Para que SOFRER assim?

O artigo da semana passada trouxe-me muitas indagações e muitas novas abordagens, muito comuns nos momentos atuais. Em épocas de incertezas, a imprecisão e a divagação tomam espaços incomensuráveis e juntam-se às instabilidades de conjuntura e aos desmandos instituídos, levando os mais sensíveis a descaminhos ou escolhas equivocadas.

Tal sensibilidade é, mesmo, uma característica de pessoais mais predispostas a vulnerabilidades sociais, de modo a ser um facilitador para a instalação de um agravante qualquer que conduza às tais escolhas equivocadas. O equivoco não está na escolha, mas na interpretação desta: nada da certo, nada se concretiza, nada flui, nada finaliza…

Estas interpretações são responsáveis por um foco de pensamento viciado e preditor de insucesso, como se este fato fosse algo específico e exclusivo daquela pessoa. Como se dificuldades não fossem rotinas na Vida de centenas de milhares de indivíduos, mas que muitos conseguem analisar os fatos, isento de sentimento de perseguição, e após analisar cada detalhe, certifica-se que padece do mal da humanidade: dificuldades todos enfrentamos, dezenas ou centenas de vezes num só dia, dependendo de quanto nos expomos.

Claro está que aquele que mais se expõem mais tem chances de se deparar com altos riscos e muitos tormentos. Alguns destes problemas são plenamente contornáveis e outros demandam de mais articulação e mais investida, mas que não é uma característica da pessoa. Trata-se de detalhes específicos da situação em desenvolvimento.

Tal delírio persecutório é algo que altera todo o desenvolvimento cognitivo e afetivo do indivíduo, levando-o a adotar um tipo de vida bastante diferente (e estranho, até) daquele de seus colegas e amigos. Numa sociedade recheada de violência, nada mais comum do que ficarmos com insegurança de andar nas ruas. Afinal, precisamos ficar sempre atentos em qualquer local para que não sejamos pegos de surpresa.

Porém, existe um limite saudável para tal desconfiança. Quando a mania de perseguição se torna algo obsessivo, estamos diante do momento de procurar a ajuda de um especialista em saúde mental, para no mínimo nos organizarmos e tentar analisar melhor as questões vivenciadas e buscar rumos que favoreçam uma vida agradável e prazerosa, sem emergir na filosofia da felicidade”, algo tão em moda e tão irreal. A intensidade da mania de perseguição pode variar muito de pessoa para pessoa, mas os sintomas são muito próximos: suor, tremor e um medo incontrolável, sendo necessário prestar atenção em cada um dos detalhes.

Precisamos ter claro que a mania de perseguição consiste em um sintoma recorrente em diversos problemas psicológicos ou distúrbios emocionais, portanto uma investigação profunda pode apontar para o que pode levar a pessoa a sofrer com estas sensações, em seu dia a dia. Entretanto, quando a ideia de perseguição ultrapassa limites saudáveis, comprometendo o comportamento da pessoa e trazendo um sofrimento psíquico grande demais, é necessário a busca de profissional da saúde mental com urgência.

Vale ressaltar que além do comportamento persecutório, o indivíduo também pode apresentar alucinações, visuais ou auditivas (nem sempre ocorre, mas…); na verdade, neste processo, acredita-se que todos estão prestando atenção em suas ações e o reprovam. Parece que o Mundo se reuniu para questionar o comportamento do indivíduo, que se sente acuado e envergonhado.

Em sua grande maioria tem uma baixa autoestima e não tem autoconfiança, visto a vergonha e o medo de se apresentar em público e de ampliar os vínculos afetivos. O isolamento e a fuga são sinalizadores de que algo não anda bem. É importante ressaltar que todos nós temos uma ideia de como o outro nos percebe, porém quem tem mania de perseguição faz uma percepção distorcida e leva tudo para o lado pessoal, de modo a se sentir alvo de uma conspiração contra tudo o que lhe diz respeito.

Os pensamentos recorrentes são da seguinte ordem: se as coisas não estão dando certo é porque não gostam dele, tem inveja dele, perseguem-no, ou seja a culpa esta sempre no outro e não em si. Ele é sempre inferiorizado e diminuído por todos de seu grupo. Nada que faz dá certo nem consegue desenvolver nenhum projeto, por ser sempre excluído.

Casos são relatados na literatura clínica de pessoas que sentem tal intensidade de exclusão durante todo um período, enquanto outros só o sentem em situações específicas, e se mortificam e sofrem com profundidade. Assim, a análise do contexto é uma grande ferramenta para o profissional da saúde mental, na tentativa de melhora da qualidade de vida desta pessoa. Deve ficar claro que acontecimentos traumáticos e de grau de dificuldade maior demandam melhor análise e forma de enfrentamento, mas tais ocorrências não são intermitentes nem eternos, salvo melhor juízo.

Geralmente a pessoa não percebe que apresenta tal distúrbio, ainda que seu medo de errar e de se expor seja alto, em especial por temer a possibilidade de escolher o trajeto errado ou em dar em insucesso a sua investida. Lógica está que se isso acontecer, foi mais uma sabotagem ou outra traição de pessoas de seu meio, que não permitem seu sucesso (em seu ponto de vista).

Pessoas com uma infância marcada por muita agressão ou por situações de desamparo e impotência que não conseguiram desenvolver a resiliência, crescem e permanecem sentindo que não serão capazes de mudar sua história: não percebem possibilidades de algo novo ou de deter os ataques dos quais se sentem vítimas.

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Assim, de modo geral, podemos dizer que mania de perseguição é a sensação que o indivíduo tem de que está sendo perseguido, monitorado, investigado, boicotado, observado ou ameaçado por outras pessoas. Não tem paz e tem uma sensação constante de insegurança, ouvindo vozes de ameaças ou de alguém que relata a perseguição do demais contra ele. Na verdade, e infelizmente, é algo bem comum nos dias de hoje principalmente com os recursos das redes sociais.

As pessoas acreditam que a exposição das redes sociais destruirão seus objetivos e seus conhecimentos, fazendo com que muitos até se limitem a não ter essas ferramentas, por entenderem que a exposição será o preditor para a perseguição. O pensamento gerando o caos e a emoção descontrolando tudo o que puder descontrolar. Conhece alguém assim? Já se viu diante de quadros destes? Saia do desconforto, zele por sua saúde mental. (Foto: sejavoceapessoacerta.com)


AFONSO ANTÔNIO MACHADO

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduando em Psicologia, editor-chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.