Por que nossos contatos são tão FRIOS E EXPLOSIVOS?

Vivemos num momento aterrador. Nada surpreende ou tudo se transforma numa guerra. Não estamos encontrando equilíbrio nem serenidade para vivermos o tempo presente sem um prévio juízo de valores, na maioria das vezes, totalmente negativo. Por que estamos assim, tão desequilibrados? O que tem transformado nossos dias e nossos contatos tão frios ou tão explosivos?

Na verdade, estamos vivendo uma época do imediatismo, momento em que as pessoas agem de pronto sem uma maior reflexão sobre os fatos; poderia arriscar que não se trata nem de refletir, mas de pensar na questão em que estão envolvidos e, desta forma, passa-se a agir instantaneamente como se fosse apenas pelo instinto de sobrevivência, o que chega a ser arcaico.

Porém, com olhos mais aguçados percebemos que vivemos num período de passividade da elite, que busca apenas analisar os lucros financeiros e o status social, sem perceber que o entorno está corroído e apodrecido. A elite financeira, excluindo os dividendos que caem em suas contas, olha o povo de forma distante, como se fosse um bloco de humanoides a serviço dos poderosos.

Fica difícil excluir esta visão, uma vez que a população está sendo cada vez mais usada e sugada e aqueles que têm poder financeiro levitam sobre benesses e descompromissos. Cabe a população menos endinheirada reclamar das escolas, dos meios de transportes coletivos, da segurança nas ruas e bairros, da saúde deficiente, das moléstias, dos hospitais sem leitos. Os poderosos pagam por isso.

E, por não necessitarem dos serviços coletivos que são oferecidos à população (leia-se casta subalterna), aliam-se aos poderes constituídos e, como verdadeira elite, olham para a ‘pobraiada’ com certo desdém. Pensam? Sim, pensam. Mas são passivos diante do contexto geral do país, sem se esforçar para que algo melhore ou mude de rumo: Enem, Enade, Segurança pública, Saúde pública, etc são departamentos que não fazem parte dos seus mundos.

A passividade da elite é proporcional ao grau cultural dela. Daí a coisa fica triste, porque um atleta semialfabetizado é considerado elite, um sonegador de impostos ou corrupto ou operador de negociatas estão sendo cotados como elite brasileira; mas vejam o grau de criticidade e de visão social destes e percebam o quanto falta para uma melhor visão de Mundo. Claro que não podemos perder de vista que a globalização tem um peso grande nesse contexto, sem que seja definitiva e decisivamente a única culpada.

Infelizmente perdemos o trem da história; hoje fica mais correto ter dinheiro, ostentar casas e carros, mesmo que ainda falemos ‘seje’, ‘esteje’. O que conta é quanto temos aplicado e quanto gastamos num camarote do Lollapalooza. Vale o uísque que tomamos ou o vinho importado. Cultura é coisa de viado.

Este é o nosso Brasil. Esse é o Brasil que nossos jovens de até 30 anos curtem (porque o jovem de 25 a 30 anos ainda mora com papai, ainda depende da família). Se isso assustar, cabe-nos indagar: o que tenho feito para mudar esta proposta mal ajambrada que temos em andamento. O que temos feito para tirar a elite da passividade?


E devagar os santos de barro vão se partindo. Lembro-me de haver escrito sobre o Gabriel Medina, nosso supercampeão de Surf. Falei que ele mentira quando disse na TV que em semana de campeonato só come alimentos naturais e dorme oito horas por dia, sem excesso de parte alguma e que se priva da vida sexual.

Lembro-me mais: que alertei para o fato de uma aluna que reside em Americana haver dito de um luau, na praia, na antevéspera do campeonato, e que Medina ficara com uma amiga sua. Isto posto, sexualidade resolvida e uma bela dormida até meados da tarde, tudo volta ao seu lugar e a mentira é repetida, inúmeras vezes, até se transformar em verdade. E Medina passa a ocupar o posto de bom menino, praticante de esporte cheio de virtudes virginais.

Então, mas vazou um vídeo em que ele aparece transando com uma garota. E seus agentes socorrem-no dizendo que o vídeo é antigo, de 2012 ou 2016. Acho que não entendi: filmar uma transa com uma garota em 2012 ou 2016 ou 2000 muda o teor da exposição? Fica menos grave? Fica mais honesto?

Porque se for nesta linha, quem roubou em gestões passadas está perdoado. Quem sacaneou em 2015 está liberado, quem mentiu em 2018 está perdoado. Qual a regra e para quem ela serve? Com a palavra seu Gabriel Medina, o bom moço. O que está valendo? Esse papinho de bom moço já foi longe demais e suas incursões no mundo dos famosos já estão começando a ser pelas portas do fundo.

Querer içar todo atleta ao posto de modelo da civilização acaba dando em propostas pouco edificantes. Já tivemos vários exemplos que não são aconselháveis e outros que já se tirou de circulação, mas garantir uma passividade por causa de uma fala mansa e tendenciosa é algo que carece de uma análise melhor realizada. Quando comento sobre isso em sala de aula, os alunos ficam preocupados por não saber para que lado olhar.

A proposta é clara: olhem pelo lado do real. Do verdadeiro. Do óbvio. O atleta não deixou de ser humano e se transformou num semideus. Simples e objetivo. Mas pregar de bom menino e postar filminho de transa com ‘peguete’, tem outro nome: safadeza. E oportunismo. Para um e para outro.


Nunca vi nada mais preconceituoso que religião e religiosos. Numa sociedade dita cristã, parece que todo mundo é obrigado a ser cristão-judeu e abraçar o catolicismo, como se fosse a única porta da salvação. Concorrem com estes, os evangélicos radicais, para quem haverá um Céu somente deles e ninguém, mas ninguém mesmo, romperá as setes portas do Céu sem passar pela igreja ou congregação deles.

Entretanto, em minhas andanças pelos vários cultos e portas abertas, onde se fala de Deus, encontro dos dois tipos, sempre se dissimulando e dizendo que está ali com um tio doente ou com a avó velha, que pediu carona. Mas está ali. Já vi gente deste naipe em centros espíritas kardecistas, em terreiros de Umbanda, em roças de candomblé, em templos budistas, em salões de Seicho No Ie ou igrejas messiânicas.

Pasmem, já vi ministros da eucaristia e pastores em incursões por estes lugares, sempre dando uma desculpa indesculpável, mesmo porque o Deus daquelas casas é o mesmo Deus deles, em suas origens. Apenas bem menos hipócrita, é claro. Por que justificar a presença num templo qualquer, se o objetivo é o culto ao Deus, que é Único, Absoluto e Verdadeiro? Que pobreza. De espírito, não é? Mas sigamos…

Parece que hoje a juventude tem se prendido em desvendar e perpetuar seus credos em algo mais solto, mais descontraído; desta forma o número de jovens adeptos à Umbanda e ao Candomblé aumentou 32% no último senso; isto cobra olhares mais aguçados e curiosos: o que estaria promovendo esta procura pelos cultos afro-brasileiros, numa população criada num lar judaico-cristão?

Informações sugerem que as coisas estão mudando principalmente porque famosos, como Henri Castelli e Juliana Paes, estão se declarando praticantes da Umbanda ou Candomblé. Desta forma, o preconceito está diminuindo, porque tem muito artista famoso falando sobre isso. As pessoas estão aceitando melhor, porque o núcleo popular e das artes e cultura está assumindo este lado da sua vida.

A fé precisa ser tratada com muito cuidado nas redes sociais e não ser apenas um instrumento para ganhar like. Não se tem que postar fotinhos fofas pedindo que se devolva ou pedindo para enviar para 10 ou 20, porque o poder da oração está ai. Não. Primeiro porque não há Deus ou Santo que não tenha o que fazer a não ser punir quem não reproduz as correntes; segundo porque ninguém merece ficar de rebatedor de correntes insanas.

Entretanto, a religião está sendo vista com menos preconceito, apesar de ainda existir muitas gafes. A gente tem que perceber e lutar contra esses estigmas e não fazer parte de uma seita ou religião apenas para postar a foto de adoração ou de reverência nas redes sociais. Religião e fé andam juntas mas são diferentes: a religião é o credo e toda sua cerimonialística, seu ritual. Fé e espiritualidade é aquilo que sentimos, que nos move, que nos direciona e impele ao nosso Deus e aos seus propósitos.

Assim é também na Umbanda e no Candomblé, que voltam a emergir no Brasil, junto aos jovens, ainda que de maneira estranha e oportunista. Tanto na Umbanda como no Candomblé temos muita coisa que vem sincretizada e pertence ao mundo afro-brasileiro e ao mundo judaico-cristão. Roupas, e guias fazem parte destes elementos, mas apresentam significados específicos; a ver: uma guia no pescoço não é apenas um colar, mas um adereço que simbolicamente faz alusão à uma entidade. E merece respeito.

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Vale ressaltar que uma guia é, prioritariamente, um adereço, ela só se torna uma guia se for consagrada e usado com entendimento. Sem sabedoria até no pescoço de um médium dentro do terreiro vira só um ornamento. Vemos fotos de jovens no Carnaval usando um colar que se assemelha muito a uma guia, cruzado no peito. Ela, para os umbandistas e candomblecistas, tem uma simbologia, um significado. Naquele contexto era o quê? É um grande mico para quem olha e sabe o que aquilo deveria significar se usado adequadamente.

Religião e cultura de alguém nunca é fantasia para os outros,compartilho da ideia de que nenhum símbolo religioso deve servir como ornamento. Não acho que uma cruz ou uma mandala devam ser usadas como enfeite, por não serem enfeites, são símbolos merecedores de respeito pelos seus seguidores e pelos demais, que respeitam estes seguidores.

Ao ver tantos jovens imergindo nos cultos afro penso: será que eles sabem que a tarefa não será fácil? A iniciação prevê uma preparação para os trabalhos da casa: é preciso trabalhar na limpeza e na logística das celebrações que acontecem ali. Ai, então, teremos uma espécie de “seleção natural” que separa os curiosos dos adeptos verdadeiramente comprometidos. Tomar banho frio, limpar o banheiro, passar algumas horas da sua vida no terreiro cumprindo tarefas. Está ai o rito: cumprindo tarefas.

Conhecer a casa, ter curiosidade, é completamente legítimo. Difícil é manter-se com o mesmo interesse diante dos trabalhos que uma casa de santo pede… Repetindo e parafraseando um autor, Viva o ESTADO LAICO! Que todos possam viver plenamente suas crenças religiosas ou seu ateísmo, e serem respeitados.

Abaixo os fundamentalistas que acham que somente eles estão certos! Chega de guerra e agressão por causa de religião; isto está sendo bem retratado no folhetim que a GLOBO apresenta em seu horário nobre, onde uma beata destrói a vida das pessoas em nome de seu fanatismo e leitura enviesada da religiosidade.

Que sejamos felizes sendo aquilo que pretendemos ser e que respeitemos a crença alheia; a aceitação do outro nos faz maior, porque abarcamos um pedaço da natureza do nosso semelhante.(Foto:www.dpicopacabana.com.br)


Afonso Antonio Machado é docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journalof Sport Psychology. Aluno da FATI.


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