ACOLHIMENTO, cumplicidade e amizade: Perspectivas críticas

acolhimento

A experiência humana é marcada por vínculos que transcendem a mera convivência social. Entre eles, o acolhimento, a cumplicidade e a amizade ocupam lugar privilegiado, configurando-se como dimensões fundamentais para a constituição da subjetividade, para a manutenção da saúde mental e para a construção de sociedades mais humanas. Se, em contextos tradicionais, tais conceitos estavam circunscritos a laços comunitários e familiares, no mundo contemporâneo ganham novas expressões e desafios, diante de transformações tecnológicas, da fluidez das relações e das crescentes tensões sociais.

O acolhimento, enquanto gesto que legitima a presença do outro, não pode ser reduzido à ideia de mera recepção ou hospitalidade. Trata-se de um ato ético e político que reconhece a vulnerabilidade humana e se propõe a oferecer espaço de escuta, de empatia e de cuidado. Em tempos de crise emocional e de doenças psíquicas cada vez mais frequentes, o acolhimento adquire dimensão terapêutica, mas também social.

No entanto, o contexto contemporâneo, marcado por aceleração produtiva, imediatismo e relações cada vez mais mediadas por tecnologias, coloca em xeque a efetividade desse gesto. Críticos da modernidade líquida, como Zygmunt Bauman, já alertavam para a fragilidade das relações interpessoais, que se tornam descartáveis diante da lógica do consumo e do utilitarismo.

Nesse cenário, o acolhimento corre o risco de ser instrumentalizado: transformado em estratégia de marketing corporativo ou em discurso vazio de instituições. Assim, questiona-se: como garantir acolhimento autêntico em uma sociedade que valoriza mais a performance do que a presença? A resposta passa por um reposicionamento ético: acolher não é tolerar, mas incluir; não é apenas ouvir, mas reconhecer; não é somente apoiar, mas compartilhar.

Se o acolhimento abre as portas para o encontro, a cumplicidade aprofunda esse vínculo, instaurando uma relação de confiança e partilha. A cumplicidade é mais que afinidade: é o pacto silencioso que permite ao outro ser quem é, sem máscaras, no território protegido da intimidade. Ela sustenta amizades, amores e parcerias profissionais duradouras, pois se funda no respeito mútuo e no reconhecimento da singularidade do outro.

Contudo, a cumplicidade também comporta ambiguidades. Quando mal orientada, pode se converter em conivência, em pacto de silêncio diante de injustiças ou em aliança excludente que fortalece grupos fechados e hostis. Assim, torna-se necessário refletir criticamente sobre o alcance e os limites da cumplicidade. No contexto social atual, em que a polarização política e ideológica divide famílias, comunidades e nações, a cumplicidade corre o risco de ser apropriada como ferramenta de separação: “somos cúmplices porque excluímos quem não pensa como nós”.

Essa instrumentalização distorce sua essência e exige uma releitura ética: a verdadeira cumplicidade deve se orientar pela busca do bem comum, pelo respeito às diferenças e pela construção de pontes, não de muros. A amizade, talvez mais que os outros dois conceitos, revela sua potência transformadora ao longo da história. Desde a filosofia clássica, com Aristóteles e Cícero, a amizade é entendida como um bem maior, capaz de garantir coesão social e fortalecer virtudes.

Em tempos atuais, ela se ressignifica, ao mesmo tempo em que se fragiliza. As redes sociais digitais, por exemplo, multiplicam “amigos” em números, mas esvaziam o sentido profundo da amizade, que requer tempo, dedicação e presença real. Surge, então, uma contradição: nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, nunca nos sentimos tão sós. Essa crise da amizade também é reflexo do individualismo exacerbado e da mercantilização das relações. Muitos vínculos são mantidos enquanto oferecem utilidade ou prazer imediato; quando o esforço, a paciência ou o cuidado são exigidos, a amizade se dissolve.

Esse fenômeno não significa, contudo, a morte da amizade, mas aponta para sua reinvenção. Em meio às adversidades contemporâneas, a amizade ressurge como resistência, como espaço de autenticidade em meio a relações superficiais. É nesse sentido que ela se apresenta como valor civilizatório: um antídoto contra a solidão, um caminho para a solidariedade e uma oportunidade para resgatar o humano diante da desumanização. Embora distintos, acolhimento, cumplicidade e amizade formam uma tríade relacional que sustenta a experiência humana e oferece pistas para uma vida mais plena.

O acolhimento inaugura o encontro, a cumplicidade aprofunda o vínculo e a amizade garante sua permanência e transcendência. Pensar criticamente essa tríade no século XXI é reconhecer sua fragilidade diante de sistemas que estimulam competição, isolamento e performance, mas também é enxergar sua potência como alternativa contra-hegemônica.

No campo da psicologia e da educação, esses elementos têm ganhado destaque como fatores de proteção contra o adoecimento mental. Acolher é ato clínico e pedagógico; ser cúmplice é favorecer vínculos de confiança que sustentam processos de aprendizagem e cura; cultivar a amizade é reconhecer o outro como fim em si mesmo, não como meio. Dessa forma, a tríade relacional torna-se não apenas experiência subjetiva, mas também proposta ética e política para sociedades mais inclusivas e solidárias.

VEJA OUTROS ARTIGOS DO PROFESSOR AFONSO MACHADO

DOR, INVISIBILIDADE E SAÚDE MENTAL

CUMPLICIDADE

A VIDA QUE PERMANECE

O mundo contemporâneo, marcado por incertezas e transformações aceleradas, convoca-nos a repensar os modos de relação. O acolhimento, a cumplicidade e a amizade não podem ser vistos como práticas secundárias ou opcionais, mas como fundamentos indispensáveis para a vida individual e coletiva. Sua ausência gera isolamento, sofrimento e violência simbólica; sua presença, ao contrário, fortalece a resiliência, a empatia e a solidariedade.

O desafio que se coloca é cultivar esses valores em meio a estruturas que os fragilizam, garantindo que não sejam reduzidos a discursos formais ou a simulacros superficiais. Crítica e atualidade se encontram aqui: a necessidade de resgatar a densidade do humano em tempos de superficialidade. É neste resgate que a tríade relacional — acolhimento, cumplicidade e amizade — revela-se como um dos maiores patrimônios da experiência humana e uma das maiores urgências da contemporaneidade.(Foto: Liza Summer/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona, ainda, na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

VEJA TAMBÉM

PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES