16, janeiro , 2019
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E então, AMIGOS…

Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de pena pro ar, põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho, sorrindo para os meus sonhos. Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu brincar. (Poema do Menino Deus, MB)

Afinal, o que seria um amigo? Seria aquele que amanhece ao nosso lado e só desgruda na hora de dormir, novamente? Ou aquele que fica cinco horas no celular, no Whats ou no Facebook e Instagram, contando-nos cada ação, cada pensamento, cada visualização? Ou ainda aquele que não passa uma semana sem nos visitar? Seria isso um amigo?

Uma boa definição encontrada dá encaminhamento para o significado de que amigo é o nome que se dá a um indivíduo que mantém um relacionamento de afeto, consideração e respeito por outra pessoa. Vejamos: relacionamento (coisa difícil nestes tempos, em que não temos tempo para nos relacionar nem com nossa própria imagem, mal nos vemos em nossos espelhos) que hoje já tem seu substitutivo na feição virtual, causando a expressão: estou sempre com ela no Insta!! Somos amigos no Face!! Frágil relacionamento…

Afeto, questão de foro íntimo e, portanto, delicado. Somos afetuosos ou somos educados com fulano? Somos corteses ou somos afetivos com beltrano?  E, então, se abre para os inoportunos e invasivos, que ao serem bem tratados já trazem roupa de baixo, escova de dentes e se acomodam em nossas vidas. Com uma intimidade castradora de nossas vontades e com uma sem-cerimônia que nos abafa e reprime. Somente por termos sido simpáticos e afetivos com pessoas que não enxergam limites e distâncias sociais e afetivas entre pessoas. Geralmente são caçadores de oportunidades: oportunidades de crescer na sombra do outro ou de ganhar o coração descuidado. Mas não são nada mais que oportunistas.

O que dizer da consideração? Consideração é aquela percepção que temos de pessoas significativas; considero fulano pelo pai que teve! Tenho sicrano na mais alta consideração pelo tanto que vivemos juntos em 2010! Beltrano é uma das pessoas a quem mais considero por toda sua história de Vida! Existem razões que não percebemos com clareza mas que nos traçam elementos de grandes considerações e fazem a diferença, na relação humana. Este fato é gratificante e identificador. Tudo tem lá sua identidade e imprime a nossa identidade, também.

Já o respeito, esse é poderoso…

Como manter um relacionamento sem o respeito? O respeito ao espaço do outro. O respeito ao tempo do outro. O respeito ao silencio do outro. O respeito à escolha do outro. O respeito à fé do outro. O respeito à liberdade do outro. O respeito ao querer do outro. Enfim, o respeito àquilo que seja de outra pessoa que não nós próprios. Que coisa difícil!!!! Que proposta ferreamente oportuna, num momento em que mais se desrespeita aos outros!!! Que treinamento para a alteridade mais eficiente!!!

Desta forma, quando falamos em amigo, falamos num ser humano portador destas “virtudes” enobrecedoras e para mantê-lo amigo, devemos trafegar nas mesmas canaletas de relacionamento, afeto e respeito. Claro que cabe uma questão: conseguimos tal proeza? Pensamos num relacionamento sério (sem ser o apenas sexual ou amoroso ou filial?), comprometido com o crescimento de ambos? Sem ter ganhador e perdedor, pois não é uma competição….

Somos afetivos e aceitamos a afetividade alheia, separando as invasões e aberrações (aliás, excluindo-as de nossa zona de existência por um raio de 758888876556787655 ‘quilômetros-luzes’ de distância, porque tratam-se de pessoas tóxicas), de modo a trocarmos cordialidades, carinhos e afetos, porque estamos entre iguais e cresceremos com igual desenvoltura (diferente de quando estamos com o invasivo que nos limita, nos oprime, respira por nós, quer ficar colado, não nos permite ser e não percebe que além de chato é inoportuno).

Neste exato momento entra o respeito. O amigo respeita. O amigo, quando ouve o silencio, sabe ler o que ele quer dizer. Sabe o quanto significa aquela situação de reserva e distanciamento; não se faz de queridinho nem se faz de sábio, porque não é! Ele é amigo. E basta.

Estes dias, disse numa das redes sociais por onde passo, que…”Vida, como você me ensina; quanto aprendi com você …”. Talvez tenha sido uma frase de efeito e comum para alguns. Mas, nesta fase de minha existência, é uma frase forte, séria e comprometida com minha realidade. Ao menos com minha realidade atual. E isso é o que vale, para mim.

Saio de uma cirurgia de grande porte, mudo de endereço residencial, mudo telefone, termino faculdade, aposento…quer momento mais ímpar? Quer algo mais significativo numa existência? O existir, o sentir e o fazer, tudo acontecendo num mesmo espaço de tempo e num mesmo sujeito de história…que busca ser feliz e se reequilibrar diante de todas as transformações e ressignificações advindas destes movimentos (que chamaria de caóticos, mas vou deixar passar). Alguns amigos ficaram. Outros desistiram porque não conseguiram furar o cerco que eu levantei (porque não quero muletas nem amolação nem baba-ovos). E outros, mais insistentes, eliminei somente porque não foram respeitosos nem afetivos: eram insistentes, invasivos e imorais.

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Invadir espaços íntimos do sujeito-homem rende o atributo de imoralidade. Ser insistente e invasivo, ser oportunista e dissimulado fere as características da decência humana e enfeia a humanidade. É, sim, uma característica humana, mas dos imorais. E destes estamos fartos.

Então, sobre os amigos: como é bom ter amigos. Daqueles que se pode ficar sem ver 40 anos. Daqueles que se pode sentar, lado a lado ou frente a frente e ficar calado por longos minutos. Daqueles que se pode dizer: pensei tanto em você, hoje cedo. Daqueles que se consegue sentir o que ele sente. Daqueles que são diferentes da gente mas que nos acarinham e embalam diante de cada diferença.

Destes tenho poucos. Uns cinco. Sei, talvez, mas me preenchem. Somos felizes. Nós nos completamos da maneira que somos e somos satisfeitos com nossas existências. A qualidade da relação supre as demais dificuldades existências.

A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas. Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois, com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda.(Poema do Menino Deus, MB)


AFONSO ANTÔNIO MACHADO

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduando em Psicologia, editor-chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.


Ilustração: ipib.org

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