O pulso ainda pulsa. Mas como continuar tocando a vida?

Não adianta dizer que a semana passou tranquila, que abstraímos os problemas, que a prisão do Temer desviou nossas atenções e que tudo segue normal. Não, não adiante fazer de conta que não fomos violentados nem que não guardamos cenas e falas, a respeito daqueles momentos de intensa agressão social e cultural. Mas, como lidamos com tudo isso? Como tocamos a vida, dentro de um padrão de aceitabilidade (porque não é de normalidade, pois o que é normal?) de modo a não perder o foco e a não perder direção da Vida? Procrastinar não será a solução, nem nunca foi, mas como não sofrer diante de tamanha barbárie por que, afinal, o pulso ainda pulsa,não é? Vejamos alguns pontos fortes da semana.


Numa sequência do Show de Horror, a Nova Zelândia protagonizou uma performance dantesca. Foram 50 massacrados e seriam mais, caso a polícia não agisse como eficiência. A diferença dos casos: esta semana sairá a sentença para o assassino; foi proibido o comércio de armas, a programação televisiva adotará novo direcionamento, as escolas e igrejas abraçarão novas condutas de sensibilização para que todos possam se sentir seguros e alertas, sem causar novos traumas.

Diferente daqui que ainda se discute de onde veio a gasolina do carro dos assassinos, onde eles compraram as roupas que usaram no massacra, onde eles fizeram a primeira comunhão, qual a ideação reacionária a que eles seguiam. Aqui ainda estamos circulando a periferia dos entornos, sem ação específica e corretora. Sem educar. Apenas especulando aquilo que não pode e não deve ser especulado.

Outra grande característica que diferencia um caso do outro é que lá é proibido informar nome e demais dados característicos do infrator. E aqui sabemos quem foi a mãe, os avós, a professora do prézinho, o padre confessor, as cores preferidas, as leituras da infância. Aqui se expõem toda a família para que a crucifixão seja completa e se demonize toda a geração. Absurdamente inadequado.

Temo que alguém duvide da eficiência de tratamento neozelandês, mas basta observar os rumos de uma sociedade como a nossa e comparar com aquela outra. As oportunidades são diferentes, os avanços e as inovações são outras, porque a população é educada para outro tipo de vida. Os estímulos são mais saudáveis e mais reais: não se aposta no improvável; ao contrário, todo o investimento é feito na estrutura de uma vida alicerçada propostas viáveis e diferenciadoras.

Os sonhos são bem vindos, porque o real tem como start os sonhos; entretanto só se investe em sonhos que resultem em projetos exequíveis e estimuladores de novas opções e oportunidades a todos, sem as cotas e sem as proteções que vemos por aqui. Todos têm a mesma oportunidade, sem mi-mi-mi e sem protecionismo do falso cristão.

Ninguém conscientiza ninguém e todos sensibilizam a todos.


E a Holanda passou por um susto, com o ataque a tiros, realizado por um idealista turco, no interior do país. Destaco o caso, sem mais detalhes, para lembrar de que comentei, semana passada, que estes eventos funcionam como “gatilhos”: um aqui, outro lá e outro acolá, estimulados pelo noticiário.

A fragilidade humana faz com que nos espelhemos em ações que nos tocam e a que nos falta coragem, reforçando que “se ele pode, eu posso também”; “se ele fez, eu faço maior e pior”. É a cópia do mapa do Inferno, com uma propriedade destruidora. Isso já é um elemento para que analisemos se tudo se passa no ambiente virtual? Será que a internet ou a deep internet é mesmo a causadora de tudo?

Especulações e estudos clássicos da Psicologia demonstram e apontam para caminhos ainda a serem percorridos, com muita precisão e muita realidade: cada um destes elementos concorrem para uma educação dantesca, desde que mal dirigidas, desde que desorientadas. Quando bem conduzidas, servem para alertar e para dirigir o foco dos pais (ah, os pais!!!) e professores bem formados, que não ficam papagaiando sobre teorias que desconhecem.

O conhecimento e sua prática é a ciência da transformação de uma sociedade que busca melhora e progresso. Sem saber, não há mudanças. Mas é preciso aliar o saber ao fazer, como já dizia o bom e velho Karl Marx, quando afirmava que muito mais do que saber, o homem precisava por em prática seus conhecimentos. A sensibilização vem antes da ação. E depois a conscientização.Ninguém conscientiza ninguém e todos sensibilizam a todos.


E o mato em Jundiaí toma conta da cidade e a população tem que tomar conta da dengue. Porque insistem em dizer que a população é culpada pela dengue. Aliás, insistem em dizer que a população é culpada de mais coisas: da merenda escolar ter perdido a qualidade, da segurança pública jundiaiense ser precária, dos expoentes da cidade não serem reconhecidos por seus pares (porque aqui só vale os que chegam de fora), dos buracos na malha asfáltica somente de toda a cidade, etc e tal. E que não venham com frescura de dizer que o mato alto nos jardins e praças é culpa da chuva.

Culpa de quem não toma conta daquilo a que se propôs e indecentemente se diz administrador do bem público para o público. Culpa do povo que elegeu o mal governante e não cobra os serviços pagos. Culpa daqueles que acham que está tudo bem, como Alice no país das maravilhas.

Vale lembrar que nos diálogos entre Alice e o Coelho sábio surgem coisas do tipo: “quanto tempo dura o eterno?” e a resposta que não se deixar calar:” às vezes o eterno dura apenas um segundo”.Isso nos consola pois o descaso logo passará. Estas questões de política local são sérias e merecem lucidez e não idéias simplórias e inconsequentes; a sensibilização vem antes da ação. E depois a conscientização. Ninguém conscientiza ninguém e todos sensibilizam a todos.

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Parabenizo a iniciativa dos coordenadores da NOVA FATI, que deram luz e projeção a um projeto de valorização de pessoas acima dos trinta e cinco anos. Cursos com valores sociais que priorizam o ensino e a convivência de pessoas que se dispõem a estar atuante em seus direitos e em seus desejos. Surpreendi-me com a riqueza de ação e com a pluralidade de oportunidades oferecidas e ampliadas, todas elaboradas por profissionais do mais alto gabarito.

Uma iniciativa privada, dentro de algo de âmbito de políticas públicas. Acredito mesmo que se fosse público teria aquela show de burocracia, filas de espera, sorteio de vagas (em que os sorteados são irmãos, cunhados, primos e parentes de quinto grau dos promotores; querem que eu desenhe?) e, como está funcionando, atende a todos os que lá se dirigem, com muitos cursos e muitas oportunidades. A NOVA FATI proporciona que os alunos e professores se socializem e aprendam aquilo que é proposto.

Muito mais do que um órgão de ensino, a NOVA FATI é um espaço em que o HOMEM é valorizado como HOMEM e pode deixar aflorar suas riquezas internas, das mais escondidas cognições aos afetos mais puros e sinceros. Saber, sentir e fazer se aprimoram, como deveria ser em todos os ambientes de ensino. Parabéns, coordenadores. Voces atribuem valores aos que se juntam neste espaço, que deixa de ser meramente físico para ser um ambiente de muita cordialidade e boa convivência. Obrigado por deixar-me descobri-los.

Vale lembrar, que neste ambiente, onde se preocupa como o ensino e a convivência harmoniosa, o ensino é levado a sério, apesar do ambiente descontraído e da alegria pulsante que envolve a todos. Sugiro que os mais vividos com 35 anos ou mais de idade conheçam e desfrutem de momentos de muita descontração e muita seriedade. Mais uma vez me vem a mente:  a sensibilização vem antes da ação. E depois a conscientização. Ninguém conscientiza ninguém e todos sensibilizam a todos. (Foto: nossaciencia.com.br)


AFONSO ANTÔNIO MACHADO

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduando em Psicologia, editor-chefe do Brazilian Journal of Sport


 

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