O SORRISO de Tyffany Janaína (Parte III)

o sorriso
Imaginem que a rua Bernardino de Campos estava praticamente assim no primeiro dia deste ano, só que com raios de sol, a precariedade dos figurinos e com todo tipo de polícia que vocês imaginarem. Aquele seria mais um dia de horror. Foto(Cena clipe Thriller/Michael Jackson/Divulgação)

O sorriso de Tyffany Janaína é um texto fragmentado e que tem como intuito sensibilizar a nossa visão sobre as péssimas condições de vida, preconceitos sofridos e violência diária que atingem as mulheres trans. As partes da narrativa também vão transitar por outros temas. Deixo para a sagacidade das pessoas que farão a leitura o privilégio, nem um pouco irônico, de discernir se essas linhas são fantasiosas, criativas ou reais.

PARTE III

(…)

Desisti. Não dava para colher confissões e nem mesmo fofocas do Espanta-neném. Ele estava muito ocupado servindo corotes, bombeirinhos, coquinhos, rabos-de-macacos, rabos-de-galo, óleos-de-mobilete, farmácias, entope-fígado e outros famosos drinks aos bêbados que começavam a chegar.

Caramba, não eram nem oito horas da manhã e o comando da malandragem já estava lotando a birosca para maltratarem o gogó.

Resolvi que teria que cuidar da vida e ligar para o entregador de gás. Era isso ou comer os restos do ano novo requentados em micro-ondas. Matutei, matutei. Bom, dane-se o gás de cozinha, pelo menos por enquanto.

Sai do boteco do Toninho e ia andando meio cismado. Essa coisa de vodca e memória sempre acaba me pregando peças. E o pior é que eu não me lembrava do que havia feito na noite anterior. (Depois da terceira ou quarta dose de vodca pura é como se uma cortina tapasse a minha visão, aí chegam a mim a loucura, a insanidade plena e os atos inconsequentes. Uma vez inventei de tomar vodca na casa de um amigo meu lá na Vila Rami e eu só fui recobrar a consciência no outro dia, quando despertei na sarjeta lá no Bairro do Caxambu, em frente à igreja ao som de umas velhotas rezando o terço, acho que elas já estavam encomendando a minha combalida alma, coisas de vida e morte).

Como todo indivíduo treinado na ressaca eu havia, evidentemente, acordado com aquele recorrente gosto aziago na boca, aquela nem um pouco sutil mistura de cigarros paraguaios, cerveja morna ou uísque falsificado e sabores fermentados de pernil com farofa. Pra onde eu estou levando a porcaria da minha vida? Eu pensava comigo mesmo.

Woooooh-woooooh-Woo-WOOOO-Woo-wooooh

Novamente as sirenes correndo para todos os lados. As ruas estavam vazias e aquela barulheira atrapalhava meus pensamentos.

Quando dobrei a esquina da rua de casa notei o tumulto.

Uma gritaria, uma choradeira, uma ziquizira dos diabos, misturada com quizomba e um monte de viaturas. Polícia por todo canto. A rua estava cheia de gente insone: prostitutas, travestis, mendigos, fofoqueiras e pilantras de toda espécie. Perecia que as filmagens da segunda parte do Thriller do Michael Jackson estavam começando.

Fui andando de fininho, na calçada oposta e ouvi:

–Aiiiiinnnnnn, eu não acredito, Mona!

– Nem eu, Amapoa, nem eu!

– Me leva também, ai, ai!

– Miga, isso aqui tá pra lá de Uzê!

–VTR aqui no QTH, aqui deu 121, ocorrência de homicídio, chamar VTR, chegar com cautela, QAP?

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NÃO, ESTE NÃO É UM CONTO DE NATAL JUNDIAHYENSE

Abri a porta do sobradinho suando frio e a tranquei logo em seguida. A coisa estava realmente tensa, tinha gente filmando, as TVs locais já iam preparando o circo midiático. Só depois de guardar as chaves no bolso direito é que eu percebi que estava com três perninhas de grilo, todas amassadas e esgrouvinhadas.

Subi as escadas e voltei ao meu posto de voyeur. Fiquei de butuca, um pouco ofegante, com um sorriso amarelo. A cena dava a impressão de ir longe.

De repente, susto, meu celular começou a tocar a musiquinha característica: Eu sou apenas um rapaz latino-americano. Sem dinheiro no banco sem parentes importantes. E vindo do interior.

Caramba, Belchior, você quase me matou de susto. Silenciei a ligação e vi o número do Manoel Oliveira. Atendi no sussurro e…

(…)

HILDON VITAL DE MELO

‘Jundialmente’ conhecido. Escritor e pesquisador à deriva, mas professor de filosofia, por motivos de sobrevivência.
E-mail: vitaldemelo@yahoo.com.br – Instagram: @camaleao_albino

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