26, março , 2019
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QUANDO A VIDA escapa entre nossos dedos. A morte de dona Mara…

QUANDO A VIDA

O corpo de uma senhora de 61 anos foi encontrado em pleno Dia das Mulheres, próximo ao Paço Municipal de Jundiaí. A notícia passou batida, sem muito alarde, talvez pelo fato da vítima ser uma moradora de rua ou porque vivemos tamanha violência no dia a dia que este tipo de situação nem causa mais comoção. Para quem teve a oportunidade de conhecê-la, porém, a morte da dona Mara deve ser lembrada como mais um alerta na luta contra as drogas. É prova de quando a vida escapa entre nossos dedos…

De acordo com o que consegui apurar com as forças de segurança da cidade, o óbito teria ocorrido há pelo menos 10 dias. Ela vivia num imóvel que fica ao lado do bolsão de estacionamento do Paço Municipal, sem energia elétrica ou água encanada. No alambrado que separava a rua da casinha, ela colocou pequenos cartazes com frases motivacionais e pedidos de ajuda para os cuidados com a Catita – cadelinha que dividia o espaço com a dona Mara.

Google Maps

Era uma pessoa muito inteligente, mas de gênio forte e de alguns momentos de explosão emocional – típicos de quem faz uso contínuo de drogas. Em sua trajetória naquele espaço, dona Mara fez amigos que por diversas vezes tentaram ajudá-la a deixar aquela situação. Eu fui uma delas, um pouco antes do triste desfecho.

Acionado para tentar ajudar aquela senhora a buscar tratamento, fui até o Paço orando e pedindo a Deus para me ajudar nas palavras que, naquele momento, convenceriam-na a mudar de vida. Não era uma missão fácil, principalmente depois de ouvir que dificilmente ela aceitaria.

Quando cheguei já fui logo a cumprimentando. Conheci a Catita e soube que dona Mara era professora. Contou sobre o antigo trabalho, falou a respeito do problema das drogas e disse que estava cansada daquela vida… Era a deixa que eu precisava para fazer a proposta: permitir que encontrasse um local em que ela pudesse se tratar.

Mara tinha duas preocupações: quem cuidaria da Catita e como faria para continuar a fumar cigarro, já que em determinadas instituições isso não é permitido. Disse que ficaria com a cadelinha até que fosse concluído o tratamento e que a vontade de fumar podia ser combatida com a força de vontade que estava demonstrando para vencer o vício das drogas. Lembrei que ela era um boa pessoa, que já havia ajudado muitas pessoas a terem acesso ao conhecimento e que queria muito vê-la bem.

E não é que deu certo? Ela topou, corri atrás de uma vaga numa instituição mantida pela Igreja Católica e consegui no mesmo dia, graças ao auxílio de contatos que também se sensibilizaram com a situação.

Voltei ao Paço feliz da vida, mas a alegria terminou cedo. Dona Mara não queria mais ir, pois não conseguiria deixar de fumar. Ficou brava, disse que não queria ser pressionada e decidiria só depois o que seria feito. Tive, então, de recuar e dizer que estava à disposição para levá-la assim que se decidisse.

No período que se sucedeu, sempre perguntava por ela no Paço Municipal. Não a vi mais por ali, até me deparar com a trágica notícia. Confesso que a primeira sensação que senti foi de culpa: na minha cabeça, deveria ter insistido mais para que ela se tratasse. Falei sobre isso lá no Paço e a resposta foi que não adiantaria porque ela não iria de jeito nenhum.

A última tentativa, contaram os amigos, foi de uma pessoa que a levou para o Caps (Centro de Atendimento Psicossocial). Lá, dona Mara permaneceu por quatro dias, apenas. No papo que tive com ela, registrado no início do texto, a professora confidenciou que adorava a adrenalina de subir o morro em busca de droga, no meio da madrugada. Era o que, naquele momento, a movia…

As mortes causadas diretamente pelo uso de drogas lícitas e ilícitas aumentaram 60% entre 2000 e 2015, segundo Relatório Mundial Sobre Drogas lançado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Desse número, medicamentos de prescrição derivados do ópio respondem por 76% de todas as mortes relacionadas a drogas.

O levantamento também aponta alta na participação em faixas etárias mais elevadas. Pessoas com mais de 50 anos representaram 27% dessas mortes em 2000, percentual que aumentou para 39% em 2015. Segundo a ONU, o uso de medicamentos é o principal responsável pelas mortes também nesse grupo.(Foto principal: goo.gl/images/5ePcRj)

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Na outra ponta, a circulação de drogas ilícitas também está crescendo. Conforme divulgou a ONU, a manufatura global de cocaína alcançou o nível mais alto de toda a história, com uma estimativa de produção de 1.410 toneladas.

Que as autoridades possam fazer jus à Lei das Drogas (11.343, de 23 de agosto de 2006), responsável por definir o sistema de políticas públicas sobre drogas no País. A lei prevê “medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define crimes e dá outras providências”. Não podemos mais esperar.


EMERSON LEITE

Formado em Jornalismo pela UniFaccamp; Pós-graduado em Segurança Pública e Cidadania pela Faculdade Anhanguera; Atua na área desde 1995: passou por rádios, jornais impressos, site e desde 2010 trabalha como assessor de imprensa na área política.


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