Vivências de SÚPLICAS

Vivências de súplicas que machucam, são as do menino. Quando foi concebido, o pai murmurou suas dúvidas. Ou ele ou não? A mãe, sob protesto, acertou o DNA. Era dele. Ficou, no entanto, um clima desagradável. A incerteza se consolidou, de certa forma, na ausência de carinho. A amargura dos questionamentos, na época de sementinha de bebê, impôs distância entre pai e filho. O garoto, enquanto crescia, alinhava conquistas para agradar o pai. Braços estendidos para colo, choro nos tombos não acudidos, bom desempenho na escola, gentileza com as pessoas, disponibilidade sempre para ajudar em casa. Uma graça de criança! Uma desgraça ao olhar paterno.

Adolescente, cresceu em força e inteligência. Foi quando o pai se deteve para enxergá-lo. Continuou a não o ver como filho, mas sim como parceiro. Perto da periferia, em que residem, próximo à praia de luxo, existe um espaço com possibilidade de furtos. Ao anoitecer, o jovenzinho escuta o assobio do pai árido e de ressaca e, ainda com a mochila escolar, vai com ele ao exercício do ilícito.

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O menino que sonhava ouvir sussurros de ternura e conselhos do pai, ouve orientações sobre como roubar e sair sorrateiramente, com o propósito de não atrair a atenção dos que passam.

O menino, que sonhava com um olhar de aconchego paterno, hoje o avista de olhos com seta na direção do ilícito e em seguida para se revestir de sombra na fuga.

O menino que sonhava um abraço do pai, hoje divide com ele os braços para carregar o que for mais pesado.

Não se sabe em que dará isso. Sem dúvida, embora hoje atraia a atenção do pai, caminha de coração em chagas. Se não desistir dessa proximidade, com certeza, antes do tempo, derramará a última gota de sangue.


MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE

Com formação em Letras, professora, escreve crônicas, há 40 anos, em diversos meios de comunicação de Jundiaí e, também, em Portugal. Atua junto a populações em situação de risco.