20, abril , 2019
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Como escolher é doloroso, Vitória Maria. Como é difícil tomar uma decisão

DOLOROSO

Não pensei que esses momentos de decidir fossem tão cáusticos e tão doloridos. Nunca passei por situação tão amedrontadora e difícil, quanto está sendo este momento: Vitória Maria, minha companheira de 18 anos, está no processo de partida lento, contínua e irreversível. Ela veio para casa com poucos meses e foi impondo suas características e sutilezas, com uma natureza canina toda especial. Nunca imaginei que esta tomada de decisão, ter de escolher, fosse tão doloroso.

Ainda pequena comeu um sabonete usado em animais com sarna, passou mal, foi tratada, se recuperou ficando mais forte e danada, ainda. Sua castração, ainda jovenzinha, foi motivo de muita apreensão, pois ela era/é hiperativa, e todos (veterinário e nós) temíamos pelos pontos ao logo de seu abdômen. No entanto, com a mesma versatilidade de sempre, ela pulava para a cama e se aninhava em seu lugar, sem se preocupar com a cirurgia. E a cicatriz ficou uma escultura plástica, sem uma marca sequer.

Fiel, parceira, acolhedora, guarda, companheira, Vitória monopolizou a nossa atenção, desde a chegada. Nunca dormiu sozinha, nem nunca ficou trancada para fora de casa: seu lugar é conosco, ou em sua poltrona, ou em seu lado da cama, ou no banco de trás do carro. Ela não é um animal: ela é parte da família.

Com a saúde frágil de minha mãe, Vitória assumiu a posição de cuidadora: saía primeiro, na porta, quando dona Carmen ia atender à campainha; sentava e deitava ao lado da cadeira de jardim da mãe; passou a caminhar ao lado (sempre fora na frente) e devagar, no ritmo da mãe. E na partida dela, ficou ao menos uns dois meses sem entrar no quarto, deitando na porta e olhando para a sala, como se à esperar a mãe.

Ai veio o linfonodo no pescoço. Cirurgia, recuperação, biópsia. Mas Vitória Maria é guerreira. Fortíssima e esperta, ela superou tudo, com maestria. Ao ponto de assumir, novamente, a posição de cuidadora, quando voltei da operação do quadril: ela ficava deitada ao lado da cama e subia do lado oposto à cirurgia, deitando-se ao meu lado, como mostram as fotos que postei numa rede social. Esta é minha fiel escudeira.

Agora, no mês em que completa 18 anos, ela começa a arrumar sua bagagem, para a viagem. Dona Carmen, certamente, estará por perto, nesta agoniante hora e será a responsável por recebê-la, porque lá também existem animais. Eu sinto assim e é isso que vou fortalecer em mim, pois torna a dor menos dolorida. Conversei com veterinários, todos apontam para uma única saída, em função de ela estar sentido dor. E dor é humilhante e tudo o que quero é que ela viva com dignidade até o último instante, aqui.

Mas eu preciso tomar a decisão. A palavra final é minha, a pior decisão, a pior opção. Como poderia querer terminar com algo que sempre foi fiel? Talvez egoísmo, talvez um puritanismo judaico-cristão, talvez um misto de impotência. Fodam-se os “talvezes”, o que sei é expressar a dor que sinto. A dor que dilacera e que martela cada célula de meu corpo; não consigo me ver dizendo: é agora. Não consigo me posicionar contra a Vida.

Estou pedindo discernimento, estou pedindo luz para uma saída honrosa para minha honrosa companheira. Parceira de todo momento e de toda aventura, sabedora de meus segredos mais íntimos e de meus medos mais escondidos. Ela sabe dos meus afetos e desafetos, porque conversamos muito: antes de dormir, coloco o travesseiro dela perto do meu e, enquanto massageio sua barriga (que ela adora) vamos dialogando sobre o dia, sobre o/as ‘farseanes’ que cruzam nossos caminhos, sobre nossas conquistas (conquistamos muito após a partida de nossa mãe), sobre nossas derrotas, analisando os pontos que nos levaram à elas; tudo isso é feito a dois.

Os Escudeiro Machado dialogam muito. Do nosso jeito, com nossas fantasias, com nossos vieses espiritualizados, mas dialogamos muito. Deixei de fazer muitas coisas para não deixá-la sozinha e ela sabe disso, porque eu falo. Estou protelando uma viagem para a Europa, porque ela não merece ficar sozinha neste momento da vida e eu respeito isso. Neurose? Transferência? Não me venha com psicologia barata; isso é respeito a quem sempre me respeitou. Se amo a Vitória? Não vou responder, cara pálida. Não mexe com ela porque a resposta será fulminante.

E, então…um tributo a ela que está aqui, deitada em meus pés, para eu não sair sem levá-la ou ir comer sem dar algo para ela. Um tributo para quem viverá sempre ao meu lado, tenha o desfecho que tiver. E o desfecho é para brevíssimo, pois a situação está chegando ao ponto do irreversível. Consciência tranquila, mas uma dor dilacerante. Nada poderia ser pior. Mas ela não sofrerá patrocinada por mim. Vivi, dona Carmen está chamando. Boa viagem. Vou chorar sim, sempre choro quando me despeço. Mas vou chorar de dor, por me separar de você. Hoje sou idoso e como tal minha oportunidades são reduzidas. Aliás, hoje somos idosos porque você é uma senhorinha de 18 anos caninos, e nossas propostas de vida são menores e menos atraentes, nesta fase da Vida: já não corremos no jardim, não mergulhamos na nossa piscina, não fazemos longas viagens. Mas Vi, como fomos felizes, hein?

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Sabe por que estou escrevendo e lendo em voz alta, este tributo? Porque você me ouve e me entende; daí você pode avaliar quanto seu irmão tem de amor por você. Lindeza, você sempre estará me esperando na sacada, quando eu chegar à noite. Você sempre ficará nos meus pés, quando eu sentar no escritório, para estudar, para trabalhar. Você estará sempre deitada no tapete do banheiro, esperando-me sair do box, após o banho. Você sempre estará porque a Vida continuará e você apenas estará do outro lado.

E estará com aquela pessoa que nós dois mais amamos. Boa travessia, gorda. Boa viagem “quiança”.. Boa viagem  “minha preta”… Agora eu posso chorar não posso?(Foto: hiveminer.com)


Afonso Antonio Machado é docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journalof Sport Psychology. Aluno da FATI.


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