De acordo com o livro mais lido no mundo, a Bíblia, a mulher foi criada a partir da costela de Adão. Há quem acrescente que ela foi feita depois do homem porque todo artista primeiro faz um rascunho antes de delinear sua obra-prima. Só posso concordar. Mas há um jeito de produzir meninas?

Há muito o que se falar sobre a mulher: sua opressão, sua lenta caminhada à liberdade, sua devoção e amor à família, suas estranhezas e peculiaridades, suas sandices e complicações. Qualquer livro de fisiologia comprova sua complexidade: há muito mais sobre a mulher do que qualquer outro ser vivo. Ou morto. Normalmente são dedicados três capítulos inteiros à mulher e apenas um para os homens.

De forma alguma quero dizer que somos mais importantes! De jeito nenhum! Somos apenas um pouco mais……complexas, afinal, temos mais hormônios, geramos filhos….enfim….muita complicação.

Visando então entender um pouco mais o universo hormonal/humoral da mulher vou começar bem lá do começo: como geramos uma linda e doce garotinha em nosso ventre?

Demorei seis anos para engravidar do meu primeiro filho e uma pergunta que ouvia frequentemente da minha mãe era “Filha, você sabe que o casal tem que fazer algumas coisas para ter filhos, certo?” Eu sabia, só demorou a acontecer comigo.

Então, além do encontro sexual entre um casal, onde o homem depositará seus 400 milhões de espermatozoides na vagina da mulher, e esses atletas deverão nadar os 20 centímetros que os separam das tubas uterinas em menos de uma hora (seria o equivalente a um homem de 1,70m ter que nadar 5 quilômetros em menos de uma hora) para finalmente alcançar seu objetivo: o óvulo feminino e fecundá-lo! Apenas um será o escolhido.

Se perguntar para pessoas mais vividas, como nossas avós, elas serão capazes de montar um congresso internacional sobre o assunto. E assim como são sábias ao dar o leitinho quente para seus netos quando estão agitados à noite e não conseguem dormir (nem deixar ninguém dormir), mas não sabem que no leite tem triptofano, um aminoácido precursor da serotonina, neurotransmissor associado ao bem estar, embora saibam que funciona.

Pois é, elas recomendariam manter relações sexuais de dois a três dias antes da ovulação ou lavar a vagina com vinagre, fazer abstinência sexual, marcar uma data, escolher uma determinada posição, observar a lua, fazer alguns tipos de dietas, pode ser também que a penetração parcial funcione e com certeza mandariam evitar ter orgasmo enquanto o parceiro ejacula.

Calma! Eu vou explicar!

Pode ter um fundo de razão fisiológica nisso tudo, mas nada disso tem comprovação científica, o que significa que não existem trabalhos científicos que comprovem que qualquer uma dessas alternativas aumenta a natalidade de meninas. Eu diria que funciona mais como “uso tradicional” assim como o fazemos com algumas plantas de conhecimento popular, e nem por isso os chazinhos deixam de ser usados, certo?

Então vamos lá!

Relembrando a biologia: quem define o sexo do bebê é o pai, afinal, seus espermatozoides carregam um cromossomo Y ou um cromossomo X. Já a mulher carrega óvulos com apenas o cromossomo X, então se a combinação espermatozoide/óvulo for XY, será um belo garoto, se a combinação for XX, será a nossa linda garotinha.

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Pensa-se, na comunidade científica, que pelo fato do cromossomo X ter um tamanho médio entre os 23 pares presentes no DNA humano e, praticamente, o dobro do tamanho do cromossomo Y, ele deva ser mais pesado que este. Além disso, há quem diga que o que carrega o cromossomo X é mais resistente à acidez vaginal.

De fato, fisiologicamente posso afirmar que espermatozoides, de modo geral, não se dão bem com vaginas. Pois é. Esquisito não é? Não totalmente: a vagina tem pH ácido e o líquido ejaculado mantém os espermatozoides num ambiente de pH básico, ideal para a sua sobrevivência, mesmo assim 99% deles morrem assim que entram em contato com o pH da vagina. Por isso homens com menos de 20 milhões de espermatozoides ejaculados são considerados inférteis.

Em alguns momentos o pH da vagina fica mais favorável, um pouco acima de 6, nos dias próximos à ovulação(e também a mulher fica muito mais receptiva ao parceiro nesse período), favorecendo a concepção. A natureza é muito inteligente! Isso favorece a sobrevivência do espermatozoide por 48 a 72 horas, aproximadamente, no canal rumo às tubas uterinas.

Independentemente de carregar um cromossomo X ou Y, a acidez afetará ambos de qualquer forma, mas se de fato aquele que carrega o X for mais pesado e conseguir sobreviver à acidez vaginal ele terá vantagens em relação ao outro. Mas cuidado com as lavagens usando vinagre. Céus! Você pode conseguir apenas uma baita coceira ou pior: infecções e até infertilidade.

A abstinência seria uma forma de “concentrar” espermatozoides no líquido ejaculatório. O testículo não é uma fábrica de sabão onde se altera as misturas e é possível conseguir mais ou menos concentrado, que tira melhor as manchas ou que não desbota as cores. Simplesmente não funciona assim.

Um trabalho conduzido na Universidade de Campinas provou que, embora, momentaneamente, haja um aumento na concentração de espermatozoides após um período de abstinência, esses não tinham vitalidade e estavam envelhecidos, diminuindo as chances gerais de concepção.

Escolher uma data, segundo Abner Lobão, se seguido à risca, utilizando medicamentos que controlam o momento da ovulação e ultra som para definir o dia exato que ocorrerá, tem 15% de sucesso quando se quer escolher o sexo. Chances melhores de ganhar uma menininha!

Já a posição sexual pode afetar, mas só se compararmos os atletas sexuais com os casais mais moderados. Aqueles que tendem a realizar com maior frequência o “canguru perneta” do Caco Antibes têm suas chances diminuídas de concepção em relação às posições tradicionais, deitadas, seja da forma que for: de lado, papai-mamãe, por trás. Pelo simples fato de que, deitada, a mulher mantem o contato dos espermatozoides com o ambiente vaginal por mais tempo. Mas, de forma geral, isso afetaria a concepção em si, mas não aumentaria a chance de conceber menino ou menina.

A sugestão de observar a lua para definir o sexo do bebê é, no mínimo, romântica! E só isso.

A teoria é a seguinte: a posição astrológica da Lua no dia da concepção se estiver em signos de Fogo e Ar, há mais chances de gerar um menino. Nos signos de Terra e Água, menina. Mas o fato é: independentemente da posição da Lua, a composição do sêmen é invariável. Entre os cerca de 400 milhões de espermatozoides que participam da “corrida” em direção ao óvulo, 51% são portadores de cromossomos Y e 49% de cromossomos X. A ligeira vantagem masculina é uma medida da natureza para manter o equilíbrio entre os sexos, considerando que, embora não se saiba o motivo, a incidência de óbito é maior no sexo masculino.

A questão da dieta é um ponto perigoso e muito controverso. A ideia baseou-se em um estudo gigantesco desenvolvido na Universidade de Nottinghan. Foi constatado o nascimento duas vezes maior de bebês do sexo feminino entre vegetarianas, provavelmente, pela alteração do pH vaginal provocado pela dieta.

Já em estudo desenvolvido por cientistas franceses, baixas concentrações de cálcio e de magnésio, aliados ao alto consumo de sódio e de potássio provocaram mudanças de muco favoráveis aos espermatozoides com carga masculina. O contrário favoreceria os de carga feminina.

A recomendação ficou assim: aqueles que desejavam um garotinho deveriam investir em muito pão, frutas e verduras, tais como banana e alcachofra, e nada de laticínios, frutos do mar, ovos e molhos. Já no cardápio das que desejam uma menininha, era proibido sal, pães, embutidos, conservas e bebidas com gases. Ovos, arroz, hortaliças e muito, muito leite e derivados seriam a base de sua alimentação.

Outro seguimento de pesquisadores, incluindo Abner Lobão, indicam inúmeros furos nessa pesquisa, a começar pela escolha dos voluntários para o estudo com críticas duras aos cardápios propostos.

Exemplo: excessos de sódio e de cálcio podem levar a problemas renais e hipertensão. A falta de potássio predispõe a cãibras, e a de magnésio altera a concentração de cálcio nos músculos.

O mais grave, porém, é a combinação de excesso de sódio e carência de cálcio, que eleva os riscos de eclampsia na gravidez. Finalmente, a falta de cálcio pode afetar a formação óssea do futuro bebê de qualquer sexo.

A conclusão que podemos tirar desses estudos é a de sempre consultar um nutricionista para indicar a melhor dieta a seguir, em qualquer fase da vida.

Agora, o fato de penetrar totalmente ou não, se esbarra na mesma questão do pH vaginal: se quiser meninos, entregue o sêmen mais próximo ao colo do útero, pois teoricamente são mais ligeiros, mas mais susceptíveis ao pH da vagina, portanto, o contrário é verdadeiro no caso de escolher meninas. De novo, essa prática não altera significativamente o número de nascimentos entre os sexos e carece de comprovação científica.

Mas o que mais me deixou espantada foi a última opção para se escolher o sexo do bebê: evitar ter orgasmo enquanto o parceiro ejacula.

Sério?

A ideia é que o orgasmo feminino aumenta a produção de muco na vagina (o que é verdade) e atrapalharia a corrida dos espermatozoides que carregam o cromossomo X, portanto favoreceria o nascimento de meninos (será??). Então para se ter um menino indica-se atingir o orgasmo antes do homem e para se ter uma menina é recomendado que a mulher chegue ao orgasmo após o homem ou simplesmente não o tenha.

Estão de brincadeira?

Conclusão pessoal: devemos receber nossos filhos, seja menino ou menina, com muito amor e carinho e não tentar brincar de Deus ou questionar Suas escolhas. Ele sabe o que é melhor para nós. (Foto: br.freepik.com)

ELAINE FRANCESCONI

Bacharel em Zootecnia (UNESP Botucatu). Licenciatura em Biologia (Claretiano Campinas). Mestrado (USP Piracicaba) e doutorado (UNICAMP Campinas) em Fisiologia Humana. Professora Universitária e escritora.

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