CONSTRUÇÕES

CONSTRUÇÕES

No terreno em que morava as construções eram precárias. No máximo três cômodos para que coubessem todos. No ar, um clima de insatisfação e brigas constantes. Menina ainda, desejava ter, pelo menos, uma casinha de madeira para brincar, com dois andares, móveis, jardineiras… Nos pequenos compartimentos, colocaria seu anseio de liberdade, de um quarto somente seu, de uma sala com mesa e cadeiras, suas histórias e personagens… Manteve-se na intenção.

Era ainda adolescente quando passou a se utilizar do alcoolismo para mascarar as feridas por dentro que insistiam em sangrar. Repetiu, nesse aspecto, a trajetória do pai. A mãe a abominou e a afastou para sempre do convívio e das batidas ternas de seu coração. Nos intervalos entre a bebida e a lucidez precária, dava um passo firme e outro trôpego na tentativa de acertar o rumo. Veio o marido ébrio e os filhos. Um deles se desacertou aos 10 anos, mesmo ela tendo se ajustado. Ofereceram-lhe a roleta russa das drogas como rito de passagem para o mundo adulto. Disse sim em meio aos inúmeros nãos que já ouviu. Caiu no mundo. A mãe teme que, em algum momento, a bala única do tambor do revólver o atinja. Já alcançou tantos que tiveram a vida cancelada.

Os olhos escuros dela contêm em grande parte desesperança, mas sobra ainda uma réstia de luz.

Para criar os filhos, que permanecem, trabalha na separação de sucata em um depósito. Um dia desses, em meio aos materiais, encontrou uma casinha parecida com a que sonhara na infância. Encantou-se. Pediu ao patrão para levar com ela. Limpou da melhor maneira possível e colocou, na pequena sacada do brinquedo, uma bonequinha de pano. Ficou em destaque em sua estante de caixotes.

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Dias mais tarde, concluiu que não seria mais o tempo. Tornara-se apenas uma peça de adorno, desfeita de sua imaginação da infância. Doou-a para um projeto que trabalha com crianças. A elas daria a oportunidade de um lugar para habitarem as suas fantasias ingênuas.

Ao se despedir, pode ser impressão, mas todos viram miosótis nos olhos dela.(Foto: blog-flores.pt/Pinterest)

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE

Com formação em Letras, professora, escreve crônicas, há 40 anos, em diversos meios de comunicação de Jundiaí e, também, em Portugal. Atua junto a populações em situação de risco.

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