Toda manhã, antes mesmo de o café passar, um mundo inteiro já passou dentro da palma da minha mão, através das redes sociais. Notícias, opiniões, desabafos, vídeos cômicos, indignações coletivas, promessas de produtividade, receitas, tragédias e selfies com filtros diversos. Era como se o dia começasse acelerado, sem aviso, sem aquecimento. E lá estava eu, tentando acompanhar uma maratona que ninguém me pediu para correr.
É curioso como as redes sociais se tornaram, ao mesmo tempo, janela e espelho. Por elas, enxergamos o mundo e, de alguma maneira, nos enxergamos também — ainda que em versões recortadas, editadas, iluminadas artificialmente. É um mundo onde o entusiasmo aparece como fogos de artifício: rápido, alto, instantâneo; onde a esperança às vezes parece depender de quantos likes recebeu; e onde a serenidade é quase um luxo difícil de manter, como quem tenta segurar água com as mãos.
Mas, se olharmos com calma, talvez exista uma crônica escondida dentro desse turbilhão — uma história sobre como continuamos humanos mesmo quando o mundo inteiro cabe num feed interminável. O entusiasmo, por exemplo, anda sendo confundido. Antes, ele era aquele brilho espontâneo que surgia quando algo realmente nos tocava: um encontro inesperado, uma notícia boa, um projeto que nascia. Agora, tantas vezes ele parece fabricado, embalado para consumo. Somos estimulados a demonstrar empolgação mesmo quando estamos apenas tentando sobreviver ao dia. “Mostre entusiasmo!”, dizem as legendas motivacionais, como se a vida precisasse de coreografia.
Mas, ainda assim, o entusiasmo verdadeiro resiste. Ele aparece escondido em pequenos detalhes que passam despercebidos pelos algoritmos. Surge naquela conversa despretensiosa por mensagem que termina com um “poxa, precisava ouvir isso hoje”; surge quando encontramos um vídeo que reacende nossa vontade de aprender alguma coisa nova; surge quando alguém compartilha uma conquista simples e, por um instante, lembramos que a vida real se move aos poucos, não em virais. Há algo bonito em perceber que, apesar do espetáculo constante, o entusiasmo genuíno ainda prefere a discrição.
A esperança, por sua vez, virou visitante tímida nesse ambiente barulhento. Às vezes parece deslocada, quase antiquada, em meio a previsões catastróficas, comentários ácidos e análises pessimistas. Mas a esperança — essa teimosa — não aceita aposentadoria. Ela se infiltra nos cantos menos óbvios: no relato de alguém que superou uma dificuldade; na postagem de agradecimento que aparece entre tantas reclamações; no compartilhamento de um gesto simples de bondade que, sem querer, ilumina o dia de quem vê. A esperança nunca foi de fazer alarde. Ela trabalha no subterrâneo emocional das pessoas, no silêncio. Tem mais vocação para semente do que para fogos de artifício.
E há serenidade. Ah, a serenidade. Essa sim parece personagem deslocada no enredo das redes sociais. Como encontrar serenidade diante de tantas opiniões que se chocam, tantos estímulos que competem, tantos convites para indignações sucessivas? A serenidade é quase contracultura: convida ao vagar lento em um espaço construído para nos acelerar.
Ainda assim, há quem encontre serenidade em gestos inteligentes: ao silenciar perfis que roubam a paz, ao escolher com mais critério o que segue, ao aprender que o “não ver” também é autocuidado. Há quem deixe o celular longe por alguns minutos e perceba que o mundo continua girando sem sua supervisão. Há quem encontre serenidade no simples ato de observar, e não reagir. Em tempos de urgência permanente, olhar sem se lançar já é quase uma vitória.
Mas há algo mais profundo que se revela nesse cenário: estamos todos reaprendendo a sentir. As redes sociais tornaram o afeto, a emoção e a opinião bens de vitrine, expostos, avaliados, comentados. O que antes era íntimo, agora tantas vezes se torna público. E, mesmo assim, algo continua privado: aquilo que sentimos de verdade, quando ninguém está olhando. O entusiasmo real não se mede por curtidas; a esperança não depende de compartilhamentos; a serenidade não precisa de comprovação. São movimentos internos, discretos, quase secretos.
Vivemos uma época em que todos parecem saber muito sobre a vida dos outros, mas poucos sabem como realmente estão se sentindo. É como se todos estivéssemos assistindo a um filme acelerado demais, e quase ninguém se lembrasse de apertar o botão de pausa. E, curiosamente, é justamente nesse pequeno gesto — pausar — que os três sentimentos que estão lá no título desta crônica se encontram.
Quando pausamos, o entusiasmo volta a respirar. Ele deixa de ser espetáculo e volta a ser descoberta. Quando pausamos, a esperança se revela como sobrevivente incansável. E quando pausamos, a serenidade finalmente nos alcança — porque serenidade não é ausência de caos, mas a capacidade de não se deixar arrastar por ele.
As redes sociais não são vilãs, embora às vezes assumam essa função com certa competência. São apenas espelhos amplificados, onde tudo se repete, se distorce e se multiplica. Nelas, cabe tudo — inclusive aquilo que não faz bem. Mas também cabe o que faz: a leveza compartilhada, o humor inesperado, o aprendizado, os encontros improváveis, a celebração das pequenas vitórias.
Talvez o segredo esteja em perceber que, embora o mundo digital nos ofereça milhares de portas por onde entrar e não vale a pena abrir todas. E que, mesmo atravessando essas portas, podemos escolher como caminhar por elas: com entusiasmo honesto, com esperança resistente e com serenidade ativa. Sim, porque serenidade não é passividade; é clareza. É escolher o que merece nossa energia. É não permitir que o barulho dos outros determine o volume do nosso mundo interno.
No fundo, vivemos uma época peculiar: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes de nós mesmos. Nunca tivemos tantas possibilidades de expressão e, ao mesmo tempo, tamanha dificuldade de escutar o que realmente sentimos. O entusiasmo virou vitrine, a esperança virou sobrevivente, e a serenidade virou ato de coragem.
Mas talvez este seja o convite escondido nas entrelinhas do nosso tempo: reconectar-se consigo para, então, conectar-se com o mundo. Porque, quando descobrimos o que realmente nos entusiasma, quando alimentamos a esperança que o cotidiano insiste em esconder, e quando cultivamos a serenidade necessária para caminhar pelos dias, as redes sociais deixam de ser ameaça e voltam a ser o que sempre deveriam ter sido: ferramenta, não fardo; ponte, não prisão.
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Termino esta crônica com uma imagem simples: alguém segurando o celular não como âncora, mas como bússola. Uma ferramenta que aponta caminhos, mas não arrasta. Que ilumina, mas não cega. Que acompanha, mas não domina.
Se conseguirmos isso — esse pequeno milagre cotidiano — talvez possamos recuperar aquilo que o excesso de estímulo tenta roubar de nós: o entusiasmo que nasce de dentro, a esperança que teima em permanecer e a serenidade que, silenciosa, nos devolve a nós mesmos. E, quem sabe, possamos lembrar que, apesar das telas, ainda somos profundamente humanos — e que nada, nem mesmo um feed infinito, pode substituir essa condição tão extraordinária e tão frágil de ser gente.(Foto: Andrea Piacquadio/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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