TÁ BOM pra você? Ou ainda vai querer mais? Você é quem sabe…

Bom dia pessoas simpáticas que leem meus ensaios. Às antipáticas, também, dirijo-me em cumprimento, porque se são mal-humoradas é uma pena e não posso ajudar nisso: cada um escolhe os óculos através dos quais verá o seu Mundo.  E os meus óculos estão bem calibrados, apesar dos momentos difíceis que estou enfrentando e dos quais não quero me esquivar. Tá bom pra você ou quer mais? Você é quem sabe…

E assim seguimos. Numa semana para lá de difícil e complexa. Estou começando a achar que Deus está meio estranhado com o Brasil. Antes se contava, em piada, que aqui não tinha tsunami, não tinha vulcão, mas que Deus havia escolhido um povinho para povoar o pedaço; entretanto agora, o que mais temos são acidentes naturais e crimes organizados que destroem com intensa propriedade.


A dessensibilização que fizeram por Brumadinho, com o excesso de reportagens versando sobre mais do mesmo fez com que perdêssemos o poder (ou seria o dom?) de sentir a dor alheia. Isso se passa diante de toda e qualquer acidente, em que se repete a exaustão a mesma informação. Além de idiotizar o receptor da notícia, faz com que a dor seja deslocada, transferida, chegando a cansar e a não causar indignação, quando se houve a repetição, sem nada a acrescentar.

Foi o que fizeram: repórteres pouco instruídos e pouco perspicazes repetiram centenas de vezes, num mesmo dia, e já se passam mais de 10 dias, as mesmas notas de reportagem. Se não bastasse a repetição, de dados pouco significativo, diante do extremo horror que foi o crime ocorrido (porque não foi acidente, vamos combinar) que, cansativamente, preferia-se não receber a noticia a ter que ouvir tudo novamente.

Quando se diz: vamos ilustrar ou para melhor compreender, não é preciso repetir todos os dados como se fosse a primeira vez da notícia. Fiz este comentário, numa das crônicas em que comentei sobre o “maníaco do parque”, em que o repórter perguntava sobre a cor da roupa das vitimas, o horário do ataque, os requintes do ataque. Segundo a “Psicologia da Propaganda”, de Cavenacci, estas repetições emburrecem o receptor e passam a atuar contra o valor da informação. Vejam bem, são estudos de Cavenacci e poderíamos dizer que são peças incontestáveis, academicamente.

Mas afinal: o que fizeram por Brumadinho? Não vi nenhuma camiseta “Somos todos Brumadinho”, ou algo mais sofisticado “Je suis Brumadinho”. Nem vi os cantores da MPB, que tanto foram beneficiados pela Lei Roannet, apresentarem propostas de shows ou saraus ou luaus ou escambau que coletasse dinheiro para refazer a vida dos milhares de infelizes que perderam suas casas e seus pertences naquele espaço  geográfico determinado para ser extinto horrorosamente, como foi.

E mais uma vez tive que ler a infeliz frase: o brasileiro prova que é bom sendo solidário. O brasileiro tem que ser é mais inteligente cobrando do governo e destes assassinos a solução para tamanhos desmandos. E chega.


Daí, a mãe-natureza resolve acordar no meio da noite para mostrar que é forte e rigorosa. E dá-lhe água, Rio de Janeiro. No entanto, no trajeto da água, que descia terreno abaixo (desculpe-me o reforço literário: ‘descer abaixo’) havia uma árvore enorme, que ambientalistas não permitiram que fosse cortada, porque seria uma agressão à natureza.

Essa abençoada árvore é arrastada e cai sobre um ônibus, ocupado por duas pessoas, que  falecem presos na ferragem. Agora a discussão fica por conta da árvore, do volume de água, das casas nas encostas e das pessoas insensíveis, que preservam a natureza e esquecem de preservar o homem. Ou a leitura é outra?

O governador vem dar explicações sobre a ciclovia que, mais uma vez, se esfarela, com a diferença que desta vez o acidente foi na direção costa-mar. Vezes anteriores foi mar-costa, com o impacto de grandes e fortes marolas, que atacavam a orla; desta vez foi com a força da enxurrada que desceu e destroçou a ciclovia. Será que cabe culpa a ele, também? Será mesmo?

Sorte que ainda não resolveram questionar porque Deus fez chover tanto num único lugar; se o fizessem, talvez ainda não tivessem, porque me parece que Deus está tremendamente ocupado estes dias, diante de tantas insanidades que está presenciando. Deve ser difícil ser Deus.


E hoje acordamos a pavorosa notícia do incêndio no Flamengo. Pior que o incêndio, só mesmo a morte dos dez jovens que tiveram a vida levada pelas labaredas, numa situação inexplicável e fatídica. Dirigentes, autoridades, atletas, sobreviventes, familiares, atletas internacionais, autoridades internacionais, todos apontam seus votos de solidariedade diante o ocorrido.

O que dizer? O que pensar? Como manter a tranquilidade se a sociedade está correndo da água e do fogo e não sabe para qual lado correr? O que mais indigna nestas situações é: como resgatar as vidas que se foram? Agora aparecem planos mirabolantes, propostas impecáveis, soluções mágicas, mas não se resolve uma realidade: e as vidas que se foram?

Como a vida, quando os sujeitos são anônimos e invisíveis tem pouco valor!!! Quem era o seo João, que apertava a válvula da barragem? Quem era a ocupante do ônibus que ficou embaixo da árvore? Quem era o garoto que dormia no alojamento do clube? A quantos estes vão fazer falta? A quantos estes emitirão mensagens de atenção e cuidado com o próximo, diante de suas fatalidades?

Quem se debruçará sobre estes mortos? Quem acalentará a dor e o pranto das famílias? Quem terá palavras verdadeiras sobre o sacrifício a que foram submetidos? Ou os anônimos, os invisíveis não precisam disso, porque são apenas mais um dentre tantos?

Eu penso que o maior acidente que possa estar acontecendo em nosso pobre país rico é que estamos demasiadamente insensíveis com a dor alheia. O fato de havermos passado muitos anos olhando para nosso próprio umbigo, tirou-nos a possibilidade de percebermos o outro, ao nosso lado. Petrificamos. Gelamos. Endurecemos.

E nada, a não ser nossa própria dor, faz sentido em nossa vida. Porém, essa insensibilidade não é coisa da modernidade, nem dos meios de comunicação, nem das velocidades da Vida no século XXI; essa frieza é coisa de nosso caráter. E salve Macunaíma.


Uma nota para rir, já que não adiante chorar: Infecção por dengue pode proteger contra zica, diz estudo. Acredito que logo acontecerá um mutirão para criar o mosquito da dengue, para nos proteger da zica. Isso porque os setores oficiais de controle e de erradicação das moléstias não conseguem controlar nem erradicar mais nada. E fica lógico que agora se culpe o povo que descuidou dos criadouros e não da vigilância sanitária que dormiu e ultrajou nosso dinheiro destinado à Saúde Pública. É possível dormir com um barulho destes?


No dia 7 fui ao Santander pagar uns boletos. E enquanto esperava ouvia uma conversa de dois doutores médicos, sobre a resolução do atendimento via Internet. E, claro, ambos estavam indignados com a decisão e autorização concedida.

No diálogo, se eu não estivesse ouvindo e vendo, juro que pensaria ser um sonho e que eu estava diante de Hipócrates, pai da Medicina, que monologava expondo seus pontos de vista. Totalmente contrários a tais procedimentos e elaborando um discurso de procedimentos que não ocorrerão pela Internet.

Mas eu estava ali, sim. Vivinho. Lúcido. Ouvindo a verborreia. Mas sou obrigado a dizer: não sou tão corajoso como penso, pois tinha uma só pergunta a fazer aos dois doutores: vocês olham para seus pacientes, quando eles entram em suas salas? Ou ainda: vocês se dignam a por as mãos em seus pacientes ou vocês só ouvem, pegam os laudos dos exames de imagens e emitem uma receita?

Claro que isso não é generalizado. Claro que temos excelentes médicos, que ainda não são doutores, que olham seus pacientes, percebem que eles são humanos e não humanoides, que tocam neles para examiná-los e que até usam dos laudos para confirmar seus pareceres. Claro que existem médicos que se preocupam com aqueles que os procuram, que até telefonam para os pacientes para saber do andamento do tratamento. Eu conheço vários destes.

Mas… infelizmente, as vezes, o atendimento pela Internet pode ser até mais humanizado. #FICAADICA.


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Deus! ó Deus!

Onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes,

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

Feliz este Castro Alves, não acham?


 

AFONSO ANTÔNIO MACHADO

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduando em Psicologia, editor-chefe do Brazilian Journal of Sport

 

 


 

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