Relatos da vida e obra de SÃO NICOLETTO de Jundiahy

SÃO NICOLETTO
Todos os Santos, obra do Beato FraAngelico. Está em algum palácio da Itália, mas receberia mais honras se estivesse no quarto do nosso São Nicoletto de Jundiahy

Relatos da vida e obra de São Nicoletto de Jundiahy são fragmentos sobre um dos padroeiros e mártires da nossa provinciana cidade que, há algum tempo, venho escrevendo. Esse texto irá compor uma longa Hagiografia (escritos dedicados à vida e às obras das santidades) dedicada ao povo jundiahyense que tão pouco sabe sobre sua própria história.

“(…) Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear; e aconteceu que, semeando ele, uma parte da semente caiu junto do caminho, e vieram as aves do céu, e a comeram (…)”

Na primeira vez em que Henrique Vitarelli e Manuel Olivares, poetas municipais sem dinheiro no bolso, convidaram o melancólico São Nicoletto de Jundiahy para a hora mística do caos no palacete da rua B. ele imaginou tratar-se de uma conversa entre jovens intelectuais. Talvez, pensava ele, os amigos quisessem falar sobre Akira Kurosawa já que o diretor era mestre em verter tragédias de Shakespeare em épicos magníficos de sangue, samurais e gueixas pálidas – pálidas, porém sedutoras.

Nada disso.

Para espanto de São Nicoletto de Jundiahy o convite era bem pouco cinematográfico. O menino santo perceberia naquela noite que a hora mística do caos se tratava de uma verdadeira esbórnia repleta de etapas e ritos loucos.

A primeira rodada era uma longa conversa envolta em fumaças de tabaco & diamba sobre os recorrentes fracassos nas escritas dos dois poetas ao longo dos últimos cinco ou sete dias – ou, para sermos mais precisos, de toda a inexistente vida literária de ambos. 

São Nicoletto de Jundiahy ouvia as queixas de Henrique sobre falta de tempo, a quantidade de trabalho burocrático, o baita incômodo que este sentia em ser proletário da educação pública e particular da cidade e, claro, ter que montar provas e provas e provas e provas; depois ter que corrigir provas e provas e provas e provas; para então ter que lançar notas e notas e notas e notas; para, depois, preencher diários e diários e diários e diários de classes; para novamente montar arquivos de provas e provas e provas e provas de recuperação; e, enfim, concluir que estudou feito maníaco para acabar num ciclo de Sísifo que só o tornava mais amargurado, porém o fazia admitir que essa sucessão de mesmices fosse a única garantia de pagamento das contas e do aluguel, sempre três meses atrasado. 

            – Pode crer, é foda, cara, imagino seu estresse e raiva em ter que corrigir e recorrigir as mesmas coisas, além de aguentar uma molecada que se acha filha de magnatas – dizia Manuel Olivares num tom amistoso e com o isqueiro engatilhado no quinto cigarro, da primeira rodada.

Súbito, eles passavam para os gorós. Vitarelli fazia gestos mecânicos ao abrir três garrafas quase que de uma só vez.

(Agora vinha o momento etílico que, a depender do teor do fim de tarde& começo de noite – e do que restava de grana na altura do mês –, podia variar entre uísque original, uísque paraguaio, “uísque” nacional, cerveja artesanal hipster, cerveja importada, (quase nunca) cerveja baixa renda, vodca, vodca de garrafa de plástico (o pior tipo), cachaça, corote, pinga, conhaque caseiro surrupiado do bar do Amaral até chegar aos caldos rubros banhados com açúcar do Mazziero).

A cena ficava interessante porque o poeta visceralista Manuel, que é fraco para o álcool,punha-se eufórico e falava das aflições do coração, paixões e sexos do Tinder, amores líquidos, enquanto Henrique Vitarelli, que deixava os resmungos de canto, bebia com jeito fajuto de mestre cervejeiro-degustador nascido em Heidelberg.

Bem comportado no papel de espectador São Nicoletto de Jundiahy observava os diferentes assuntos, dava algumas risadas e vez ou outra interagia, mas suas atenções naquele instante estavam mesmo voltadas para duas coisas bem distantes daquilo tudo.

Tiravam-lhe o sono as traduções que desejava comprar e lerda Ilíada e da Odisseia (ler apenas estava fora de cogitação, era preciso dominar, possuir, mas não por conta de anseios consumistas como de alguma adolescente que compra sorvete no Shopping com mesma displicência em que quer ser miss ou enfermeira humanitária, não).

Queria afundar-se em Homero, ter cada uma das célebres traduções. Espantava-o a fluidez com que Donaldo Schüler havia convertido as peripécias de Ulisses; era um apaixonado pelos decassílabos sem rimas de Odorico Mendese já havia rabiscado alguns dos epítetos em seu pequeno diário – São Nicoletto de Jundiahy chamava seus cadernos de anotações sobre textos clássicos de Orelicário para guardar Nadas. Tinha ainda dificuldades com o estudo do alfabeto grego, mas memorizou os seis primeiros hexâmetros das duas obras homéricas e era grato às traduções de Carlos Alberto Nunes. Entretanto, nada, exatamente nada era mais belo do que os trabalhos de tradução feitos pelo acadêmico Trajano Vieira – durante um bom tempo, São Nicoletto de Jundiahy se sentia hipnotizado ante o exemplar autografado pelo próprio professor Trajano da Odisseia que vivia à deriva no “quarto de estudos” de Vitarelli, pensou por vezes em afanar o livro que havia sido parte do butim de 2016, momento histórico para Vitarelli e Olivares que, diante das promoções que cobravam metade do dobro do preço justo, passaram a roubar livros de forma descarada em festas literárias, saraus alternativos, congressos tediosos, bibliotecas de escolas etc.

A outra coisa, talvez a mais importante, que atormentava o jovem era uma mensagem, melhor; a ausência de uma mensagem daquela garota que ele desejava a cada hora silenciosa de estudo.

A noite avançou alternando entre ritmos de jazz e Pixinguinha, até que a terceira rodada traria a experiência mística da hora mística do caos em si. Os detalhes sobre a poção mágica, a então famosa Grande Pororoca das Drogas, eram citadas por Olivares e Vitarelli com vozes de triunfo psicodélico, mas só essas palavras já serviram para embrulhar o estômago de nosso mártir e ele saiu às pressas buscando o caminho de casa. É bem verdade que estivesse trêmulo, muito inseguro diante dos poetas transgressores que nunca mostravam seus poemas, todavia não mediam esforços nas arruaças.  

***

“(…) e outra caiu sobre pedregais, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque não tinha terra profunda; mas, saindo o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, secou-se. (…)”

Aquele setembro insosso trouxe a notícia de que ocorreria, dentro de um mês, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, um colóquio sobre Florescimento do Helenismo, com ênfase na Escola Filosófica dos Cínicos, com ênfase em Diógenes, o “Sócrates alucinado” aquele que vivia num barril, igualzinho ao do Chaves do 8.

Participar desses eventos, anotar os principais argumentos e referências feitas pelos palestrantes e ouvir atentamente as falas dos especialistas em suas respectivas mesas redondas eram tarefas que faziam parte do projeto de São Nicoletto de Jundiahy. Ele, assim como muitos e muitas, é um universitário pobre que acalenta sonhos progressistas e de esquerda, que almeja uma cátedra de professor numa universidade pública e que se enterram em leituras até os olhos se extenuarem porque sabe – e como sabe – que as oportunidades de uma bolsa de mestrado, doutorado ou pós-doutorado, são como os dois fios de cabelos da deusa Fortuna e sua roda de sorte e revés sempre girando. O colóquio integraria um grande ciclo de eventos durante uma semana sobre cultura grega e contaria com a nata dos estudos dessa área tão relegada em um país de analfabetos neoliberais.

No mês seguinte, numa segunda-feira, de manhã bem cedo, quando estava prestes a pegar o trem enferrujado que o exigiria que ficasse em pé por duas horas e meia de trajeto, mas o levaria ao evento, São Nicoletto de Jundiahy se deu conta que sua carteira estava lisa, lisinha. Não se tratava, evidentemente, de falta de dinheiro ou de organização, pois no último semestre havia economizado ao receber bons trocados por ter feito trabalhos para colegas de algumas universidades particulares das redondezas – escrevia sobre Freud, Darwin, José Saramago, Sistema de saneamento básico, Vygotsky,Práticas Administrativas, além de duas ou três coisas sobre Código Penal (trabalhos ridículos e copiados diretamente da internet, mas que, segundo os assíduos pagantes, arrebatavam um 9,5 e, claro, garantiam a sobrevivência do nosso eremita urbano).

Mas o que aconteceu com o dinheiro intelectualmente suado do santo? Para onde foram as economias mirradas do último semestre?

“Aquele cuzão, aquele maldito e insuportável nóia cuzão!”– pensou para si mesmo São Nicoletto de Jundiahy.

 Retornou cabisbaixo, frustrado, com as imagens possíveis do congresso perdido e a suspeita inequívoca de que o irmão mais velho, um Zé Droguinha vadio, havia levado todo o dinheiro e com certeza torrado em parangas mofadas ou pinos na quebrada do Fepasa ou, até mesmo, em DMT com os playboyzinhos de algum condomínio da Malota.

***

“(…) E outra caiu entre espinhos, e, crescendo os espinhos, a sufocaram, e não deu fruto (…)”

O final de 2018 parecia diferente, não porque as coisas estavam caminhando para melhor, mas porque, apesar do triunfo tácito do autoritarismo federal disfarçado de nova política, São Nicoletto de Jundiahy estava prestes a concluir seu infindo currículo de Teologia e, para alavancar os rumos pessoais, havia adquirido um emprego como estagiário de uma exposição sobre Direitos Humanos num centro cultural da cidade, (um centro cultural elitista, digamos que um centro cultural onde seguranças negros e pardos eram treinados para desconfiarem “preferencialmente” dos escassos frequentadores também negros e pardos, mas ainda sim, vá lá, era um centro cultural). Ele pensava em redirecionar sua formação e dividi-la, de um lado, com estudos dedicados ao incontornável que habita as obras de Virgílio, Ovídio, Sêneca e Cícero. Na outra ponta de sua tarefa colossal entrariam análises sistemáticas de tudo o que ele julgava como obrigatório no campo da música, cinema, literatura brasileira, artes plásticas, teatro, sociologia brasileira, arquitetura, filosofia e historiografia brasileira.

Sequer havia completado uma semana no emprego e já possuía uma lista enorme de próximas aquisições: dicionários de latim, grego e alemão; um livro de verbos franceses; três das obras de Osman Lins –Nove, Novena, A Rainha dos Cárceres da Grécia e Um Mundo Estagnado–; o primoroso, mas pouco lido Poemas malditos, gozosos e devotos de Hilda Hilst; um exemplar de pré-venda da reedição de Concreto Armado de Juan Pizarro; e, claro, os dois grossos volumes da Ilíada, na pomposa transtradução de Haroldo de Campos. Com o pequeno salário também poderia ajudar em casa, pagando as contas de luz e água.  

Mas a exposição que contava sobre a história dos Direitos Humanos não vingou, durou somente um mês e seis dias– a diretoria do centro cultural elitista cancelou-a – talvez porque faltasse verba para os estagiários, talvez porque frequentadores e frequentadoras bocejassem diante das declarações que constavam nos papeis de divulgação, talvez, ainda, porque pais e mães moralistas julgassem que aquilo ali era apologia ao banditismo ou esquerdismo ou anarquismo, ou, talvez, somente talvez, porque os Direitos Humanos houvessem recuado (ou debandado) na ilhota onde vivia São Nicoletto de Jundiahy – ilhota essa que se compunha num pequeno ponto da grande ilha neocolonial dos desavisados: o Brasil.

OUTROS ARTIGOS DE HILDON VITAL DE MELO

LA LEYENDA NEGRA

YESHUA MAZZIERO TRAMBINNI

JUNDIAHY TEM ANTEHERÓIS

ANTEHRÓIS(PARTE 1)

A lista de livros entrou na fila de espera das prioridades, muito distante das urgências dos dias. São Nicoletto de Jundiahy, que chorava baixinho num dos cantos dos ônibus que o levava e trazia do emprego, ajudou nas contas até dezembro, porém, os comes e bebes do Natal nada tiveram de requintados.

***

“(…) E outra caiu em boa terra e deu fruto, que vingou e cresceu; e um produzia trinta, outro sessenta, e outro cem. E disse-lhes: quem tem ouvidos para ouvir, ouça.(…)” 

Evangelho segundo Marcos, 4:3-9.

Não é sábio sondar e julgar os infernos da vida de alguém – quem faz isso são as gentes fofoqueiras que amam patrulhar os botões e remendos das camisetas dos vizinhos, mas, em dia de chuva, esquece as próprias roupas no varal. A cada um o tempo reserva situações absurdas e reviravoltas que vão além dos limites da dor e do prazer.

Poderíamos ter desejado a São Nicoletto de Jundiahy uma melhor sorte e que não tivesse o irmão que tinha? Gostaríamos que mais recompensas por seus esforços o tivessem alcançado. Não se podem medir as angústias dos outros com a nossa fita métrica. O fato, o simples fato, é que São Nicoletto de Jundiahy não obteve o tão amado cargo de professor universitário especialista em Filosofia antiga e medieval; também não se aliou aos magros representantes da classe artística de sua cidade, estes que requentam o óbvio; e desviou-se, é bem verdade, dos alentos da academia e da família. Não teve paciência para engrossar os berros antifascistas; porém, lamentava-se com o som tímido das notas de repúdio que surgiam na mesma velocidade em que evaporavam.

Após suportar os furtos do seu dinheiro e outros pertences, São Nicoletto de Jundiahy desertou dos seus planos acadêmicos. Não se reencontrou com Vitarelli e Olivares. Dois dias antes da virada do ano, São Nicoletto de Jundiahy, que vendeu todos os seus 126 livros impecáveis para um sebo famoso de São Paulo, sumiria de casa num fim de tarde e não foi mais reencontrado. Nós, os Novos Beatos, o canonizamos pela audácia e determinação.

HILDON VITAL DE MELO

‘Jundialmente’ conhecido. Escritor e pesquisador à deriva, mas professor de filosofia, por motivos de sobrevivência.
E-mail: vitaldemelo@yahoo.com.br – Instagram: @camaleao_albino

VEJA TAMBÉM

TRATAMENTO ESTÉTICO NA GESTAÇÃO: VEJA VÍDEO COM A GINECOLOGISTA LUCIANE WOOD

FISK DA RUA DO RETIRO: SAIBA O QUE SÃO QUESTIONS WORDS. CLIQUE AQUI

OS 103 ANOS DA ESCOLA PROFESSOR LUIZ ROSA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES

PRECISANDO DE BOLSA DE ESTUDOS? O JUNDIAÍ AGORA VAI AJUDAR VOCÊ. É SÓ CLICAR AQUI