15, dezembro , 2018
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Grandes prefeitos: WALMOR, o ex que aprendeu também com Maquiavel

No dia 7 de setembro de 1992, durante o desfile da Independência que na época era realizado na avenida Nove de Julho, o então prefeito Walmor Barbosa Martins estava no palanque e observava um grande grupo que vestia camisetas e carregava faixas de André Benassi, candidato à Prefeitura pelo PSDB. Apontando para a multidão, Walmor passou a mão no bigode que ostentou por anos (e era uma espécie de marca registrada dele) e disse para um repórter que estava próximo: “está vendo isto? Este aí (Benassi) vai ganhar as eleições e ficará no poder 20 anos”. Benassi não ficou duas décadas na Prefeitura. E nem poderia. Mas o grupo dele sim. Isto comprova a visão estratégica e conhecimento da política local que Walmor tinha e tem. Aos 86 anos, mineiro de Guaranésia, Minas Gerais, o ex-prefeito, continua antenado em tudo o que acontece em Jundiaí. E embora negue, incorporou pelo menos uma das características de um dos livros de cabeceira que leu até perder as contas: O Príncipe, de Maquiavel. O ex-prefeito esbanja ‘ironia sutil’. Basta 10 minutos de conversa para perceber a rapidez do raciocínio que transforma quase tudo em fino deboche.

Quando perguntado sobre este aspecto, Walmor nega. “Eu não! Eu era é muito bravo na Prefeitura”, lembra. Mas antes de ser prefeito, ele foi vereador suplente nos anos de 1958 e 1959. Depois, elegeu-se por dois mandatos, ficando na Câmara praticamente toda a década de 60. Daí decidiu concorrer à Prefeitura de Jundiaí. Ganhou em 1968 e assumiu no ano seguinte. Ficou no cargo até 1972. Depois, voltou ao Paço – de 1989 a 1992 – sem ter planejado.

A Câmara – No Legislativo, Walmor Barbosa Martins tinha a companhia de Tarcísio Germano de Lemos. Os dois são advogados e tinham estudado juntos. “As professoras sofriam com a gente. Mas nós tirávamos as melhores notas da classe”, recorda. Eram outros tempos. E o nível de discussões na Câmara era elevadíssimo. Os vereadores travavam debates em francês e até em latim. Walmor era um deles. “Vários dos vereadores que ali estavam eram latinistas incríveis”, diz.

O então vereador decidiu que iria concorrer à Prefeitura. “Eu e o Tarcísio saíamos de madrugada com cartazes que ele bolava. Pegávamos o trem e íamos conversando com os trabalhadores”, conta. Walmor foi eleito em novembro. No mês seguinte, o governo militar baixou o Ato Institucional número 5 – o AI 5 –, considerado o mais duro golpe na democracia e que deu poderes quase absolutos aos generais. Apesar disto, ele assegura que os militares nunca interferiram na administração de Jundiaí. Abaixo, Walmor durante a campanha, no Parque da Uva e usando um telefone público.

A Prefeitura – Uma das ruas do centro de Jundiaí deve ser a que mais concentra ex-prefeitos por metro quadrado em todo o Brasil. De um lado, num edifício, mora Íbis Cruz, cuja reportagem foi publicada no final de semana passada. Do outro lado, defronte ao prédio, vive Walmor. Apesar de se encontrarem praticamente todos os dias, cada um defende o que considera ser obra de sua gestão. Íbis disse que é o responsável por Jundiaí ter água atualmente. Walmor Barbosa Martins afirma que a benfeitoria é responsabilidade de sua administração. “Ninguém tem ideia do que nós fizemos. Puxamos água do rio Atibaia, em Itatiba”.

 

 

Walmor, o bigode e o então governador André Franco Montoro

 

 

 

Segundo mandato: durante discurso acompanhado atentamente por autoridades e pela mãe, dona Alvarina(à direita)

A existência da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ) e da Escola Superior de Educação Física (ESEF), Walmor também credita à sua intervenção. No caso da primeira, a Câmara queria – segundo ele – extingui-la para criar uma outra, de Engenharia Ferroviária. “Naquela época, Jundiaí era cortada por várias ferrovias. O dr. Jayme Rodrigues, que era diretor da Beneficência Portuguesa e do Hospital Sorocabanos, conversou comigo e eu pedi para que ele assumisse a FMJ. Com o apoio dele, que doava todo o salário para bolsas de estudo, a ideia de fechar a faculdade foi enterrada. Também estive em São Paulo para trazer mais uma faculdade para Jundiaí e fui informado pela Secretaria de Educação que a cidade poderia ter uma de Educação Física que funciona até hoje”, explica. Outra coisa que ele se orgulha: corte de impostos. “Eu fui o único prefeito de Jundiaí que acabou com quatro taxas injustas de uma vez: bombeiro, iluminação pública, segurança e coleta de lixo. Se o município não prestava estes serviços, como poderia cobrar dos cidadãos?”, pergunta.

O segundo mandato veio – por ironia – através de André Benassi, que administrou Jundiaí de 1983 a 1988. “Ele queria fechar a Faculdade de Medicina. Eu me encontrei com o Pedro Fávaro (professor, ex-prefeito já falecido) e decidimos que teríamos de falar com o prefeito para demovê-lo desta ideia. Na saída da Prefeitura viram nós dois e começaram a gritar que seríamos candidatos juntos. Eu não tinha pensado nisto. E nem queria voltar a ser prefeito. Eu estava trabalhando como advogado. Mas a proposta foi ganhando corpo”, lembra. Walmor voltou à Prefeitura para comandar Jundiaí até 1992 tendo Pedro Fávaro como seu vice.

Ele nunca se interessou em ser deputado. Talvez por não ter perfil para esta função que é, na prática, pedir ao Governo do Estado. Walmor acredita que se a reeleição existisse na época em que foi prefeito, não teria deixado o Paço antes de completar oito anos.

 

Na foto ao lado, Walmor Barbosa Martins em visita à Câmara de Jundiaí juntamente com o advogado Tarcísio Germano de Lemos

 

 

 

Hoje – Por mais estranho que pareça, de uma lista formada pelos ex-prefeitos Benassi, Miguel Haddad, Ary Fossen e Pedro Bigardi, Walmor Barbosa Martins aponta o antigo adversário como o melhor de todos. “Ele é um fenômeno político. E destes citados, foi o que mais fez para a cidade. Discuti várias vezes com ele. Mas não se pode tirar os méritos de alguém só porque foi seu rival político”, justifica.

Sobre a administração Luiz Fernando Machado, o ex-prefeito afirma que é preciso dar tempo ao tempo. “Uma coisa é certa: ele tem o homem certo na secretaria certa. O Parimoschi (José Antônio Parimoschi, gestor de Governo e Finanças) é muito competente e sabe o que faz”, diz.

Voltando ao Príncipe, de Maquiavel, no último mandato corria a lenda – principalmente entre os jornalistas – de que Walmor lia este livro e o seguia à risca. Por isto ele seria ‘maquiavélico’. O ex-político confirma que teve este livro na cabeceira por muito tempo. “Maquiavel é extraordinário. Ele fez um retrato exato do homem da época em que foi escrito e que, na verdade, não mudou muito. Era o homem preocupado com o ‘eu’. Maquiavel o explicou através da razão. Era um pensamento muito avançado para a época e essa expressão ‘maquiavélico’ passou a ser usada indevidamente. E aproveita para dar uma alfinetada no brasileiro de forma geral: “Este é o país do ‘me dá’. As pessoas só pedem. Ninguém pergunta o que pode ser feito para melhorar o Brasil”. No vídeo acima, feito no ano passado, Walmor fala sobre a situação política do país. Na foto ao lado, ele e a esposa, dona Eleninha(João Carlos Lopes)

Daqui a 100 anos, quando tudo não passar de história, Walmor Barbosa Martins gostaria de ser lembrado como “o prefeito que teve a felicidade de trabalhar com uma equipe de alto nível, a melhor que já administrou Jundiaí”. Nada maquiavélico da parte dele…(Foto principal: João Carlos Lopes)

 

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