YESHUA Mazziero Trambinni

YESHUA

Yeshua Mazziero Trabinni é um típico filho do nosso tempo. Sua infância peculiar, seus estudos de cinema, fotografia e guitarra e, em um dado momento sua guinada para as religiões e todas as formas de ocultismo, sempre exerceram fascínio e repulsa das pessoas com quem conviveu. Para uns Yeshua é um intelectual intenso, mas há quem o considere diletante e mero oportunista. Alguns acontecimentos da vida de nosso herói merecem destaque.

Ele separou-se da mulher
porque notou que as formas dela se alteram pouco a pouco:
Mas as formas dele também se alteram pouco a pouco.

Murilo Mendes

O baque que dividiu a vida do jovem Yeshua Trabinni foi o momento em que a Morte encurralou Antonius Block, o místico cavaleiro cruzado. A passagem desolada dum filme, feito em praias rochosas nos confins da Suécia, três décadas antes da mãe de Yeshua nascer, vidraria a mente do garoto. Algo magnético, algo que nunca tinha visto. Um mistério enfim era só seu. Até então o guri gostava de desenhos, preferia Felix the Cat aos animes ultracoloridos da Toei Animation. Possuía tevê a cabo no quarto desde os sete anos e aprendera inglês na solidão com seus videogames.

Aos 13 já sondava a existência de pornôs antigos que viu de fianco na casa dos primos mais velhos.Tardes da gangue dos roqueiros da roleta da bronha: moleques que se reuniam para ouvir heavy metal e arranharem violões desafinados, uma vez por semana, quando matavam aula. Quem vomitar primeiro o goró já sabe: perde e toma cuecão sem chorar – esse era o acordo tácito.

Os primos eram desarticulados rebeldes, com algumas espinhas no rosto. O mais velho, Vicente, reprovou duas séries no ensino médio, fora gago. Juliano, que jamais amarrou bombinhas nos rabos de cães e gatos, queria ser poeta, tinha dreadlocks e ‘Bob-Marley-alemão’ era então seu apelido.
Por uns dias Yeshua fuçava o quartinho do fundo e encontrou VHS embolorados do pai, depois trouxe à vida o videocassete aposentado. A fita iniciou num chiado, interferência por falta de uso, mas logo apareceram nítidas duas figuras num jogo de xadrez. O jovem não sentiu falta das cores.

A fita engasgou. Conseguiu ver o filme quase todo depois de desligar o aparelho por duas vezes e religá-lo na terceira. Sucesso. Conhecia ainda as manhas das fitas de vídeo.Entre seus amigos ninguém, que não ele, sequer cogitava conhecimentos sobre DVD portátil, Yeshua tinha colegas pobres. (A vida é saber desde criança quem está na rabeira ou na dianteira dos privilégios, mesmo sem que sejam mencionadas as lutas de classes).

No ano seguinte Yeshua foi cursar cinema e Suzanna destingiu os cabelos sete dias antes de iniciar o emprego em um telemarketing, um galpão onde as melhores atendentes faziam turnos dobrados e, caso atingissem metas, ganhavam, muito contra feitas, palmadinhas nas bundas dadas pelos supervisores escrotos. As menos atraentes receberiam murchos bombons. Suzanna era e é atraente, mas jamais sofrera o assédio.

Quilômetros de tempo-espaço separariam o casal daí em diante. Ele aprendeu francês e mergulhou em todos os filmes de Glauber Rocha. Suzanna devorava atlas. Prestes a dormir ela sempre percorria, com as unhas de esmalte comum, linhas imaginárias de sinuosos caminhos, que jamais iria conhecer: lugares como New Orleans, Tegucigalpa, Paris ou Liverpool – adormecia depois de pensar-se geóloga, sendo recebida pela deusa eclética Björk numa impalpável alameda em Reykjavík.

Em cartas com a mesma data de 3 de março de 2006 juravam que manteriam a troca de correspondências apesar da comodidade da internet e de agora serem apenas conhecidos. Suzanna foi demitida em maio, com as economias pagou as duas últimas parcelas do curso técnico de enfermagem. Yeshua embarcou para o Marrocos num intercâmbio difuso.

Há quem acredite nas santidades dos papas, na verdade dos relatos de viajantes durante as invasões europeias ao novo continente, no terrorismo puritano dos Estados Unidos em busca de petróleo e até há quem creia nas palestras de coaching emocional. Yeshua por sua vez passou a crer no poliamor, essa transmutação ocorreria alguns anos depois do término com Suzanna. Ele sentiu que sobre a Terra nada seria casual, mesmo que o ato pudesse ser. Yeshua acreditava em certo tipo de mensagens telepáticas.

Pessoas que haviam se amado podiam dialogar mentalmente ou que certos diálogos já vividos poderiam retornar de forma inesperada à mente. Nesse eterno retorno dos diálogos tudo poderia ganhar novos rumos, qualquer frase poderia ser recolocada. Qualquer expressão infeliz ou mágoa por conta de miudezas dum relacionamento poderiam ser desviadas.

Muitas vezes Yeshua viu-se num desses seus diálogos telepáticos. No mais significativo deles, numa conversa que voltava sempre, ele dizia aflito para Suzanna que, apesar da distância e dos erros, não queria terminar.

– Yeshua, mesmo sob o mesmo teto, toda distância será necessária – respondia a Suzanna do diálogo telepático.

Todas as justificativas e aflições dele se alteravam, assumiam outro ponto de vista e buscava de alguma forma reconsiderar o relacionamento. Mas Suzanna era a mesma e dizia:

– Yeshua, mesmo sob o mesmo teto, toda distância será necessária.

Eram os pequenos fantasmas do seu passado recente.

Com essas mesmas conversas em sua mente ouvia a saudade ecoar, mas uma saudade austera, implacável que reafirmava que mesmo sob o mesmo teto, toda distância será necessária.

E assim Yeshua deixaria o povoado de Traschinampur, vizinho da cidade de Thanjavur, onde esteve por cinco dias a pão e água somente para contemplar com seus pobres olhos ocidentais a gopura e o Templo de Brihadeeswarar sombreado pela gopura.

A gopura de granito no Templo de Brihadeeswarar, em Thanjavur. Foi concluída em 1010 D.C. por Raja RajaChola I. A imagem teria sido fotografada por Yeshua M. Trabinni(https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndia)?

Acabara de passar dos 30 anos e teve o privilégio de viajar à Índia numa longa excursão para sites desinteressantes de viagem que não incluíam os direitos das imagens – abandonara os enredos de curtas-metragens que davam pouco dinheiro e lançou-se como fotógrafo alternativo, ou mero arrivista. Dias antes de partir já tinha leituras estratégicas, mas aproveitou o longo voo para ler versões acessíveis e traduzidas para o inglês de trechos do Rigveda (amou a segunda Mandala). Suas intensões eram fotografar as belezas do país para o catálogo, mas, por outro lado, guardar os retratos mais majestosos para fazer um livro todo seu onde iria reinterpretar, de maneira não superficial, a feminilidade do Kama Sutra.

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Jamais passaria pela mente de Yeshua roubar lascas de granito da edificação de Brihadeeswarar para dá-las a Suzanna num provável reencontro mais de uma década depois; jamais passaria pela mente de Yeshua que, após tantas peregrinações, viagens e intercâmbios, ele voltaria à sua cidadezinha e passaria alguns meses desempregado até encontrar trabalhos eventuais como fotógrafo de casamento e festas modorrentas de crianças modorrentas; e jamais passaria pela mente de Yeshua, por Ganesha! Jamais passaria, a compreensão plena dos sentidos de Sansara e o fato de que nos sonhos dos seus sonhos e na realidade evocada dos seus sonhos os momentos não passavam de dor para seus pés esgotados.
Assim é o xadrez de vida e morte.

Suzanna é enfermeira geral no segundo maior hospital público da cidade. Já teve um aborto espontâneo dum filho que esperava do homem que amaria em segredo por toda vida e, anos atrás, conheceu certa clínica clandestina por causa de uma transa com resultados indesejados numa noite casual. (Foto principal: Bengt Ekerot e Max von Sydow representam a Morte e um Cavaleiro Cruzado, cena do filme ‘O sétimo Selo’, de Ingmar Bergman)

HILDON VITAL DE MELO

‘Jundialmente’ conhecido. Escritor e pesquisador à deriva, mas professor de filosofia, por motivos de sobrevivência.
E-mail: vitaldemelo@yahoo.com.br – Instagram: @camaleao_albino

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