Doutor, um(a) menino (a), por favor!

Nos primeiros artigos que escrevi para o jornal Jundiaí Agora, descrevi com bastante detalhes como, após a fecundação, a célula primordial se desenvolveria em meninas ou meninos. Dei até algumas receitas caseiras (da vovó) ou recomendada por médicos, para favorecer um dos sexos. Agora, estou escrevendo novamente sobre o assunto para dizer que, em um futuro muito próximo, o casal poderá, em uma consulta com o ginecologista pedir: Doutor, um(a) menino(a), por favor!

Saber o sexo do bebê sempre foi o grande mistério da gestação, seguida pela saúde do pequeno rebento. Duas dúvidas sanadas precocemente, já há algum tempo, graças aos avanços da ciência.

Escolher o sexo sempre ficou a cargo de Deus, que criou a biologia para manter em perfeito equilíbrio o nascimento de meninos e meninas, embora um mapa da ONU (Organização das Nações Unidas) tenha mostrado que, no mundo, há mais homens que mulheres, e eles estão mal distribuídos (veja o mapa abaixo).

 

Há algumas explicações para isso.  No Brasil, são 96,7 homens para cada 100 mulheres. Uma explicação seria a maior mortalidade de homens em situação/emprego de risco.

A maior desigualdade encontra-se nos países que pertenciam à União Soviética. Por exemplo, na Letônia existem 100 mulheres para cada 84,8 homens e situação semelhante pode ser vista nos países ao redor, taxa que pode ser explicada pela expectativa de vida e pelo fato de serem países (incluindo a Rússia) que participaram de guerras, fazendo com que o número de homens diminuísse.

Em regiões de conflitos intensos como a Ucrânia, chega a 79,7 homens para cada 100 mulheres e no Uzbequistão, pouco afetado pela Guerra, de 92,3 pessoas do sexo masculino para cada 100 do sexo feminino. Após a guerra outros fatores podem ter contribuídos para a manutenção da desproporção de gênero, como o uso abusivo de bebida alcoólica.

O contrário é verdadeiro em países que valorizam o patriarcado como as nações árabes, países do Norte da África e parte da Ásia, onde a quantidade de homens é superior a de mulheres. Uma das explicações pode ser o infanticídio feminino em alguns países como a China e a Índia. Nos Emirados Árabes e no Qatar a população masculina chega a ser mais que o dobro da feminina. No primeiro, o índice é de 274 homens para cada 100 mulheres, e, no segundo, são 265,5. A explicação, segundo o estudo, seria o número de estrangeiros que vão para esses países para trabalhar.

Então, o que poderia acontecer se pudéssemos escolher o sexo do bebê? Se infanticídio é uma opção, claramente não estamos preparados para isso. Como eu disse anteriormente, quem escolhia o sexo era Deus, mas agora cientistas japoneses também já conseguem fazer isso. Eles desenvolveram uma técnica que permite escolher o sexo do futuro bebê em roedores. Porque não utilizá-la em seres humanos?

Por razões éticas e biológicas.

Vamos ao mais importante: questões éticas. Discutimos isso há seis parágrafos. Em sociedades onde impera a ideia de que o masculino é superior, a distribuição estatística regular entraria em colapso.

Além do mais, temos questões biológicas para resolver. Funcionou em roedores, não significa que funcionará em humanos, que retorna à questão ética: não devemos fazer experimentações desse nível em seres humanos, pois alguns seres humanos tem uma ideia tendenciosa de utilizar achados científicos para outros fins que não o bem comum.

“A história é pródiga em exemplos de utilização perversa de resultados científicos obtidos com a mais cândida das intenções”, disse o ilustre físico Carlos Alberto dos Santos, do Instituto de Física da UFRGS/RS.

Muitas das descobertas científicas, que contribuíram para o progresso da própria ciência, com grande impacto social/econômico foram utilizadas nas guerras com uma aplicação colateral.

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A saber:

– Na Primeira Guerra Mundial, destaca-se a participação de Marie Curie, que trabalhou no serviço médico francês, montando e administrando serviços de radiologia, que foi utilizado como sonar para detecção de icebergs e mais tarde para localizar submarinos inimigos;
– O desenvolvimento tecnológico da aviação aprimorou a atividade militar, mas tenho certeza que nem Santos Dumont ou os irmãos Wrigt pensaram nisso enquanto desenvolviam a sua pesquisa;
– A nobre ideia da fissão nuclear para produção de energia literalmente explodiu quando foi utilizada para matar pessoas, sendo utilizada para contemplar as necessidades energéticas de alguns países somente depois de arrasar com Hiroshima e Nagasaki;
– A teoria da Evolução das Espécies postulada por Darwin foi aplicada de maneira catastrófica para obtenção de uma nação pura, conhecida como Eugenia, que levou Hitler a cometer genocídio a fim de purificar a raça alemã.

Esses são só alguns exemplos.

O fato é, a ciência se desenvolve mais rápido que a moral humana e ambos devem ser estudados e testados, segundo indicou Albert Einstein, mas ao envolver tamanha responsabilidade moral, sabemos que o ser humano ainda não está preparado e, em caso de dúvida, melhor optar pelo que é mais seguro, fazer a mesma coisa aplicada ao tema dos clones: melhor proibir para nos proteger de nós mesmos.(Foto: trocandofraldas.com.br)


ELAINE FRANCESCONI

Bacharel em Zootecnia (UNESP Botucatu). Licenciatura em Biologia (Claretiano Campinas). Mestrado (USP Piracicaba) e doutorado (UNICAMP Campinas) em Fisiologia Humana. Professora Universitária e escritora.


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