Nestas mais de duas décadas de carreira no Jornalismo (feito assim mesmo, com jota maiúsculo), é impossível não lembrar de imagens, fatos e situações que me marcaram para o resto da vida. Há quem diga que além de ser uma das profissões mais perigosas do mundo (de 2005 até agora, são computadas quase 68 mil óbitos de profissionais de Comunicação, segundo a organização Repórteres Sem Fronteira), também se destaca pelo número de comunicólogos que adquire algum problema psicológico. Então, bem-vindos a uma montanha-russa chamada Jornalismo…

Os mais comuns são depressão, estresse agudo e síndrome do pânico, decorrentes de uma jornada excessiva, repleta de cobranças e pressão exagerada por furos, manchetes… Com a crise instalada em mídias como o jornal impresso, então, o desemprego fez com que este índice aumentasse substancialmente. Não que as demais profissões não enfrentem isso também, mas falo dos jornalistas com conhecimento de causa – até porque já senti isso na pele.

Lembro de situações como a morte de um adolescente na Estrada de Itatiba, vítima de atropelamento. Quando cheguei ao local, o corpo já está coberto por um lençol branco, manchado de sangue. Minutos depois, a mãe surgiu no acostamento da estrada, já aos prantos. Ela se ajoelhou em frente ao corpo do rapaz, o abraçou e chorou copiosamente. Uma cena triste demais que jamais saiu da minha cabeça, mesmo tendo ocorrido há uns 10 anos. Sempre que esta cena vem à minha cabeça, fico pensando em como está a família do garoto, a mãe…

Essa inquietação, aliás, é outro fator que desencadeia ansiedade, tensão. Você conhece a história de uma pessoa ao fazer a reportagem, tem detalhes do caso, se envolve de uma certa maneira e poucas vezes consegue saber o desfecho daquilo. Em alguns casos as pessoas até fazem contato para agradecer, mas a correria do dia a dia te impede até de tentar buscar isso. Vivemos numa linha de produção deveras ingrata, em que saímos de uma pauta e já caímos em outra, muitas vezes em situações completamente antagônicas – e que mexem por demais com o emocional.

Certa vez estava acompanhando um evento social pelo jornal em que trabalhava. Junto com o fotógrafo, conversávamos com as pessoas naquele ambiente festivo, rindo e até conseguindo beliscar alguns quitutes que eram servidos (a gente aproveita de vez em quando, né?). De repente o telefone tocou e tivemos de sair dali para uma emergência: deslizamento de terra numa área de risco do Jardim São Camilo. O cenário mudou completamente: ao chegarmos, o desespero estava estampado no rosto de moradores e amigos de uma família inteira. Todos soterrados por terra e lama.

Mesmo com o excelente serviço dos bombeiros, pai, mãe e duas crianças haviam falecido naquela tragédia. Como lidar com situações assim? Por mais forte que uma pessoa seja, física e mentalmente, aquele turbilhão de sentimentos aflora e precisa ter uma válvula de escape para não prejudicar ainda mais o psique.

Ficava com aquilo na cabeça por dias, lembrava quando já estava caindo no sono… Há uma diferença brutal entre receber uma informação sobre algo deste tipo e estar lá, exatamente na hora em que o fato ocorreu. Você já vai para a matéria achando que pode ser um conhecido seu, um parente. E se for? Meu Deus, nunca aconteceu comigo mas e se tivesse? É humanamente impossível sair de um ambiente assim e não permanecer abalado, não é?

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A psicologia é a principal ferramenta que se têm para conseguir entender todos estes sentimentos e trabalhá-los a fim de que ajudem na compreensão dos fatos, sem prejuízo para a vida que segue. As duas profissões, inclusive, têm fatores em comum – como a neutralidade, a confiabilidade e a imparcialidade. Existem teses muito interessantes que tratam desta relação Jornalismo X Psicologia, facilmente pesquisadas na internet – recomendo a leitura!

Devemos vencer nossos medos e dificuldades, mas também procurando ajuda para tal – pois nem sempre a tarefa é simples. Seja ela profissional, de um ombro amigo, da família, do (a) confidente. Ótima semana!(Reprodução | Cedar Point)


EMERSON LEITE

Formado em Jornalismo pela UniFaccamp; Pós-graduado em Segurança Pública e Cidadania pela Faculdade Anhanguera; Atua na área desde 1995: passou por rádios, jornais impressos, site e desde 2010 trabalha como assessor de imprensa na área política.


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