26, abril , 2019
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A PERGUNTA DE HOJE: para onde vai tudo isto?

PERGUNTA

Vivemos em uma era cada vez mais conectada, todos estão no aqui e no agora ao mesmo tempo e, para complicar, com todos e com ninguém, também ao mesmo tempo. Segundo Kozinets, talvez hoje não tenha mais sentido falarmos sobre cibercultura como distinta de outras formas de cultura humana. A cibercultura, da maneira como foi definida por Lévy, no século passado, como o conjunto de técnicas, de práticas, de atitudes, de valores e modos de pensar que se desenvolvem com o crescimento do ciberespaço, já não pode ser desvencilhada de outras formas de cultura humana. Diante de tudo isto, a pergunta de hoje é: para onde vai tudo isto?

A internet é onde hoje vivemos. Desta forma, quando olhamos para a internet, estamos vendo algo que reflete não apenas a nós mesmos, mas os valores dominantes da sociedade deste momento. Dentro do universo da internet, estão as redes sociais, que são uma realidade já consolidada da atualidade: representam uma maneira de comunicar-se, manter-se conectado com o mundo, descobrir sobre a vida alheia e também expor as próprias vidas, entre outros de seus possíveis usos.

É interessante e preocupante que, no ponto de vista do velho e bom McLuhan, a presença das mídias chega a configurar um outro modo de existir socialmente. Outra população, outro idioma ou dialeto, outros costumes e outras formas de participar desta sociedade, possibilitando-nos dizer que a internet, as redes sociais e outras ferramentas do mundo ciber não são nem boas e nem más. Tampouco são neutras.

Para uma avaliação de valores necessitamos perceber a dependência do uso que fazemos delas. Notemos e acentuemos que a privacidade e a exposição são questões principais da vida em rede; Keen aponta que o desejo de privacidade era considerado a norma cultural dominante na era industrial, entretanto, hoje não nos importamos com ela, e lutamos para que todos possam nos assistir, garantindo-nos poucos e fugazes minutos de fama.

As redes sociais estão aí, e estão dominando tudo: as relações humanas, o marketing, o comércio, o social, manejam o emocional e pregam o espiritual! Não temos como recuar e excluí-la. Ao invés de discutirmos se ela é boa ou má, precisamos começar a estudá-las e entender as melhores formas de sua utilização. Precisamos adquirir a consciência de que toda causa possui um efeito. O uso das ferramentas das redes sociais traz consequências para as pessoas que as utilizam. Tais consequências serão boas ou más, dependendo da orientação que dermos á elas. Do quanto de estrago que elas venham causar nas vidas das pessoas, famosas ou não.

Quando falamos em pessoas famosas, falamos de pessoas com um grande número de seguidores; e uma publicação feita por elas alcança um número muito maior de pessoas. Isso acontece porque aquele famoso tem sua vida exposta nas redes sociais e seus seguidores perdem parte de seus dias para vigiar e seguir mesmo, cada passo, cada palavra, cada troca de roupa. E, para os leigos sobre o assunto, é difícil entendermos os limites das redes e quais são os reais riscos da utilização e manipulação.

No esporte isto acontece com igual ou maior violência: ao atingir notoriedade, os atletas alcançam status de semideus e as redes sociais, para eles, servem de espaço de divulgação, propagação e perseguição, numa lógica própria e indiscriminada. É fácil encontrarmos na internet sites que ranqueiam os melhores atletas para serem seguidos no Twiter, no Instagram e em outras redes sociais. As pessoas acompanham o que é postado pelos esportistas, como se aquelas informações fossem o que de mais sério e envolvente temos para o momento. Não interessa o problema social que estejamos vivendo.

A velocidade de transmissão e seu alcance, possibilita que as novas mídias sociais exerçam uma forte atração por questões imperiosas: você posta o que quiser de onde estiver. As tais mídias fugazes permitem que as pessoas se tornem cada vez mais seus próprios narradores, inflando partes de suas vidas e enaltecendo suas histórias. Por outro lado, no mundo contemporâneo, os receptores tornam-se produtores de seus próprios conteúdos, visto que editam seus textos e imagens e compartilham, nas redes das quais são usuários. Os receptores detêm o poder de escolha, selecionando, por exemplo, quem pode ver suas publicações, e filtrando o que querem receber de informações.

Quando falamos no Instagram especificamente, falamos de uma rede social cujo foco é a imagem e, como dizem no jargão popular, uma imagem diz mais que mil palavras. É atualmente a segundo maior rede social em número de usuários, e parece ser também bastante popular entre os atletas. Além disso, os atletas não estão blindados contra as polêmicas relacionadas ao uso das redes sociais. Alguns esportistas que utilizam o Instagram, como o jogador de futebol brasileiro Hulk e o atleta inglês Leroy Fer, envolveram-se em incidentes relacionados com racismo e nudez.

Mas quando falamos de esporte, falamos de um ambiente em que desde os tempos da Grécia Antiga até os dias atuais, continua sendo dominado por homens. O esporte feminino no Brasil cedeu e ainda cede a pressões sociais, em que as mulheres acabam desempenhando um papel secundário diante do esporte masculino. Para comprovar esse fato, alguns estudos nos mostram que a imprensa esportiva trata de maneira bastante diferente as mulheres e os homens que participam do universo esportivo.

A mídia esportiva brasileira tende a valorizar os aspectos físicos das atletas mulheres, chamar atenção para sua beleza estética e não necessariamente para o rendimento esportivo, fato que não ocorre com os homens. Diante disso, será que quando esses atletas utilizam suas redes sociais, ou seja, que se mostram de acordo com as suas vontades, sem a interferência e edição de terceiros, essas diferenças ainda permanecem? Será que a mídia esportiva é realmente tendenciosa, ou apenas reproduz um padrão existente na sociedade no que diz respeito às diferenças de gênero? O que será que os atletas costumam publicar em seus perfis? São questões como essas que merecem destaques àqueles que consomem o momento esportivo.

E, então, vem o WhatsApp informar que reduziu de vinte para cinco o numero de mensagens que atingem seus usuários, para diminuir a propagação de fakenews. Mas quem disse que o usuário não pode enviar ‘n’ vezes aquela mesma mensagem sem a garantia de não-propagação do fake? Qual a garantia que se tem no ciberespaço? A única garantia que temos é o fato de estarmos vivos e interagindo, para não perdermos o trem do Século XXI.

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Este ensaio tem como base a dissertação de Mestrado de Vivian Oliveira, minha orientanda com quem divido a autoria do trabalho. Foi um dos mais ricos trabalhos realizados no LEPESPE e que merece atenção de todos os que buscam entendimento das inter-relações humanas com o advento das comunicações fugazes.(Reprodução: Instagram Cristiano Ronaldo/Esporte Interativo)


AFONSO ANTÔNIO MACHADO

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduando em Psicologia, editor-chefe do Brazilian Journal of Sport

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