15, novembro , 2018
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No JAPÃO, Murata sente vergonha dos escândalos políticos brasileiros

Depois de passar anos trabalhando na informalidade, Marcelo Yoshio Murata Hashimoto, de 48 anos, conseguiu emprego de caminhoneiro. Só que no Japão. Dirige mais de 800 quilômetros por dia. Algo em torno de 20 horas. Mas pergunta se ele quer voltar… Murata – que é casado e tem uma filha de nove anos nascida no outro lado do mundo(foto ao lado) – diz que sente saudade de Jundiaí. E sente vergonha quando os noticiários de lá falam sobre os escândalos políticos tupiniquins. Na foto principal, Murata está bem em frente ao Templo Asakusa, em Tóquio. A entrevista com ele:
Quais suas origens em Jundiaí?

Nasci na Vila São Paulo, rua Olinda, Agapeama. Mudei aos cinco anos para o Retiro, na rua João Iotti, a duas quadras do Cemitério Parque dos Ipês. Pertenci a uma das primeiras turmas a inaugurar a Escola Diógenes Duarte Paes em meados de 1977. Estudei nesta escola até a 6ª serie do ginásio (na época era assim). Dpois me transferi para a escola Anna Rita Alves Ludke, na vila Alvorada (onde conheci e tive o prazer de ter aulas com o professor Luiz Lessi. Eu me formei técnico em mecânica no antigo Industrial. Este era o nome da escola Antenor Soares Gandra, bem no centro. Eu, meu irmão, minha mãe e alguns tios e primos viemos para o Japão em fevereiro de 1990. Os motivos eram óbvios: em busca de uma oportunidade de emprego e salário melhores!!! Desde então são 28 anos vivendo aqui.

Tinha parentes aí?

Não, não tinha parentes conhecidos. Como sou descendente direto de japoneses, meus avós têm familiares aqui.

Foi um choque cultural?

Logo que chegamos a cultura realmente nos surpreendeu muito. Mas, o que mais me magoou foi o preconceito que existia com os estrangeiros, mesmo sendo descendente. Nas cidades do interior, o povo é muito nacionalista. Admiro isto. Mas havia preconceito. Hoje não existe mais da forma como era. Está muito melhor agora, inclusive para se adaptar à cultura também.

Fora o preconceito, o que mais surpreendeu você?

Até hoje o que mais me surpreende é a discrição, a educação e paciência do povo japonês. Aqui é muito raro se ouvir buzinas de carros. Ninguém grita e não se vê brigas. Há respeito sempre.

O que faz no Japão?

Depois de anos na informalidade, trabalho como motorista de uma empresa de transporte de reabastecimento de redes de supermercados.

O Japão recebe muitos brasileiros, não é?

Sim! dependendo da região a comunidade é grande. Não é a maior. Mas temos um número considerável de brasileiros aqui.

Encontrou muitos jundiaienses por aí?

Nestes anos todos só conheci uma família de Jundiaí.

O que o Brasil tem que o Japão não tem?

Infelizmente, o povo brasileiro é feliz por natureza. É só isso. Depois de tantos anos vivendo em um país de primeiro mundo a gente percebe a falta de educação, disciplina mas principalmente o egoísmo e a ganância dos brasileiros, acostumados em querer ter vantagem de tudo e em cima de todos… O brasileiro é muito feliz, tem alegria de viver, apesar das dificuldades pelas quais o país passa. Eu vejo isto nos japoneses, um povo muito discreto, inclusive nas suas reações ao demonstrar qualquer sentimento ou comportamento.

Os japoneses trabalham muito, não é?

Eles são muito nacionalistas e doam boa parte da vida ao trabalho para que o país cresça e melhore para todos. É uma filosofia e nós, brasileiros que estamos aqui, temos de acreditar nela. Assim nos adaptamos a este novo estilo de vida.


 

Tóquio Disney

Estação ferroviária de Tóquio: “desde a sua construção se mantém original! Um patrimônio da humanidade!”, diz Murata.

“Este prédio é um dos cartões postais daqui e aparece bastante nos desenhos de mangás que passam no Brasil”

Universal Studios Japan

Murata agora é caminhoneiro. Vida difícil. Mas ele não reclama


Qual é a sua rotina?

É igual a de muitos brasileiros que vivem aqui, comprei e construí uma boa casa com a ajuda do governo e de alguns bancos credenciados. Eu e minha esposa trabalhamos em horários diferentes, mas nos vemos todos os dias. Minha filha estuda no fundamental. A rotina dela é bem organizada e disciplinada com os horários. Quando folgo tento passar o máximo de tempo com minha família. Nos feriados prolongados podemos passar juntos. Existem vários tipos de passeios: desde curtir a natureza até dar umas voltas pelas grandes metrópoles com toda modernidade e tecnologia que temos neste universo que é o Japão.

Como é o seu trabalho?

Trabalho dirigindo em média por dia 19 a 21 horas é claro com períodos de descanso, viajo em média 850 quilômetros por dia. É meio cansativo. Mas a gente se acostuma. Escolhi esta profissão pela falta de mão de obra no mercado e por ter pesquisado antes, através de agências de empregos filiadas ao governo. O salário  – se comparado a um serviço numa linha de montagem industrial, para onde vai a maioria dos brasileiros – é um pouco melhor. Eu tenho estabilidade no emprego e registro profissional em carteira, coisa que em fábricas dificilmente conseguiria. Nas indústrias você pode ser contratado por empreiteiras ganhando por hora e não tem direitos que os empregados da empresa têm.

Vem com frequência ao Brasil?

Nesses 28 anos de Japão fui apenas três vezes para o Brasil. A última foi em 2007

Pensa em voltar?

Não trocaria a segurança,a disciplina,a educação,a saúde, preciso dizer mais alguma coisa??? Ainda tenho uma casa no Retiro. Sinto saudades de Jundiaí. Minha filha teria dificuldades de se adaptar às condições do Brasil, tanto em relação à disciplina ou educação. O modo de vida é bem diferente. Só que ela é uma criança. E crianças se adaptam mais facilmente que os adultos…

Você se considera mais brasileiro ou mais japonês?

Eu me considero um brasileiro descendente vivendo igual a seus antepassados no seu país de origem ou tentando se adaptar à isso, brasileiro de coração e de tradição não esquecidas,futebol,churrasco,músicas sertanejas,danças típicas e que sempre que podemos praticamos juntos de vários amigos japoneses.

Como os japoneses veem você?

Acho que com certa admiração por ter conseguido um espaço tanto no trabalho como na comunidade onde moro. Antes duvidavam desta minha capacidade. Eu me esforcei muito na linguagem falada e escrita. Falar e escrever aqui não é nada fácil. São três alfabetos com pelo menos uns três mil ideogramas diferentes. Não sei ler todos mas o que sei foi o suficiente para eu poder tirar a carteira de habilitação para dirigir o caminhão.

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Qual a imagem que os japoneses tem de nós?

Eles têm como principal imagem do Brasil, o carnaval, a música, a Bossa Nova que é tocada na maioria dos shoppings. Sabem pouco dos costumes e da culinária. Conhecem o café e a carne de frango. Falam da Amazônia. Pergunta se eu já vi um índio. Sabem mesmo que o Brasil é longe e tem o futebol como principal esporte, conhecem o Ronaldo Fenômeno e Neymar. Quando citam o Brasil, os noticiários só falam dos escândalos políticos e da criminalidade. Confesso que fico envergonhado com está parte!!!

Como o Brasil poderá se tornar um Japão?

Está pergunta é complicada! Dificilmente um povo com tantas origens, culturas e raças diferentes se igualará a um povo milenar e de uma cultura única. Digo isso porque até quando eu vivi no Brasil nunca fui sequer um descendente de japonês. Hoje eu sou. Nunca mudaremos nosso “jeitinho brasileiro”, marca registrada nossa… Para nos tornarmos um Japão seria preciso mudar tudo. A começar pela organização e disciplina. Desde a hora que nascemos, passando pela escola e saúde. É preciso que o povo não pense em si próprio. Começando pelos políticos. O Brasil é rico em recursos naturais. Tinha tudo para ser o país mais rico do mundo. Infelizmente, quem pensa apenas no próprio bolso faz com que o Brasil viva tantas dificuldades.

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