Nessa coluna semanal pretendo escrever mais sobre o corpo humano por razões óbvias, mas alguns eventos nos tiram do lugar comum e nos lançam a profundas reflexões que gostaria de compartilhar também. Esta será sobre a humanidade.

Terça feira, dia 28 de março de 2017, seria um dia completamente corriqueiro se eu não tivesse esbarrado com um total desconhecido na Rua do Lar São Vicente de Paulo em Jundiaí.

Meus amigos conhecem minha veia artística de reformadora de móveis antigos que adoro colocar em prática, mas que infelizmente, desde que abracei a maternidade ficou em 506º lugar. A visita ao Lar São Vicente tinha como objetivo encontrar um objeto que há muito cobiço: um abajur antigo para reformar e colocar em meu quarto.

Estacionei o carro na rua do Retiro e atravessei a rua em direção ao meu objetivo. Notei que um rapaz maltrapilho caminhava em minha direção. Assustada por estar absolutamente sozinha ali mudei de calçada, o que ele prontamente repetiu.

Meu coração a essa altura batia tão forte que parecia ter o poder de arrebentar as minhas costelas. Era possível ouvir o sangue fluindo dentro das veias, tamanha a velocidade que alcançara.

Nervosa e ofegante ouvi-o me chamar:

– Moça… Poderia conversar com você alguns minutos?

Sua voz era mansa, terrivelmente calma e…doce.

Virei-me lentamente. O pensamento que não me abandonava era: “Então é agora que minha integridade física vai para o espaço”. “É assim que inicio essa linda terça feira ensolarada….assaltada….machucada….e sabe-se mais lá o que….”

Encarei o jovem estranho, sujo, de olhos muito vermelhos e um sorriso tímido, como se pedisse desculpas por existir.

Reuni toda a minha coragem e falei:

– Sim.

Toda uma existência de medo da violência nas ruas e desconfianças de estranhos maltrapilhos, presas a essa pequena palavra.

Que outra alternativa poderia ter sozinha ali, naquela rua com aquele estranho? A única opção era ouvir o que ele tinha para falar e rezar para que eu tivesse sorte e proteção dos céus para sair dali ilesa.

– Moça – ele começou a se explicar – sou artesão de rua e a polícia levou todas as minhas ferramentas de trabalho, agora não consigo mais produzir para vender, mas se me der oportunidade, pegarei qualquer coisa que achar e farei um trabalho para você. Pode pagar o que quiser. Preciso de um pouco de dinheiro para comer.

Examinei com cuidado seu rosto jovem tão sofrido e meu coração que antes pulava como um louco agora parou por um instante. Seu semblante era sereno e tão sincero….

Sorri para ele e respondi:

– Adoraria.

Fiz uma pequena pausa para respirar, meus pulmões ainda não tinham percebido que poderiam encontrar ar com um simples movimento.

– Eu vou até o Lar São Vicente e já volto. Acha que dá tempo para encontrar algum material e fazer um trabalho para mim?

– Dá sim.

Respondeu contente já me dando as costas para encontrar algo em que pudesse trabalhar. Parou e me olhou sorridente.

– Qual é o seu nome?

– Elaine.

Respondi automaticamente correspondendo ao seu sorriso.

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Segui na direção do lar e o rapaz desapareceu das minhas vistas. Infelizmente não encontrei no bazar o que estava procurando, mas comprei um pacote de broa de milho e um refrigerante para dar ao rapaz, caso realmente estivesse me esperando do lado de fora.

Encontrei-o sentado na calçada da entrada do Lar São Vicente concentrado em algo em suas mãos. Agachei-me ao seu lado para observá-lo trabalhando. Ele tinha mãos extremamente hábeis. Entortava, torcia, esticava um pequeno pedaço de arame grosso que em outras mãos provocariam apenas ferimentos e arranhões.

– Você é muito talentoso, falei impulsivamente.

– Eu gosto de fazer isso.

Ele respondeu sem me olhar. Apenas quando finalizou seu singelo trabalho ele me encarou novamente.

– Aqui está. Esticou o braço com uma mão aberta contendo meu nome escrito em um pedaço de arame(foto acima),

Como se não bastasse eu ser uma pessoa extremamente emotiva, ter sentido medo, aversão, desconfiança e finalmente um certo alívio ao perceber que minha integridade física dessa vez seria poupada, ver meu nome escrito ali, adicionou doses extras de emoção e principalmente alívio. A vontade de chorar veio como um tsunami.

Sorri grata pelo trabalho e estendi minha mão para entregar-lhe seu lanche, pagar com sete reais (era o que eu tinha naquele momento) pelo meu nome no arame e sair dali o mais rápido possível antes que as comportas das lágrimas fossem definitivamente abertas.

– Não precisa pagar não moça. Quero agradecer por ter me dado atenção. Esse é o seu pagamento. Ele falou sem graça olhando para o chão.

Pisquei umas cem vezes antes de processar totalmente o que ele disse. Por um momento esqueci que eu tinha a capacidade de falar. Forçando-me a dizer alguma coisa fiz um esforço extraordinário para movimentar os lábios.

– Claro que precisa. Precisa se alimentar e receber pelo seu trabalho.

Foram as únicas coisas que consegui falar. Entreguei a sacola e o dinheiro para ele e fui embora.

Então veio a reflexão superficial: a violência, a pobreza extrema, as necessidades básicas não satisfeitas estão à nossa volta, mas por não vivermos nela, fingimos que não existe. Criamos uma casca para isso. Aparentemente não nos importamos, desde que não nos atinja.

Mais tarde, em meio a um mar de lágrimas (identifico-me com esse termo, impossível parar quando começo a chorar) vem uma reflexão mais profunda: em que momento deixamos de ouvir nosso semelhante? De nos importar com ele? Afinal, ele sou eu. Ele é minha mãe e meu pai. Deus!  Ele é meu filho! Somos partes de um todo. Somos humanos, portanto o conjunto de nós mesmos e nossos semelhantes chamamos de humanidade.

Filosofando um pouco sobre humanidade: “Dá-se o nome de humanidade ao conjunto dos seres humanos, como um todo, Homem ou espécie humana. De uma forma abstrata, humanidade também é uma expressão que sintetiza as características partilhadas por todos os humanos, com especial ênfase na capacidade do Homem como ser compreensivo e benevolente”.

Onde estava mesmo essa compreensão e benevolência? Cadê a empatia? A compaixão? De um modo súbito veio o pensamento de que eu poderia ter feito mais embora não soubesse exatamente o que.

No dia seguinte voltei no mesmo horário e lugar para tentar encontrá-lo e talvez oferecer de volta suas ferramentas de trabalho. Mas ele já não estava mais lá.

Fiquei frustrada embora essa experiência tenha renovado minhas energias e me alertado para não viciar o olhar para a minoria que é violenta, que rouba, machuca, joga ácido no rosto e sim para enxergar a verdadeira miséria e necessidade, poisaprendi a julgar todos a partir de um. É um treinamento difícil e arriscado, pois a violência está aí, diariamente, para confirmar nossos medos.

De qualquer forma, apesar do risco imenso de errar, creio firmemente valer a pena ser capaz de reencontrar a humanidade dentro da humanidade.

 

HUMANIDADEELAINE FRANCESCONI

Bacharel em Zootecnia (UNESP Botucatu). Licenciatura em Biologia (Claretiano Campinas). Mestrado (USP Piracicaba) e doutorado (UNICAMP Campinas) em Fisiologia Humana. Professora Universitária e escritora