DETESTO MUDANÇAS. Mas, permita-me mudar…

DETESTO

Detesto mudanças.

Tive poucos namorados porque odeio mudanças: de atitude, de rotina, de caras conhecidas, de ruas.

Tudo isso causa-me intenso desconforto, mas nas sete vezes (conta de mentiroso não é mesmo?) em que enfrentei as grandes mudanças de minha vida, e que necessariamente, envolveram mudanças de cidade, foram as ocasiões em que mais aprendi.

Ainda assim, detesto as mudanças.

Elas me obrigam a me adaptar e isso causa um enorme gasto de energia mental e física. Ao final do dia, nas primeiras semanas pós-mudança, normalmente sinto-me esgotada.
É o que vivencio atualmente.

Acabei de mudar-me, com minha família, para um bairro antigo de São Paulo. Aqui pode-se chamá-lo de Pompéia, Vila Romana, Barra Funda ou até mesmo Lapa. Não importa muito, pois em quaisquer dessas localidades, mesmo que separadas por poucos quarteirões, você chegará a outro mundo.

Depois de 20 anos vivendo e criando meus filhos em Jundiaí, fomos parar em um dos centos da agitação da capital paulista.

Pouco entusiasmada e muito amedrontada. Foi assim que vim pra cá.

Há duas semanas não poderia dizer que meus sentimentos mudariam tanto. Estou feliz por fazer absolutamente TUDO a pé.

Aqui tem o senhorzinho que conserta o que você quiser, na rua da sua casa, bem como milhões de atividades culturais e esportivas a 10 passos ou no máximo a dois quarteirões. Tem também escola para todos os gostos e bolsos.

Comida barata. Cinema e teatro de graça. Mercados, bancos, o tiozinho que faz chaves e afia os alicates de unha, a 5 minutos andando.

Tudo isso, com a simpatia do povo brasileiro. Sim, aqui no meio da muvuca tem simpatia sim. As vezes correndo, mas as pessoas ainda tem tempo de olhar pra você e dizer: “Você não é daqui, né?”

Como explicar que sou daqui e dali e de acolá e agora estou aqui novamente?

Não precisei, porque já fui acolhida. Amigos de ontem, de hoje e aqueles que farei amanhã me receberam muito bem. Aceitaram bem a minha mudança.

Menos eu.

Ainda tenho o velho ranço da mudança dolorida, de deixar algumas coisas pra trás, inclusive a velha Elaine, mas até ela precisa se renovar, a vida nos leva a isso, principalmente quando há resistência.

Duas semanas é um período pequeno para amar ou odiar. Posso dizer que as primeiras impressões foram boas, só isso. No futuro poderei contar mais sobre a nova/velha experiência de retornar à minha cidade natal.

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Com a maturidade e tantas mudanças acabei por concluir o mesmo que o sábio Heráclito: “Nada existe de permanente, exceto a mudança”.

Aceitar torna mais fácil, mas não menos doloroso. Optei, há tempos, pela aceitação. E, para meu desespero, Maquiavel disse: “Uma mudança sempre deixa patamares para uma nova mudança”.

Que Deus me ajude a gostar de mudanças!


ELAINE FRANCESCONI

Bacharel em Zootecnia (UNESP Botucatu). Licenciatura em Biologia (Claretiano Campinas). Mestrado (USP Piracicaba) e doutorado (UNICAMP Campinas) em Fisiologia Humana. Professora Universitária e escritora.