MENÓHGRAFIA, havia uma pedra racista no seu caminho

MENÓHGRAFIA


Um minuto de silêncio, pra quem ficou pra trás, a caminho de Macondo (Lucas Menóhgrafia).

Há mais de três meses uma mãe chora; irmãos, familiares, amigos e amigas também choram. Essas lágrimas são pela perda de um cara singular, fraterno e talentoso, poeta de verdade, que foi assassinado numa madrugada, em uma sarjeta no centro da cidade.

Conheci o Lucas Menóh – também Menóhgrafia e outros bons vulgos – numa das minhas madrugadas de excessos em meados de 2017.

Meu irmão de escrita, Mikha, e eu perambulávamos pelas ruas mortas da cidade sem heróis, até chegarmos ao H******, bar alternativo local. Pedimos algumas brejas. Bebíamos em meio ao marasmo da música e de algumas figuras repetidas, todas as quintas, sextas e sábados – há muitas lindas tribos, mas predominam grupos que dizem lutar pela cultura local, pessoas que se conhecem nas redes sociais e nos eventos artísticos, mas dificilmente se cumprimenta ou troca ideia olho no olho: gente melancólica, evasiva, pra variar. Então me toquei do propósito pelo qual tinha entrado no barzinho pós-moderno-hipster: aliviar minha bexiga para atormentá-la novamente, não nessa mesma ordem.

Fui cambaleando até o banheiro polissex. Faíscas e estrondos se fundiam no microcosmo jundiahyense, o LSD deteriorava-se dentro de mim…

Cansaço.

Banheiro.

Alívio.

Bebedeira.

Cansaço.

Bem, ao voltar senti um toque no ombro. Alguém gesticulava e então eu vi que queria entregar-me algo. Vi que um papel tremulava em sua mão. O papel era minha identidade, aquilo que diz que eu sou eu: meu registro geral perdido à porta dum sanitário, nem tinha dado conta de que havia caído do bolso. Ele, Lucas, que fez a gentileza.

Apresentamo-nos um ao outro: eu, Camaleão Albino; e ele, Lucas Alberto Fernandes, o Menóhgrafia(foto acima). Fiquei agradecido e o chamei para que tomássemos cerveja e/ou conhaque. Juntamos os grupos e começamos a falar sobre poesia, literatura, música, os preços da diamba, os rumos mais autoritários que o país estava tomando e a arrogância da nossa terrinha provinciana que não oferece nada além do óbvio em se tratando da vida noturna – essas coisas de acelerar o carro do papai na Avenida Nove de Julho ou na Avenida Antoine Frédéric Ozanam nunca foi pra gente.

Haja cigarro pra tanta conversa e vice-versa. Naquela noite nós fechamos o barzinho cult; funcionários já estavam varrendo nossos pés para que saíssemos, mas acho que não eram nem três horas da manhã – no interior as madrugadas são curtas.

Saímos.

Nosso pequeno grupo – junção de chapadas e chapados avulsos – achou um canto na rua. A prosa continuaria. Naqueles dias eu andava com exemplares dos meus escritos. Dei a ele um livro, trocamos contatos, recomeçamos a falar sobre as dores do mundo e, claro, sobre batalhas de rima, sarau e slans.

Aos poucos ele nos contou o motivo pelo qual gostava de ser chamado de Menóhgrafia. Como suas influências eram o rap, o trap e diversos autores considerados menores diante da literatura elitista e acadêmica, Menóh buscou, de forma estratégica, a imagem do “poeta menor do Manoel Bandeira”, nos disse, mas também era gíria e um projeto que dava voz ao garoto esperto que cuida de si e dos seus – Menóh revestia com ouro a condição dos“moleques” que há tempos sofrem o genocídio do povo negro, subjugado e silenciado num país racista – e, claro, aqui em Jundiahy. No rap e na vida toda uma parcela da população brasileira vive com honra e dá novos significados aos seus mangueios e corres. Ele disse que o vulgo Menóhgrafia expunha a condição única dele entre empregos informais, a escrita e escritoras/es/xs, a composição dos beats e os grafites e pixações ( calma, eu sei que pichar é errado), coisas que ele conhecia e juntava muito bem em seu mosaico de artista. E era transitando entre os semáforos da cidade que ele media o índice artístico – e, também, o índice de preconceito.

Trocamos algumas rimas. Ele fez um freestyle longo e muito refinado (decorar rimas nas batalhas e duelos é multa grave, é pior que não aparecer em debates). Eu tentei acompanhar, mas, bem, eu, em batalhas de rima, fico melhor com espectador.

O Menóh mandou muito naquela noite insone. Ele disse ter aprendido os maiores ensinamentos no tempo em que tomou disciplina– mas, para ele, o importante foi um terço da vida nos corre, um terço no rap e um terço na bisbilhoteca Prof. Nelson Foot.

Foi inevitável falar sobre o racismo estrutural. Lucas deu detalhes que nós, privilegiados, sempre ouvimos, mas que não vivemos propriamente. Ele nos dizia que o povo negro sempre será suspeito numa sociedade desmemoriada: (uma de suas letras fala de Macondo, cidade real-ficcional de um povo alheio ao próprio passado, em Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez). Também falou que até hoje há quem veja dignidade histórica em mãos dos que seguraram chicotes.

A forma encontrada por ele para desbancar os preconceitos diários foi produzir arte (atividade que também é mira de desprezos). Suas poesias, seus versos em batidas representavam o contragolpe diante da realidade da miséria social das nossas cidades – Menóh nos lançava a sua visão sobre como ao entrar em mercados, bancos, lojas, lanchonetes, espaços públicos, restaurantes, centros culturais e,mesmo quando caminhava na própria rua, o povo negro e pardo sempre recebe o olhar da suspeita ou a invisibilidade do desprezo, “a colherada diária de racismo”, dizia ele.

Mais do que representações culturais, sua poesia me marcou porque falava dos problemas que ele viveu. Lucas, o MC Menóh, tinha que encarar dilemas que a população negra encara: ser invisível na maior parte do tempo, mas visível como estereótipo. Ele falou dos lugares onde não se sentia confortável e, claro, os sussurros violentos que pairavam onde quer que fosse.

Daquele dia em diante mantivemos o contato, trocamos poemas, nos encontramos em muitas ocasiões e eu estive lá quando ele e muita gente boa que admiro movimentaram a cena da (nem sempre) querida Jundiahy com as edições do Slan do Zé.

Eu me lembro dos seus versos, Lucas, lembro-me também da sua fala recatada que sempre explodia em apresentações – não há como conviver com um artista do porte do Menóh sem se emocionar com a sua precisão diante dos acontecimentos e da vida, uma força que ele tinha nas palavras e atitudes.

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E pensar que tinha uma pedra para silenciar sua arte; no meio do caminho, mano Menóhgrafia, tinha uma pedra; uma pedra que o atingiu, destroçou seu corpo esguio e sua mente tão ágil-luminosa de jovem de 22 anos; tinha a p**** de uma pedra; que até hoje faz a gente chorar por dentro e por fora a sua perda; tinha uma pedra que iria interromper sua existência promissora e seus planos para concluir as músicas de A Caminho de Macondo; uma pedra que está entalada na garganta de todos e todas que sentem na vida o que você cantava; sim, tinha uma pedra que ainda ecoa nos silêncios dos dias de pandemia-quarentena e que privou você do fôlego, não lhe deixou mais respirar. Essas sete pedras eram só uma, furto Drummond para narrar sua ausência, meu amigo.

Sinto saudades de você, amigo-poeta Lucas Menóh, Menóhgrafia, artista da vida real, dos problemas reais de um país que a cada dia comprova a vocação para ser distopia. Esses dias, enquanto eu me embriagava com Wish You Were Here, do Pink Floyd, preparei esse texto medroso. Durante a escrita eu me lembrei de uma fotografia do Basquiat(acima), artista furioso. Foi como rever um amigo. Eu realmente queria que você estivesse aqui para nos ajudar com sua poesia viva. Que a sua morte – que foi motivada por rixas antigas e pelo racismo do suspeito que apedrejou você – não seja mera estatística. Hoje só posso reafirmar que você faz falta e, como diz a sabedoria recente: fogo nos racistas. (Foto principal: Gabriela Longatti)

HILDON VITAL DE MELO

‘Jundialmente’ conhecido. Escritor e pesquisador à deriva, mas professor de filosofia, por motivos de sobrevivência.
E-mail: vitaldemelo@yahoo.com.br – Instagram: @canaleao_albino

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