Utilizando uma caixa de areia, um computador e um sensor já aposentado pela Microsoft, o professor Felipe Costa Abreu Lopes, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), em Jundiaí, criou experimento que simula o rompimento de uma barragem(veja vídeo abaixo). Ele contou com a ajuda de Caio Vinícius Watzceck Ciaverelli, técnico em informática do instituto.

O sensor reconhece o movimento e o ambiente. Ligado à caixa e ao computador, a realidade é ampliada para que os alunos de Geografia entendem como ocorreram as tragédias de Mariana e Brumadinho, em Minas.

Na parte de cima, tem o sensor e um projetor. O aparelho detecta o formato da superfície com areia e o projetor monta as curvas de nível e as cores. O sistema também reconhece quando um usuário abre a mão acima da caixa, criando um sistema de fortes chuvas alagando uma determinada região. O Jundiaí Agora entrevistou o professor Felipe:

Como e por que surgiu a ideia de realizar este projeto? Foi depois de Mariana? A tragédia de Brumadinho já tinha ocorrido?

O projeto consiste em uma caixa de areia com sensores que simula o relevo e o comportamento da água sobre ele. A ideia surgiu depois que vi alguns vídeos na internet sobre o tema e, finalmente, vi uma delas funcionando em 2016, que foi feita por professores no Paraná. A simulação do rompimento de uma barragem veio com os infelizes acontecimentos de Brumadinho e com a prática que estávamos fazendo na caixa. Fizemos um teste para mostrar aos alunos a dinâmica da água e como os impactos podem ser grandes em casos como esse.

Quais os objetivos desta caixa com sensor?

O objetivo maior da caixa é ser usada como instrumento de ensino. Com ela podemos ensinar muitas coisas sobre elementos naturais. Disciplinas como Geografia, Biologia e Física se beneficiam bastante. Podemos montar cenários e mostrar como a água se comporta em cada um sem ter que ir até o lugar (economizamos bastante dinheiro do nosso orçamento já apertado). Entre as coisas que já fizemos estão: comparação do comportamento da água entre um local com curvas de nível e outro sem (a exemplo das encostas que vemos nas vertentes nas beiras das estradas em todo o país), formação de ilhas, formação de atóis, aumento e descida do nível dos oceanos e suas consequências para a migração de espécies, simulação de barragens, de áreas de enchente e representação de vários tipos de relevo.

Como material para aulas de geografia, qual a importância dele?

É muito importante para o ensino de Geografia a vivência do aluno, porém muitas vezes falamos sobre lugares ou paisagens com os quais os alunos nunca tiveram contato e, além disso, alguns assuntos são muito abstratos para eles. Esta caixa permite que façamos várias representações de diferentes lugares e podemos elaborar explicações práticas que estão auxiliando muito no entendimento da matéria.

Qual a reação de quem vê o estouro de uma barragem em miniatura?

A reação é sempre de “noooossa” e segue um silêncio breve antes que a explicação sobre o cenário comece. É uma mistura de espanto por ver a simulação prática ao vivo com a relação que se faz com a realidade.

E senhor? Ficou surpreso com o realismo da experiência?

Fiquei muito surpreso sim. Nunca tinha manipulado essa caixa antes e estou descobrindo vários usos para ela. A simulação do estouro da barragem em especial traz mais impacto por causa dos últimos acontecimentos.

O projeto levou muito tempo para ficar pronto?

Fizemos a caixa desde o “zero”. Compramos uma chapa de compensado naval e trabalhamos eu, o Caio (do IFSP) e um grupo de aproximadamente 20 alunos. Sem eles eu não teria conseguido realizar esse projeto. Desde o início do plano de corte, corte, lixa, verniz, montagem e configuração, levamos aproximadamente dois meses trabalhando em torno de três vezes por semana.

Hoje, os noticiários falam muito dos sensores que havia na barragem de Brumadinho. Este projeto do senhor poderia ser implantado numa situação real? 

Esse projeto é voltado para o ensino, então ele não tem a configuração necessária e nem a sensibilidade dos instrumentos oficiais usados em barragens verdadeiras. Para a construção de barragens reais também são elaboradas maquetes em escala e são feitos testes parecidos, porém com muito maior rigor técnico. Mesmo assim não se pode descartar que em um futuro próximo os testes oficiais sejam feitos também com realidade aumentada, o que os tornaria mais eficientes em tempo de execução e em custo.Uma mesa como a nossa não serve para esse tipo de trabalho técnico, mas como instrumento de ensino é fabulosa.

Como o senhor vê duas tragédias tão parecidas, em locais tão próximos em tão curto espaço de tempo? Fatalidade? Descaso? Burrice?

Minha experiência e meus trabalhos de pesquisa e de pós-graduação são na área de movimentos de massa (escorregamentos). Não sou especialista na construção de barragens, mas assim como nas áreas de risco de escorregamentos, o monitoramento deve ser constante, porque as consequências podem ser catastróficas. No caso dessas duas tragédias acredito que pode ter ocorrido falha no monitoramento das barragens.

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O senhor, os especialistas, acreditavam que isto pudesse ocorrer novamente? Era uma tragédia anunciada?

Sempre acreditamos que isso não ocorrerá novamente e que todas as normas estão sendo cumpridas, todavia trabalhos de contenção sempre têm riscos associados e cabe aos responsáveis gerenciá-los para que sejam diminuídos o máximo possível e ao poder público planejar as áreas de ocupação próximas à essas áreas.

Ambas poderiam ter sido evitadas? Se sim, como?

Não sei dizer se poderiam ter sido evitadas, porque desconheço as condições das barragens, mas o que poderia ter acontecido, com certeza, seria uma maior firmeza na fiscalização, controle e posteriores punições às empresas e aos responsáveis envolvidos.

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