SEJA A MUDANÇA que você quer ver no mundo. Isto lhe diz algo?

SEJA A MUDANÇA

Antes de responder, cabe ainda outra pergunta: saberia a origem da frase Seja a mudança que você quer ver no mundo? Ou melhor, quem a disse? Para entendê-la melhor (e talvez não mais esquecer!), ser a mudança que queremos ver no mundo vem de um contexto histórico bem especial. Vamos ver?

Esta frase é atribuída a Mahatma Gandhi, ativista indiano nascido no século XIX e assassinado em 1948, cujas ações essencialmente pacifistas contra o jugo inglês sobre seu país, Índia, culminaram em sua independência, em 1947. Gandhi usava a “Satyagraha”, um princípio de protesto sem violência expressado pelo ato de cada indivíduo, consciente, de desobediência civil ante às arbitrariedades sofridas: uma delas é de que os indianos, que beiravam a miserabilidade, não poderiam fazer suas próprias vestimentas, mas comprá-las dos ingleses, que lucravam fortunas inimagináveis no comércio de tecidos em suas colônias; outra foi da proibição da extração do sal do mar, essencial na alimentação, pelos indianos, motivando a “marcha do sal”.

Curioso é que sua morte não ocorreu como suposto “revide” aos seus atos pacifistas que levavam multidões a aderirem, mas a radicalismos religiosos: hindus e muçulmanos passaram a se rivalizar, em crescente violência. A porção muçulmana na Índia deu origem ao Paquistão, fracionando o país e gerando insatisfação entre os hindus. Um deles, extremista radical, atribuindo a Gandhi a perda do território e o “ganho” muçulmano, em um novo país independente, o matou a tiros, à queima-roupa. Intolerância, ignorância que perduram até os dias de hoje, haja vista ser uma das mais graves zonas de conflito no mundo contemporâneo, a região da Caxemira.

A frase atribuída a Gandhi contém, nela própria, a forma de se relacionar com o mundo: toda ação deve partir de si próprio. A imagem de sua pessoa gravada em nossa memória, até hoje, como vemos na abertura desse texto, expressava suas ideias em modos e vestimentas simples, despojadas, cheias de simbolismo. Mas o alcance da mensagem da frase vai além: essa ação haverá de corresponder às nossas expectativas, e não o contrário. Portanto, somos de fato nós, com toda e qualquer atitude, se relacionando com os outros e com nosso entorno, que vamos espelhar o que desejamos, queremos, exigimos, lamentamos.

Eventos, ações e iniciativas voltadas ao meio ambiente muitas vezes pedem em sua divulgação frases de efeito, sintéticas, mas que convidem à reflexão: esta é uma delas e mesmo eu outrora fiz uso dela, por achá-la que vinha ao encontro de demandas urgentes da sociedade.

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Hoje, diante de tantas ações e omissões, muitas vezes gritantes de órgãos privados e públicos, de pessoas comuns e eminentes, de baixo e alto nível de escolaridade, repenso a frase. Com certo pesar, tenho menos certeza de que haverá a esperada reverberação crítica de seu sentido original, que é o de mudança para o bom, para o melhor, para o positivo, para todos; mudança para optarmos pela tolerância, paciência, empatia, solidariedade, silêncio, amor. Refaço, então, a pergunta: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”: isso lhe diz algo?


ELIANA CORRÊA AGUIRRE DE MATTOS

Engenheira agrônoma e advogada, com mestrado e doutorado na área de análise ambiental e dinâmica territorial (IG – UNICAMP). Atuou na coordenação de curso superior de Gestão Ambiental, consultoria e certificação em Sistemas de Gestão da qualidade, ambiental e em normas de produção orgânica agrícola.


Foto principal: https://bit.ly/2CAgiK7