REPUBLIQUETA: Aqui, o poste faz xixi no cachorro…

REPUBLIQUETA

Difícil ter que assumir que moramos numa republiqueta. Que tristeza esta história de vai e vem, que estamos vivendo com relação à pandemia. Cansa-me ouvir que os prefeitos estão cedendo à pressões de empresários, comerciantes e comerciários, industriários e grandes empreendedores. Cansa, mais ainda, ouvir que o governador do maior estado da união federativa cedeu às pressões dos prefeitos: o poste está fazendo xixi no cachorro, inexplicavelmente. Hoje vivemos o dilema da volta às aulas, votada favoravelmente por deputados estaduais, em reunião online.

Isso é paradigmático. Estranho e incompreensível, visto o fato deles estarem votando on-line, isolados e distanciados, mas jogando jovens à aproximação e ao conviver juntos, quando ainda desconhecemos a saída para tal pandemia. Estranho poder, o destes robustos senhores. Este é o caso do poste, que urina no cachorro independente da raça e tamanho.

Nestes poucos dias de pouca flexibilização do isolamento muitos foram os sinais de que nada aprendemos desde final de fevereiro do ano em curso: aglomerações em supermercados, bares abertos com poucas pessoas cuidadosas de máscara e mantendo distância social, muita gente correndo nas avenidas, sem máscaras, famílias inteiras nos shoppings e mercados, enfim, vida normal, quando nada está nem nunca será normal novamente.

Muitas regras estipuladas para nossa segurança começam a não fazer mais sentido, num momento em que o relaxamento é a pena de morte; pequenos exemplos, por exemplo, em condomínios, onde se tem discussões e conversas alteradas para que a retomada de uso das áreas comuns seja imediata são sinalizadores de que a vida ainda precisa ser mais valorizada e de que ainda falta muito para aprender, quando se trata de viver em grupo.

Lê-se e discute-se que o aprendizado virá quando o vírus bater nas próprias portas, mas parece-nos que tal aprendizado está longe de ser atingido, diante da despreocupação com a própria saúde e com o parecer livre, de posse do direito de ir e vir, nessa situação caótica, esquecendo-se de que em época de pandemia, quem lidera é o vírus; ele não escolhe endereço, não escolhe sexo, gênero, classe social, formação. Nós somos quem devemos respeitá-lo, o que não está me parecendo a realidade que vivemos, ao menos em nossa cidade e em outras onde percebemos a comemoração da “cura da Covid-19”. Cheguei a pensar que eu dormira por alguns dias e acordei com a cura da pandemia, diante das churrascadas e bebedeiras, sem máscaras e muita aproximação populacional. Olha o poste ai. Olha a republiqueta ai.

Chama muita atenção notar que já há uma mescla populacional, em que se juntam jovens e idosos, num mesmo clima de satisfação de haver vencido o vírus, quando a realidade não é esta: vencer está longe, em especial porque as vacinas ainda estão em fase de teste, depois virá a fase de fabricação em grande escala e, dai, a fase de implantação e vacinação da população. Entretanto, quando isso acontecer, bom será relembrar que a vacina não inibe o contágio mas apenas atenua os efeitos pandêmicos.

E o poste continua a urinar no cachorro na nossa republiqueta. Acredito, mesmo, que possamos dizer que o senso de responsabilidade se perdeu e não encontra o caminho de volta. Escutei pais dizendo que rezam pelas voltas às aulas porque já não aguentam as crianças dentro de casa; ou não suportam mais aulas on-line que ocupem os seus horários de descanso. Poucos foram os pais, conscientes, que se manifestaram dizendo que seus filhos ficarão em casa, até que tudo se resolva e que seus filhos possam voltar a ter vida plena e segura. Pais típicos de uma republiqueta.

Enquanto isso, meus amigos professores estão fazendo cursos, reciclando seus conhecimentos técnicos e se esforçando para dar aulas dinâmicas e agradáveis. Mesmo que isso tome o triplo de tempo de preparo que era gasto anteriormente; neste ambiente verificamos que a normalidade tida como a anterior, jamais será a mesma: os docentes afinados e desafiados pela situação estão mais engajados e mais habilitados para a atuação online. Jamais voltaremos ao quadro negro e giz nem as aulas de sala: o contexto será outro mais adaptado ao distanciamento e com proposta de relações humanas diferenciadas. O futuro é agora.

Sem me aprofundar percebo que o mundo empresarial toma o mesmo rumo: o momento de grandes escritórios, recheados de recepcionistas e pessoal de suporte e sem número de gerentes chegou ao fim: numa estrutura enxuta, cada um de seu canto, na sua casa, atuando em horários coordenados, produzindo mais e melhor, imprime um ritmo de produtividade superior ao anterior, utilizando de mais flexibilidade e economia, atingindo suas metas e superando obstáculos como transporte, estacionamentos, taxas condominiais e demais atributos, que poderão ser voltados aos próprios funcionários. São novos tempos de um futuro que já é agora. E de um futuro com segurança.

Interessante perceber que os estacionamentos dos hospitais e da vizinhança destes estão bem esvaziados, o que nos leva a refletir sobre as visitas ao ambiente médico hospitalar: ou está se distanciando dos espaços de maior contágio ou as urgências e emergências eram mal usadas; afinal qual será a realidade? Sem dúvida as entidades de classe destes trabalhadores da saúde estarão atentas e pesquisando o fato, trazendo para breve uma modo de funcionamento que se aproxime do ideal, favorecendo um melhor e mais pronto atendimento, com padrões melhores de qualidade, sem aquela enchente de pessoas nas salas de espera das unidades de pronto atendimento. Tempos futuros, com critério e seriedade.

Tais reflexões não são exercícios de futurologia, mas análises até menos profundas da realidade atual. Repito que em tempos de pandemia quem governa e dita normas é o vírus, não são o presidente, o governador, o prefeito ou o síndico da republiqueta. O vírus bate em nossa porta sem escolher o morador, causando estragos físicos, fisiológicos, mentais e transformando o contexto já caótico em algo dimensionalmente complexo e de dura aceitação: não estaremos jamais preparados para isso. Este é o futuro: um tempo de lidar com as incertezas e agruras desconhecidas da vida.

Preparação para isto existe, se conscientemente apendermos a lição e fizermos o dever de casa, porém é preciso controle e regras duras de segurança que nos levam ao recolhimento e isolamento, por mais difícil e complexo que seja. É o jogo de escolher entre se expor ou não se expor, cujas consequências passam pelo viver ou morrer. Sem sutilezas e sem meias palavras. Viver o futuro é realmente assumir a responsabilidade de ser responsável, por si e pelo outro, nesta ordem, sem descuido e sem resmungos.

Talvez seja o momento, inclusive, de pensarmos no processo eleitoral. Este ano tem escolha de prefeitos e vereadores na republiqueta. Já se fala em excluir a votação eletrônica. Não entendi: não teremos que nos debruçar para assinar na ata eleitoral? Não teremos que manusear o teclado? Ou não teremos que pegar às antigas cédulas? Não enfrentaremos filas? Se tudo isso é positivo, por que excluir o voto e o reconhecimento digital, que é mais rápido e mais seguro? A data do pleito será adiada para novembro, enquanto a Europa já pensa em 2021. O que dificulta para nós pensarmos que este ano já fechou, nada mais acontecerá em 2020 e que, se formos cautelosos, poderemos iniciar o 2021 lá por março/abril e avançarmos lentamente em direção aos nossos objetivos?

Escuto amigos dizerem que 2020 foi um ano perdido. Discordo, pessoalmente, pois foi o ano em que tive que acessar o mundo da minha casa, com conexões online e abraços virtuais; tive tempo e usei dele para me reciclar e aprender muita coisa que sempre quis, como fotografia, umbanda, espiritualidade, comidas rápidas e sadias, cultivar e valorizar uma boa rede de apoio, amar mais a mim mesmo, dar valor as minhas coisas, inclusive a minha saúde, polir meus valores morais e culturais, respeitar-me e respeitar aos outros. Não, não foi um ano perdido para mim e acredito que para milhares ou milhões de outras pessoas da nossa querida republiqueta também.

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Nestes tempos percebi que o por do sol visto do meu quarto é muito bonito. A lua cheia é mais fascinante do que eu imaginara antes. O toque do celular ou do fone fixo é apaixonante, por trazer para dentro de casa um amigo ou uma mensagem de conforto. O cumprimentar pelo aniversário é um ritual místico que afirma uma etapa da batalha vencida e amar a Deus é acolhedor e necessário para a compreensão da grandeza do Universo e na incapacidade que temos para entender o Conjunto da Ópera, que é a Vida. O saber se tornou uma benção e a ignorância um estorvo (como sempre fora, mas nunca provado). Que seis meses de aula de Vida fantásticos foram estes…e que ainda irão longe, como eu disse em março.

Lá fora e nesta republiqueta, os que viveram de fugacidades e momentos fúteis devem estranhar, mas mesmo assim foi um ano de aprendizagem intrínseca; as mudanças foram internas e as transformações foram imensas. Se mantidas, o futuro será suave. Talvez assim fique mais difícil para o poste urinar no cachorro e possamos nos conduzir ao pós-futuro com menos egoísmo, desrespeito e futilidade. Talvez.(Ilustração: www.mundoecologia.com.br)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology. Aluno da FATI.

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