Cheguei à Divina Providência pelas mãos da Laura Bocchino, que lecionava para as turmas menores e estava se afastando. Diga-se de passagem, tenho muito orgulho desta história. Foi um ano de muita aprendizagem porque na faculdade aprende-se a Didática como se os alunos fossem tijolos, dai levamos um choque quando descobrimos que alunos são vivos, gritam, correm, respondem, atendem, desobedecem, fazem de um tudo, menos ficar estáticos.

Meu primeiro contato, na escola, foi com a Neymar, coordenadora pedagógica. A diretora ainda não havia chegado, mas soube que viria para me entrevistar. Ao saber disso, num passe de mágica, fui tomado pela ansiedade que logo se transformou em medo e tormenta, pois me contaram que o crivo era sério e pesado. Ali estava, ali ficaria, na espera.

Fui conhecer a escola, as salas de aulas, o espaço onde seriam minhas aulas e me senti confortável, diante da disponibilidade das coisas, pois o ambiente era muito agradável e Neymar era uma pessoa muito falante e assertiva (e mais: durante as andanças, a entrevista já estava formatada e sendo aplicada…). Depois de um determinado tempo, ela me informou que a diretora deveria estar na sala dela, a minha espera.

Fui ao prédio administrativo, perguntei onde era a diretoria e pedi licença ao entrar. Neste momento conheci Dona Cecília, irmã querida da diretora. Naquela sala estava aquela que passaria a ser minha diretora por longos anos. Sentada numa mesa imponente, uma senhorinha de roupas sóbrias e elegantes me recebeu com sorriso no rosto e, de maneira afetiva e direta me propôs: pode sentar Afonso Antonio.

E, antes de perguntar qualquer coisa, foi direta e incisiva: já o conheço, sei quem você é, filho de quem, meu esposo foi amigo de seu tio Raul, sei de sua formação e gostaria de saber se você teria disponibilidade para trabalhar conosco, na Divina Providência. Eu não conseguia organizar minhas ideias, pois fui pego desprevenido, esperando um rol de questões e a proposta era apenas uma: quer ou não quer. Era tão jovem. Tão inexperiente. Aceitei.

Seriam três dias de tardes tomadas naquela que seria minha segunda morada, pois as coisas foram se ampliando, as turmas foram se desenvolvendo, as experiências foram se avolumando e a empatia foi criando vínculos fraternos, maternos, parentais. Éramos felizes ali, naquele espaço que hoje penso ser pequeno, mas o nascedouro de um sonho. Tia Diva Saraiva, como eu a chamava, tratava-nos como filhos; e como boa mãe, sabia nos colocar no devido e bom lugar.

Não foram poucas as vezes em que entrei naquela diretoria para receber elogios, como não foram 10, nem 50 nem 100 vezes em que fui chamado para ser colocado em meu devido lugar. E a conversa começava sempre com um: Boa tarde Afonso Antonio! Você precisa ser mais atento, precisa ter mais cautela…Veja, os alunos se espelham em você.

Claro que eu tentava argumentar, porque sempre fui combativo. No entanto ela pegava em minha mão e dizia: “você não quer tentar primeiro? Depois a gente discute. Vá tentar primeiro”. E lá ia eu, sabendo que havia perdido na contra argumentação; ela sabia de tudo, sempre, sem sombra de dúvidas. Sempre tinha um exemplo, uma história, um caminho; pedagogicamente era exemplar.

Por outro lado, eu vinha de perdas. Perdera meu pai no dia de minha própria formatura. Sofrera um acidente de carro no início de março, começara a dar aulas na Divina em maio, de forma que sentia muitas dores da Vida. E somado à minha agitação e impulsividade, era uma bomba prestes a explodir; estas razões me faziam ser uma visita constante à diretoria, tendo longas aulas de Psicologia e Pedagogia.

Mas, ainda de outro ângulo, muitas eram as vezes em que eu me socorria pedindo conselhos e desabafando, uma vez que poupava minha mãe de maiores problemas. E naquela diretoria encontrava abrigo, acolhida e carinho. E isso se repetiu por muitos e muitos anos, até que prestei concurso na UNESP e precisei me afastar daquela escola. Optei por ir assinar meus documentos num horário em que não me encontrasse com minha tia Diva: não seria bom dizer adeus.

Com o passar dos tempos, longe da instituição, acompanhei tudo, todas as mudanças, todas as transformações, todos os empreendimentos. Mantive meu contato com Maria Diva, encontrava aqui e ali com a Bete Saraiva e sabia de Tia Diva. Fui ao novo prédio por duas vezes mas resolvi que não passaria dos portões porque as lembranças seriam grandes e fortes, em que pese que hoje a nossa Divina seja um monumento.

Domingo passado, pelo Instagram, sou surpreendido com umas 6 a 8 fotos e milhares de postagens: a Divina ganhará três jogos de Futebol. E nas fotos identifiquei ex-alunos que me substituíram: Sidimar Lucato e Rui, o que me encheu de orgulho, pois já não sei se eles se lembram que fui professor deles na faculdade e nem sei se eles se lembram que passei pela minha Divina antes deles, mas eu me lembro deles e me lembro das boas recomendações que deixei sobre eles, para minha tia Diva.

Mais do que isso; as fotos e as mensagens dos pais e atletas, que li no Insta apenas fortaleceram aquilo que aprendi na Divina: quando se trabalha com Homens, o respeito e carinho falam mais alto. Ali ainda existe respeito e carinho, que se alinham ao saber e ao saber fazer. Parece que percebo tia Diva Saraiva se deslocando por aquele prédio imenso, lentamente, atenta e sábia, avaliando o andar das coisas.

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Pois é tia Diva, nas coisas em que acredito hoje, e já não tenho mais meus vinte e poucos anos, passo para homenageá-la, por meio desta crônica. Agradeço todas suas broncas, todas suas exigências e todas suas palavras porque compreendo que a senhora me amava e me respeitava. Nunca duvidou de minha capacidade, pelo contrário, me incentivava a ir cada vez mais alto (e fui); nunca me limitou, ao contrário, apontava para um horizonte sem fim. Isso é papel de mãe. Isso é (no presente do indicativo, correto professores Jezabel, Beni e Paulo Vieira?) proposta de acolhimento materno. E essa é Diva Teixeira Coelho Saraiva.

Desta forma, ao invés de falar em Carmen Escudeiro Machado, falo de alguém que tão soberanamente soube exercer, em mim e sobre mim, um clima de proteção e zelo, como o fez com todos os que estiveram naqueles espaços físicos e mentais. Interessante que, mesmo diante das maiores repreensões, não se via desmando ou descrédito; tampouco frustrações ou traumas. Eram tempos em que se aceitavam os papéis corretivos dos pais.

Pois é tia Diva, fica aqui minha homenagem a você, representando as mães que nos deram a Vida. Saiba que sinto sua falta e te amo muito. Olhe por nós e pela Nossa Divina, porque ela ainda é parte de minha Vida.

Sobre a foto que ilustra este artigo, o 4º ano de 1976 da tia Diva, em 1976. Ela está ao fundo. A imagem é de Ana Paula Gaspar.


Afonso Antonio Machado é docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journalof Sport Psychology. Aluno da FATI.


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