Bispo: “Escândalo é excluir e marginalizar os irmãos LGBT+”

bispo

Dom Arnaldo Carvalheiro Neto foi nomeado bispo referencial para acompanhamento pastoral da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+. Ele é bispo diocesano de Jundiaí, será o primeiro a ocupar o cargo e ficará nele até 2028. A nomeação da CNBB(Conferência Nacional dos Bispos) ocorreu no último dia 17. No mundo, só Alemanha e Bélgica contam até agora com bispos referenciais para grupos católicos LGBT+. Em postagem nas redes sociais, a Rede Nacional disse que “a nomeação é uma conquista, resultado do trabalho e dedicação pastoral de grupos que há uma década lutam pela dignidade da fé de cristãos leigos e leigas LGBT+ na igreja e na sociedade, aliado ao diálogo e à parceria com o Conselho Nacional do Laicato do Brasil. A nomeação de Dom Arnaldo reforça que a sinodalidade(caminhar juntos) acontece quando o povo de Deus está unido, discernindo novos caminhos de cuidado pastoral e presença evangelizadora”. A pluralidade sexual não é tema novo para o bispo de Jundiaí. Desde janeiro de 2023, ele participa dos encontros da Comunidade Diversidade e Fé da Diocese de Jundiaí(foto abaixo). O Jundiaí Agora conversou com Dom Arnaldo:

Como funciona a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+?

    Essa Rede é formada por grupos católicos de pessoas LGBT+ e aliadas, que buscam viver seu batismo na prática pastoral e comunitária da Igreja, comprometidas com os princípios e valores do Evangelho de Jesus Cristo em uma Igreja em saída (Evangelii Gaudium, 26), na construção do Reino de Deus. A Rede tem uma Coordenação Nacional e Coordenações Regionais (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), que congregam os diversos grupos, núcleos e coletivos espalhados por todo o Brasil.

    O trabalho com as minorias sociais não é uma novidade para o senhor, não é mesmo?

    Primeiramente, precisamos compreender o significado do termo “minorias sociais”: são grupos de pessoas que, na sociedade, enfrentam situações estruturais de desigualdade, vulnerabilidade e sub-representação devido a critérios como gênero, raça, orientação sexual, etnia ou deficiência, e não por serem uma minoria numérica. Cito como exemplo as mulheres vítimas da violência doméstica e dos feminicídios; os afrodescendentes; os indígenas; as pessoas LGBT+; as pessoas com deficiências. No tempo em que fui bispo na Diocese de Itapeva, realizei um trabalho pastoral com os catadores/as de materiais recicláveis; com os refugiados venezuelanos e com os indígenas. Quando cheguei na Diocese de Jundiaí, no ano de 2022, tive a oportunidade de conhecer a Comunidade Diversidade e Fé, um espaço de acolhida, oração, estudo e mútua ajuda de católicos LGBT+, bem como de pais de filhos/as homoafetivos. Somos chamados a ser uma “Igreja Samaritana”, atenta a quem está à margem do caminho. A missão da Igreja é difundir a Boa Nova de Jesus Cristo em vista da salvação de toda humanidade. Trata-se de um projeto plenamente inclusivo de Reino de Deus, vivenciado na partilha do dom do Amor Divino, para que todos tenham vida e vida em abundância.

    O senhor é o primeiro bispo referencial para a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+. Isto quer dizer que a Igreja está se abrindo para este tema?

    Veja, isso não é abertura: É Evangelho! De fato, tive a alegria de ser o primeiro bispo referencial desta Rede que existe há mais de 15 anos. A Rede está associada à CNLB – Comissão Nacional do Laicato do Brasil -, um organismo da CNBB para a articulação, organização e representação dos cristãos leigos e leigas da Igreja Católica no Brasil. O convite foi feito pessoalmente pelo secretário-geral da CNBB, Dom Ricardo Hoepers neste último mês de outubro. Aceitei-o de imediato.

    Como o senhor analisa a situação dos LGBT´s no Brasil, Dom Arnaldo?

    As pessoas LGBT+ compõem um grupo social que sofre de muito preconceito e discriminação que geram toda a sorte de violência. A homofobia mata! Não são poucos os homicídios perpetrados contra pessoas LGBT+, motivados pelos discursos de ódio e pelo fundamentalismo religioso. Todo discurso religioso que incita violência contra a pessoa humana, ferindo sua dignidade de filha de Deus é uma contradição ao Evangelho. O índice de suicídios entre os jovens LGBT+ é cinco vezes maior se comparado com os jovens heterossexuais. Infelizmente, a homofobia também está presente em nossas comunidades cristãs. Nunca me esqueço de um jovem homoafetivo que, após ter relatado a sua dolorosa experiência de discriminação dentro da sua comunidade de fé, concluiu: “a melhor coisa que aconteceu na minha vida, foi ter deixado a Igreja!”. Se para alguns, a presença dos nossos irmãos e irmãs LGBT+ na Igreja é motivo de escândalo, escândalo ainda maior é excluí-los e marginalizá-los.

    O senhor poderia nos deixar uma mensagem final?

    Faço minhas as palavras de São Paulo Apóstolo: “Com efeito, vós todos são filhos de Deus pela fé no Cristo Jesus. Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Já não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus!” (Gl 3,26-28). A unidade somente é possível com a paz, dom da nossa fé, que supera todo o entendimento. Como rezava o saudoso Dom Pedro Casaldáliga: Dá-nos a paz que se faz! (…) Ensina-nos a passar da tolerância ao amor; de sermos notas dispersas a sermos uma canção. (…) Dá-nos a paz que se faz! Dá-nos a paz que se dá!”. Deus nos ajude a nos unirmos no mesmo propósito de caminharmos juntos no Evangelho, para que a paz de Cristo, que habita ricamente no coração da Igreja e de todos os homens e mulheres de boa vontade, resplandeça no mundo como a luz do Sol que a todos ilumina e aquece. Cristo é a nossa Paz!

    VEJA TAMBÉM

    PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

    ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES