Esse texto é mais um da série “Reflexões da Elaine”. A pergunta que não quer calar: O Diabo existe?

Se você fizer uma pesquisa sobre o Diabo, constatará que ele existe em muitas religiões e com vasta nomenclatura. Em algumas, ele é prontamente ignorado como um ser único, fragmentando-se em outros seres, nesse ou em outro plano da existência, que fariam o mesmo serviço desenvolvido pelo próprio Diabo primário.

Não tenho dúvidas de que existem pessoas diabolicamente preparadas para nos levar ao inferno, mas a série “Lúcifer” da Netflix (minha atual obsessão, pois adoro séries), me deu uma nova perspectiva a respeito do Demônio.

Ele, um anjo caído. O preferido de Deus, denominado “Luz da Manhã”, rebelou-se contra o Pai e foi banido dos céus para gerenciar um lugar feio, quente, cheio de almas em dívidas, que ele mesmo cobrará, como descrito em perfeitos detalhes em “O Inferno de Dante” a primeira parte da “Divina Comédia” de Dante Alighieri.

Comecei a assistir a série porque li uma recomendação no Facebook que preconizava: “chega um momento em que você passa a torcer pelo demônio”. De verdade, fiquei curiosa. Como, uma pessoa em sua sanidade, torceria por alguém que quer destruir tudo ao seu redor?

Essa era a imagem que eu tinha de Lúcifer.

Nesta série, ele é retratado como um típico rebelde, apreciador das contravenções mais imorais que você pode imaginar, mas de forma alguma, incita alguém a fazer o que não deseja.

Aqui, então, outra imagem do autor: o diabinho do ombro não existe para ele. A pessoa só faz aquilo que ela deseja, mesmo que seu desejo esteja a uma profundidade no inconsciente, incapaz de ser resgatada pela consciência humana.

Neste compasso, o ser humano peca e o Diabo apenas cobra a sua consciência da dívida contraída. Simples assim.

Mas porque a dobradinha com Deus não deu certo?

Sob o olhar do autor, o Diabo revoltou-se contra a manipulação do Todo Poderoso, ou seja, Deus cria leis, organiza experiências com os seres humanos, testa a sua fé, mas, não tem coragem de cobrar quando eles desviam do caminho. Para isso, tem o Diabo que decidir, por que, convenientemente, foi enviado ao inferno para sujar as mãos.

Lúcifer rejeita a manipulação Divina. Ele quer o livre arbítrio dado “ao brinquedinho preferido de seu Pai” como ele costuma chamar a humanidade, por isso escapou do inferno e agora vive de férias, por tempo indeterminado, na bela Los Angeles, experimentando prazeres carnais de toda espécie.

Aparentemente, ele está se dando bem com isso, pois, continua cobrando as dívidas dos seres humanos, ajudado por uma bela detetive com valores morais rígidos que não faz ideia de quem ele seja, realmente. E já cheguei à terceira temporada e ela ainda nem desconfia!

Não quero de forma alguma fazer um spoiler da série, porém, contar isso me ajuda a expor meu ponto de vista nesse artigo: o Diabo existe sim!

Não importa como ele se apresente, seja um marido autoritário/violento, uma mãe manipuladora/ausente, um irmão competitivo, um maledicente, ladrão de qualquer origem, um país dominado pela corrupção que alivia grandes empresas em detrimento das pequenas ou, ainda, rejeita auxílio externo para aplacar a fome e doença de seu povo. Um país que prende um ladrão de frutas, mas, dá liberdade para aqueles que sacaram dos cofres públicos uma chance de estudo ou saúde de milhões de cidadãos.

O Diabo, certamente existe, embora não seja responsável por toda desgraça do mundo. São as pessoas que produzem maldades, contra as próprias pessoas.

Meu entendimento sobre a série: Lúcifer é o cobrador do ônibus, o motorista é você. Sou eu.

O artigo de Roberto Pompeu de Toledo, na última página da revista Veja de 13 fevereiro de 2019, inspirou meu anjinho interno. Seja ele caído ou não.

O articulista conta como o Estado de Minas Gerais acabou. Acabou literalmente. Várias cidades vendidas à uma empresa que não fez melhor que os portugueses, à época do descobrimento. Dilapidou as riquezas, empobreceu a região, roubou e matou, impunemente. Pelo menos até agora.

O nosso país tem sido derrotado, frequentemente, em tantas áreas, que seria impossível enumerá-las, porém, o que nunca será derrubado, traduz-se na vontade, na esperança e na fé de que dias melhores virão, mesmo que, para isso, seja preciso muita luta e muito trabalho; não vantagens para mim, meus filhos e meus parentes enquanto os seus sucumbem nas ruas, de fome, de doenças e de descaso.

Não devemos culpar o Diabo pelas nossas más escolhas. Ele existe para nos lembrar que para cada ação, existe uma reação, de igual intensidade e direção oposta. Ou seja, tudo o que vai, retorna.

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Abrir os olhos para as opções e escolher, não aquela que apenas me beneficie, mas, que ajude o coletivo, favorecendo além de mim, toda a população. Difícil? Claro que é! Estamos mergulhados em corrupção!

É aquele que ganha a vaga por que é filho de fulano, ou que tem bolsa porque é o querido do melhor amigo, ou por que é amigo do amigo. A tentação é grande para se tornar parte disso e ganhar mais do que eu consigo, ficando fora do esquema.

Ser moral e correto nesse mundo é muito difícil, por isso algo raro de encontrar. Mesmo assim, costumo dizer para os meus filhos: “Hoje sofremos por não aceitarmos esse sistema, mas a recompensa (o Céu, se preferir) se alcança através de uma porta muito estreita, (de difícil acessibilidade) onde pouquíssimos atravessarão, mas, é ali que reside a verdadeira felicidade fraterna, onde todos plantam benesses e todos as colhem.

Sábio, antigo e perfeitamente atual, Mahatma Gandhi disse: “Seja a mudança que quer ver no mundo”. Precisa começar por algum lugar. Por que não por nós mesmos?(Ilustração: www.noticiasdecoimbra.pt)


ELAINE FRANCESCONI

Bacharel em Zootecnia (UNESP Botucatu). Licenciatura em Biologia (Claretiano Campinas). Mestrado (USP Piracicaba) e doutorado (UNICAMP Campinas) em Fisiologia Humana. Professora Universitária e escritora.

 


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