O OUTRO em minha vida, interação plena e revigorante

O OUTRO

Não consigo pensar em minha existência sem pensar no processo empático estabelecido entre mim e meu semelhante; estar ao lado dos outros, conversar e entender suas questões e aceitar cada uma das suas propostas e, acima de tudo, estar no lugar dele, me faz feliz e me possibilita uma interação plena e revigorante. Não se trata de uma doação, mas de uma construção em conjunto. O outro em minha Vida, ter empatia, é algo que sempre me garantiu reciprocidade e acolhimento; não é fácil, não é instantâneo, mas é viável e humanizador. As tentativas já possibilitam as interfaces e direcionamentos que se dinamizarão a medida que as percepções de sucesso se mostrarem evidentes.

Colocar-se a disposição do outro e edificar, com o outro, um projeto de Vida, não é para todos. Este estilo de vida atende a outros padrões interiores: a ética é a divisora de águas neste campo de intimidade e acolhimento; é o espaço invisível e interno onde se aloja o caráter e onde se inicia todo o processo transformador interior e exterior. Trata-se de reconhecer as relações interpessoais e agir com segurança e propriedade, sem titubear e investindo num direcionamento coeso e fortalecedor.

Não é para todos porque o egoísmo e a falácia do falso cristianismo são armadilhas que impedem tal envolvimento: empatia não caminha pareada com exibição e vontade de se passar por bom samaritano. Empatia é colocar-se por inteiro no lugar do outro. E por inteiro significa por inteiro, plenamente. Sem limites e com carinho para, no decorrer do processo de interação, não parecer que a invasão de privacidade seja a nota principal.

É interessante verificarmos algumas conversas e algumas situações, onde pessoas se mostram fazendo doações e realizando “boas ações” fotografadas e filmadas. A propaganda desarticula toda a possibilidade de se colocar no lugar do outro porque não há uma pessoa sequer que goste ou queira se mostrada numa situação diminuída ou miserável. Mais: entender e colocar-se na posição do outro não é estar acima do outro. Não é estar numa situação privilegiada diante da miséria alheia. O anonimato, o silêncio, a dor compartilhada são elementos cultuados e pontuais para o fortalecimento do processo empático.

Não há o mais forte e o mais fraco; há os que se reconhecem como iguais e se comportam como tal. Por isso é difícil e complexo. Para poucos. Não é coisa de irmãozinho da igreja, nem de afilhados do mesmo pai de santo: é coisa de DNA espiritual e afetivo, é coisa de caráter, interno, de dentro, do “pra sempre”, não se aprende em curso, em cerimonias religiosas, na família, na política: ou é ou nunca será. É isso.

Vejo, hoje, a repercussão da crônica da semana passada e me pergunto: cadê os empáticos? Cadê os carismáticos? Cadê os de fala mansa? Por que me questionaram? Por que aquela homenagem? Ele está doente? E eu não me dei ao desprazer de responder, porque ingratidão a gente deixa de lado; mesmo sabendo que haverá uma montanha de entulhos em pouco tempo. Risco a se correr, mas prefiro assim.

Wilson foi, é e será aquele que resolve; o que conhece todo mundo; o que liga direto para Secretaria do Esporte do Estado e sempre é recebido com sorrisos e aplausos. Wilson é aquele que corre atrás de bolsa de estudos para atletas universitários que se formam e se esquecem de convidá-lo para a miserável formatura (pois é…). Wilson é o que orienta aqueles cujos pais não têm tempo para os filhos. É o que ajusta horários e locais de treinos, jogos e viagens para jogos. Mas acreditam que isso é pouco e fácil; esquecem das burocracias da máquina de governo e ele tem domínio delas. Grande ‘seo’ Wilson.

E o processo empático fica à distância deste ritmo frenético de vida e nem sempre há um retorno ou um “valeu” que abrandaria as divisórias das águas turbulentas de uma ocupação profissional que aparenta calmaria e parceria. Que aparenta. Mas, no momento do frenesi, todos sabem: ‘seo’ Wilson resolve. Minha parceria com ele se dá dentro deste processo empático em que me entrego a compreendê-lo, tanto quanto ele a mim, sem espaço nem tempo determinado, numa fraternidade mais que intelectual. Algo afetivo e espiritual. Só isso. E basta.

Percebo que este sincronismo se estabelece, também, entre eu e alguns de meus alunos; somos muito próximos, partilhamos muitas parcelas de vida. Alguns chegam em meu laboratório com dezessete anos e saem formados, com família, com emprego. Crescemos juntos e construímos juntos um trecho da vida, entretanto outros passam. Simplesmente passam, absorvendo pouco do contexto e deixando pouco de si. Sem maiores razões ou construções. E cumpro meu papel de professor, com estes também.

Lógico que outros alguns se revoltam, exaltam e esperneiam diante das normas de convivência, em especial por se tratar de um espaço público e aberto à visitações e pesquisas. Portanto, regras de convivência, de reciprocidade, de educação são estabelecidas, votadas e cumpridas por todos nós, inclusive eu, que represento um único voto. Minha liderança se faz presente, sempre, mas democraticamente optamos por propostas liberais e adequadas ao nosso bom relacionamento, o que faz com que muitos retornem para visitas ou para ampliar seus estudos.

Num espaço onde o que está na frente ensina e ajuda o que vem depois, todos têm oportunidade de crescer e de mostrar aquilo que aprenderam; sempre valorizando as histórias de vidas ali presentes e as relações bioecológicas estabelecidas entre os pares. O ambiente é de total sinergismo e muita empatia, desde que ninguém queira ou tente se fazer de esperto ou desavisado. Porque o grupo reage com muita prudência mas com integridade diante de folgados: todos trabalham e todos crescem, juntos; ninguém carrega ninguém.

Esse exercício de cidadania é o que vivo no meu laboratório. Conversamos sobre tudo, defendemos os temas mais polêmicos, em especial por estudarmos a pós-modernidade e a über modernidade: isso nos permite pensa adiante e vislumbrar questões que parecem ser ilusórias, mas são apenas lances de futuro que antecipamos e brotamos informações para colher propostas. Assim se faz ciência e assim se percebe o avanço da Humanidade. Nada de ficar repetindo experimentos ou seccionando uma coleta de dados em escalas menores (nos bastidores dizemos pesquisa fatiada ou salame) porque o que se coletou e analisou ontem, já é passado.

E, durante uma semana apertada, com seis lives, três congressos e mais aulas e atendimentos, entramos em setembro, abraçando um novo período, em que o sol aparece e brilha mais cedo e o ânimo se apresenta para a continuidade da Vida. Se a preocupação com o Covid-19 bate em minha porta? Sim, bate sim. E com muita frequência, mas com segurança nas atitudes de prevenção e conselhos médicos sadios e com propostas sadias de vida, empurro esta preocupação para fora e toco a Vida.

Problemas não faltam, dificuldades brotam a cada segundo, ameaças frequentes estão no ar, entretanto, com muita fé e entusiasmo, munidos da Segurança e Prudência, procuro avançar, com calma, sem medo de recuar alguns passos, se perceber instabilidades maiores dos que as que disponho de forças para avançar. Percebo, do alto da minha idade, que os recuos são providenciais e não são motivos de vergonha (ao contrário, indicam o quanto se avançou). Saudades pontuam aqui e ali, algumas lágrimas de nostalgia e outras de felicidades e a Vida continua.(Ilustração: www.pinterest.fr)

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A alegria de ter amigos é maior do que a tristeza de parear momentos com intrusos e aproveitadores. Noto que ainda estou no lugar e no momento certo para me firmar como cidadão responsável pelo meu caminho (e que assim seja até o final); amedronto-me diante do novo, como todos, mas nada que me limite a romper as barreiras apresentadas e alcançar o desejo de atingir meus sonhos: o envelhecer traz mais sonhos e mais disponibilidade para viver, visto que a experiência joga a favor desta geração.

Desejos inconclusos? Nenhum, minha inquietude não dá trégua e não permite acomodação. Desta forma, sigo. Vou meu caminho longo e solo. Cada dia mais crendo que não vou sozinho. Além dos meus, acompanham-me os que se esforçam pela minha evolução. E que assim seja, sempre.

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology. Aluno da FATI.

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