Provavelmente já está na casa dos milhares as pesquisas acadêmicas que apontam os danos dos agrotóxicos para a vida, o que inclui ar, solo e todos os seres vivos. Mas parece que não há limites para a total falta de compreensão e, talvez, uma certa dose de ganância, no esforço de piorar nossa dose diária de agrotóxicos.

Chega a vez de dizimarmos ou alterarmos negativamente o comportamento das abelhas: além da sua morte pela contaminação direta com pulverizações, elas encurtam a vida das abelhas em até 50% (ou seja, de uma população, metade morre e metade vive)mesmo quando as doses dos agrotóxicos não são consideradas letais, ocorrendo especialmente quando mais de um é misturado, nas caldas prévias à aplicação.

E não é só: agrotóxico, considerados inofensivos para as abelhas, alteram negativamente o comportamento de um tipo delas, as operárias, tornando-as vagarosas, o que desregula o funcionamento de toda a colônia. Estas são as conclusões de pesquisa brasileira da Universidade de Federal de São Carlos (UFSCar), UNESP e Esalq/USP, com apoio dos órgãos de fomento FAPESP, Capes e da Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Região (Coapis).

São resultados estarrecedores, pois estamos falando do extermínio paulatino da vida de insetos que são responsáveis pela polinização das plantas que nos servem de alimentos básicos: segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.

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Mas pode piorar? Sim. Esforços têm sido feitos para comprometer a vida do ser humano com o consumo de pesticidas, com destaque para as ações nesse sentido, aqui, no Brasil: apenas do início deste ano de 2019 até a presente data são 152 agrotóxicos liberados pelo atual governo; destes, apenas 18 foram classificados como “pouco tóxicos” pela ANVISA (Agencia Nacional Sanitária). Desta forma, passamos a liderar, com folga, o maior consumo de agrotóxicos do planeta.

Em resumo, todos os ingredientes dos produtos liberados já eram comercializados no Brasil. Mas agora eles passam a ser autorizados para uma maior quantidade de culturas, além de ser permitida a sua mistura, na elaboração da calda (lembram do que mencionamos sobre as abelhas, acima?). Este dado é extremamente preocupante, pois a mistura potencializa os riscos para a saúde: deixam os agrotóxicos “a fundo perdido”, em termos de detecção em análises químicas, onerosas e usualmente realizadas para cada princípio ativo. Em uma canetada joga no lixo o Princípio da Precaução, estampado na nossa Constituição Federal de 1988.

Dentre esses há ainda aqueles já banidos em outros países, como o Imazetapir, herbicida proibido pelos europeus lá pelos idos de 2004; para completar, esta “liberação” inclui a comercialização de produtos para mais de uma empresa, como por exemplo o fungicida sistêmico Azoxistrobina, registrado para a australiana Nufarm e a suíça Syngenta. As multinacionais agradecem.

Podemos encurtar a história: se o caro leitor, já nessa altura espantado, quer parar de ler e passar a ouvir sobre o assunto com quem entende, pule para o vídeo do Youtube, ao final desse texto: lá o brilhante jornalista Bob Fernandes (TV Gazeta) entrevista a Profa. Larissa Mies Bombardi (USP), que discorre com firmeza e propriedade sobre qual é a situação dos agrotóxicos hoje, de subnotificações a supressão de dados, no pais.

Mas se quiser tomar um fôlego e continuarmos, vamos lá: essa mesma pesquisadora publicouo excelente trabalho “Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Européia” (FFLCH/USP,, 2017), um atlas que rastreia, nomeia e expõe a complexa rede que tem como vértice o  agrotóxico, no Brasil. Está disponível, abaixo.

De fato, parece que sinalizamos ir à contra corrente de países como da União Européia (França, Alemanha, Dinamarca etc). Estes têm proibido agrotóxicos novos, retirado antigos e fomentado, por meio de políticas públicas, uma agricultura saudável, sem agrotóxicos, seja natural, orgânica, ecológica, biodinâmica. Para ilustrar a discrepância, vejamos os limites destes pesticidas na nossa alimentação e na da União Européia, expostos na tabela ao lado, pertencente ao estudo citado.

Ficamos atônitos diante desses dados, literalmente de “cair o queixo”: são 400 vezes a mais no Brasil o limite para uso do organofosforado Malationa (ou Malathion), acaricida/inseticida permitido no feijão, no nosso feijão com arroz, prato básico de nossa alimentação.

Também sugerimos outro trabalho extenso e fundamental, de Flávia Londres (link abaixo) “Agrotóxicos no Brasil: um guia para ação em defesa da vida”, de 2011, RJ (RBJA/ANA). São todos uníssonos para alertar sobre a escalada desenfreada de consumo do agrotóxico, como se não houvesse outro caminho senão este, da liberação irrestrita, em quantidades absurdas e do que há de pior.

Mas há outros caminhos, sobre os quais se debruçam pesquisas inovadoras com resultados que são realidade, não promessas: já trouxemos aqui pesquisa brasileira de ponta utilizando tecnologia avançada de nanopartículas, que reduzem vertiginosamente o volume de agrotóxicos a ser utilizado nas aplicações, e assim os riscos aos produtores e produtos; além disso, inúmeros outros manejos muito mais ecológicos, conhecidos, reduzem o ataque de insetos, fungos etc., rumando à harmonia com a vida, e não com a morte.

Finalizamos com essas delicadas imagens, captadas para nos fazer refletir no sono inocente dessas abelhas, no miolo de uma flor: continuaremos nós, entorpecidos, diante desse silêncio ensurdecedor?


ELIANA CORRÊA AGUIRRE DE MATTOS

Engenheira agrônoma e advogada, com mestrado e doutorado na área de Análise Ambiental e Dinâmica Territorial (IG – UNICAMP). Atuou na implementação, coordenação e docência em curso superior de Gestão Ambiental, em consultorias e certificação de Sistemas de Gestão da Qualidade, Ambiental e Normas de Produção Orgânica Agrícola. É autora do livro “Janelas do mundo ao nosso redor”, publicado pelo Clube dos Autores em 2019 (https://bit.ly/2JbUDMm).Veja mais visitando seu site: www.elianademattos.com.br


Mais informações:

Entrevista da professora Larissa Mies Bombardi (USP) ao jornalista Bob Fernandes (canal Youtube):https://www.youtube.com/watch?v=otuxksRGlms&t=782s

Veja também:

http://aspta.org.br/wp-content/uploads/2011/09/Agrotoxicos-no-Brasil-mobile.pdf

http://conexaoagua.mpf.mp.br/arquivos/agrotoxicos/05-larissa-bombardi-atlas-agrotoxico-2017.pdf

http://agencia.fapesp.br/combinacao-de-agrotoxicos-encurta-a-vida-e-modifica-comportamento-de-abelhas-/30295/

Imagem principal: https://bit.ly/2UZbNUD


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