PAIS EDUCAM E ESCOLA ENSINA: Reflexões vindas com a pandemia

pais educam

A pandemia alterou a rotina de todo mundo e trouxe inúmeras reflexões em todas as áreas. Dentre elas, a educação, que muito antes já vinha sendo debatida energicamente no país. Brigas entre alunos e professores, “doutrinação ideológica” e temas transversais como Educação Sexual não saíram do noticiário nem das redes sociais nos últimos 10 anos. E a questão central: pais educam e escola ensina. Para ambos, o que e como educar e ensinar? Num mundo globalizado e acompanhando o multiculturalismo, com a internet acessível a todos, este debate inevitavelmente viria à tona. Com certeza menos carregado de raiva, achismos e desentendimentos se os pais não tivessem sido menos participativos no ambiente escolar, fato que veio crescendo ano a ano.

Lembram uma velha ferramenta de gestão democrática chamada Associação de Pais e Mestres, conhecida como APM? Por décadas ela funcionou como elo entre as administrações escolares e os pais dos estudantes, assim como os Grêmios Estudantis e Conselhos de Escolas. Muito mais que participação para melhorias no ambiente físico da escola, estas equipes sempre puderam acompanhar o desenvolvimento na área disciplinar, curricular. Em suma, os pais atuam como fiscais das escolas.

Mas por que veio caindo a participação dos pais nas últimas décadas? Muitos dirão que as mães passaram também a trabalhar fora de casa, assim como os pais, não sobrando tempo para ir às escolas. No entanto, outro fator, que já ocorria bem antes, pode ter desestimulado o interesse. Os votos combinados para eleger os membros. Algo semelhante ao que veio tomando conta também das associações de bairro, presididas por pessoas “influentes”, ligadas a um vereador ou à própria prefeitura.

Lá nos anos 80, ainda durante o período de governo militar, presenciei isto numa escola. Havia duas chapas para constituir a APM. Numa chapa havia pais de dois alunos, sem laços estreitos com a direção, apenas amizade. Na outra chapa, havia outros dois pais com laços antigos com a direção da escola, que estavam na APM e queriam ser reeleitos. O que aconteceu? Os votos foram todos direcionados a estes. Lembro que pouco faziam por melhorias na escola. Mas os votos foram direcionados a eles, um grupo que atendia aos interesses da direção e não dos estudantes e pais de alunos, que, se acompanhassem de perto o que ocorria na escola, certamente não aceitariam a continuidade daqueles membros. Nota-se, portanto, que as “maracutaias” são antigas. E nesse aparelhamento todo, fui constatando ano a ano a ausência das APMs em muitas escolas onde levei meus trabalhos literários e palestras durante a década de 90 até o ano de 2006. Escolas com problemas que poderiam ser resolvidos com um bom caixa da APM, para benefícios como troca ou aquisição de bebedouro, troca de lâmpadas, compra de um computador para informatizar a biblioteca, bem como compra de livros paradidáticos. Opa, chegamos à biblioteca! E onde estão os bibliotecários? Naquele período peguei justamente a “época das mudanças”, quando o governo tentava “revolucionar” as escolas estaduais, criando as “salas de leitura”, que substituiriam os bibliotecários (que nem cheguei a conhecê-los) por professores readaptados (mais uma para os professores já sobrecarregados, ou seja, alivia o governo, sobrecarrega o servidor). Situações que foram acontecendo e poucos pais sabiam como tudo estava sendo elaborado, os efeitos das mudanças e os impactos aos estudantes. “Ah, mas o governo também tentou chamar os pais para as escolas, através do projeto Escola da Família”. Maravilha, mas o que os pais encontraram nas escolas para poder participar? Professores disponíveis? Monitores? Na propaganda tudo é perfeito. Na prática, houve casos pontuais de tudo funcionando conforme o planejado. Na maioria das escolas poucas mudanças ocorreram. E permanece o pingue-pongue sobre as responsabilidades. Quem falhou, culpa do governo, culpa da escola, culpa dos pais…

É nítido, diante destes fatos, que governo e escolas parecem se sentir confortáveis com os pais à distância. Desde a cena que presenciei nos anos 80 e não esqueci, são bem-vindos aqueles que se aliam aos interesses da direção ou aos interesses do governo. Não vou generalizar. Conheci diretores (as) que abriram e abrem as portas à verdadeira gestão democrática, à comunidade, sem fazer tratamento diferenciado e escolhas imorais, características do formato viciado da política deste país. Enquanto houver um grupo de pais a comungar com este formato, visando também seus interesses mesquinhos, oportunistas, e outro grupo largar, seja por descrença em quebrar o círculo vicioso, seja pelo comodismo de achar que a escola tem a obrigação de educar seus filhos de A a Z, fornecer tudo a eles, não vai adiantar protestar na internet sobre a situação das escolas, os conflitos entre professores e alunos, o que está na grade curricular, os temas transversais, a biblioteca ou a sala de leitura subutilizada e não informatizada, as condições das salas de aula e da escola no geral. São gritos que ficam registrados, mas não mudam a realidade. A internet está abarrotada de lixo virtual. De críticas, denúncias que não são armas de pressão para mudar algo. A mudança sempre virá com a pressão presencial coletiva, numerosa (o que agora não é possível por causa da pandemia) ou através de boicote em massa.

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Para encerrar, o momento. Pandemia. Novos entraves. Aulas presenciais ou virtuais? Professores preparados (inclusive psicologicamente)? Como os pais podem opinar sobre o presencial na escola se estavam ausentes? Como os que acham que a escola deve dar toda a educação aos seus filhos estão agora lidando com a nova realidade, das crianças e adolescentes em casa se nunca ensinaram a fazer bom uso da internet para estudo? Nunca estimularam os filhos a ler livros? Onde estavam os pais nas décadas passadas? Vamos reler. Uns esquematizados e outros ausentes, nem aí. Agora colhemos o resultado. Um tanto tarde para compreender a teia construída e como conseguir mudar algo.(Ilustração: Boletim Jurídico Online)

GEORGE ANDRÉ SAVY

Técnico em Administração e Meio Ambiente, escritor, articulista e palestrante. Desenvolve atividades literárias e exposições sobre transporte coletivo, área que pesquisa desde o final da década de 70.

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