente químicos presente na planta vem sendo largamente utilizado em várias partes do mundo, menos no Brasil.

Creio que por puro preconceito. A propósito, o texto anterior publicado no Jornal Jundiaí Agora, tratava exatamente do preconceito.

Vamos aos fatos.

A cannabis é uma planta psicotrópica, ou seja, capaz de causar alucinações e dependência, sendo essas propriedades largamente conhecidas e por causa delas, o impedimento de seu uso recreacional em vários países, inclusive o Brasil.

Mas não estou falando de uso recreacional.

No cérebro, os agonistas canabinóides endógenos (endocanabinóides) são responsáveis por diversas funções importantíssimas para nossa saúde, incluindo regulação de temperatura, controle de processos inflamatórios, indução de fome, manutenção de humor, entre outras. Receptores pelos quais o THC (a molécula de interesse presente na cannabis) tem afinidade e é liberado seu uso (Marinol® sintético) há mais de 20 anos nos EUA para fins terapêuticos.

Os contrários ao uso da maconha medicinal utilizam argumentos no mínimo errôneos para seus protestos: a legalização da maconha.

Veja bem, não se busca a legalização da maconha, busca-se o uso medicinal de uma molécula muito interessante para fins de tratamento adjuvante de várias doenças, que é o ∆9-THC, comentado anteriormente, aprovado desde a década de 1990 nos EUA e exportado para vários países desde então.

Outro argumento infundado: não há estudos suficientes para comprovar seus benefícios.

Existem já dezenas de livros e centenas de artigos científicos publicados sobre as propriedades medicinais da maconha.

Por exemplo, em duas extensas revisões, bem antigas por sinal, (Journal of Ethnopharmacology 105, 1-25, 2006; Cannabinoids 5 (specialissue), 1-21, 2010) mais de uma centena de trabalhos científicos são analisados e concluem que: “cannabinóides apresentam um interessante potencial terapêutico, principalmente como analgésicos em dor neuropática, estimulante do apetite em moléstias debilitantes (câncer e AIDS) bem como no tratamento da esclerose múltipla”. Outras tantas mais recentes comprovam seu efeito.

Esse pessoal precisa ler mais…

Mas, a maconha causa dependência…

Sim, um efeito indesejável, por isso deve ser recomendada e acompanhada por um médico especialista, assim como se você precisar de morfina, propofol, entre outros largamente utilizados em ambiente hospitalar. Quando necessário e prescrito por um médico.

Várias sociedades científicas americanas já se posicionaram, há muito tempo, favoravelmente ao uso médico da maconha (Associação Psiquiátrica Americana, Sociedade de Leucemia e Linfoma dos EUA, American College of Physicians e Associação Médica Americana), bem como os Ministérios da Saúde do Canadá, Estados Unidos, Espanha, Dinamarca e Reino Unido já aprovaram o uso medicinal.

Tentar convencer o público de que aprovação do uso médico e legalização seriam a mesma coisa, é uma grande bobagem. É bem possível que um forte sentimento ideológico possa estar por trás dessa confusão, mas para continuar uma discussão científica minimamente aceitável, recomendo a leitura sobre o assunto, em referências mais recentes:

– Dermatology-Related Uses of Medical Cannabis Promoted by Dispensaries in Canada, Europe, and the United States. Lim M, Kirchhof MG.J Cutan Med Surg. 2019 Mar/Apr;23(2):178-184.

– Driving under the influence of cannabis among medical cannabis patients with chronic pain. Bonar EE, Cranford JA, Arterberry BJ, Walton MA, Bohnert KM, Ilgen MA. Drug Alcohol Depend. 2019 Feb 1;195:193-197.

– Understanding the evidence for medical cannabis and cannabis-based medicines for the treatment of chronic non-cancer pain. Campbell G, Stockings E, Nielsen S.Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci. 2019 Feb;269(1):135-144.

Esses e mais 867 artigos relacionados publicados no ano de 2019.

Com tanta informação disponível, não é mais possível viver de achismos e ideias preconcebidas sobre tudo.

Pseudossábios não impulsionam a evolução. Eles são um entrave à lógica e ao progresso e enquanto o debate se alonga e perdura por anos, pessoas que sofrem de dores crônicas (por câncer ou não), enjoos (devido a tratamentos farmacológicos, doenças ou gravidez), em cuidados paliativos, ou qualquer outra situação médica, que poderia se beneficiar do tratamento, já aprovado em várias partes do mundo, têm que aguardar a decisão de pessoas que sequer leem sobre o assunto a que devem votar.

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ELAINE FRANCESCONI

Bacharel em Zootecnia (UNESP Botucatu). Licenciatura em Biologia (Claretiano Campinas). Mestrado (USP Piracicaba) e doutorado (UNICAMP Campinas) em Fisiologia Humana. Professora Universitária e escritora.


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