No início dos anos 1990, mais precisamente em 1991, uma endemia chegou ao Brasil com cerca de 30 anos de atraso: a cólera. A doença começou a se espalhar em 1961, na África e na América Latina, e parte da sétima pandemia acabou aportando por aqui, importada do Peru. Os surtos ocorreram principalmente nas regiões Norte e Nordeste e deixaram cerca de 1.049 mortos entre 1991 e 1993. Uma grande mobilização nacional foi realizada, com a divulgação de protocolos sanitários para evitar o avanço da doença.
O poder público contou com o apoio da imprensa e de setores privados. No Estado de São Paulo, o efeito foi positivo. Não usamos máscaras neste período, mas o cuidado com a higiene das mãos e dos alimentos foi o verdadeiro “ensaio geral” do que viveríamos anos depois, no período da Covid-19.
Nessa época, no Jornal da Cidade, em uma das minhas três pautas diárias, o Luiz Alberto Lessi, nosso chefe de reportagem, mandou eu e o fotógrafo Nilson Cologni para uma palestra de prevenção e combate à cólera. O evento aconteceria no auditório da Companhia Industrial de Conservas Alimentícias, a nossa querida Cica, que iniciou suas atividades em Terras de Petronilha, em 1941. Infelizmente, encerrou sua atuação em Jundiaí em 1998, com a transferência da produção para Rio Verde, em Goiás.
Uma pauta tranquila. Bastava ouvir o palestrante — embora a memória falhe e eu não me lembre do nome da profissional de biossegurança que conversou com os funcionários naquele dia. O Nilson precisava fazer algumas fotos antes, acho que para o setor comercial do JC, e combinou de me encontrar lá na Cica. Isso é normal em uma redação. E, hoje, agradeço profundamente por ele ter chegado só depois.
Na época, eu era um ser magrelo. Tinha cabelo armado, orelhões, pés enormes (não sei como minha família me deixava andar sozinho pelas ruas) e insistia em usar uma pochete gigante que, se eu prendesse na cintura, caía para a frente. O jeito era carregar no ombro. Eu devia ter percebido os sinais… Cheguei à portaria da Cica e, como sempre estabanado, queimei o filme na saída, ops entrada. Enrosquei a pochete na catraca. Estava ligeiramente atrasado. A recepcionista fez um esforço hercúleo para não rir, mas eu, como profissional dos tombos e das trapalhadas, ri muito de mim mesmo.
O segurança que estava no local se ofereceu para me levar até o auditório. Vai que eu errasse o caminho e caísse dentro de um tonel de massa de tomate Elefante…
Ele usava aquele uniforme clássico: calça marrom, camisa social bege de manga curta, boné e um bendito cordão que saía da ombreira — tipo piloto de avião — e descia até o cacetete, preso na lateral do cinto. Muito educado, bateu na porta e, ao abrir, me deu passagem. Só que ficou segurando a porta com metade do corpo para dentro. Como magrelo que eu era, pensei: tranquilo. Não!
Detalhe importante: o auditório tinha formato de arena, e a entrada dava de frente para toda a plateia interessada em saber detalhes sobre a cólera… Minha pochete enroscou no cordão dele, fazendo um nó digno de escoteiro. Eu entrei, puxei o ombro achando que ele estivesse me segurando, e ele perdeu o equilíbrio, tropeçou na minha perna direita — que estava para trás — e caiu de barriga para cima, bem no meio do palco da vergonha, diante de todo mundo.
Ajudei? Não… Roxo de vergonha, subi direto para a última fileira e fiz cara de quem estava extremamente interessado na palestra sobre cólera, no meio de um silêncio constrangido e risos abafados que se espalharam pelo auditório. A palestrante ajudou o segurança a se levantar, e eu lá, desejando ser invisível.
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O debate foi retomado e, uns 15 minutos depois, o Nilson chegou, encaminhado pelo mesmo segurança. Eu lá, quietinho, e todo mundo olhando para eles. Depois que fez as fotos, subiu até onde eu estava e perguntou por que eu estava tão calado, algo não muito comum.
— Quando sair, eu te conto — respondi, porque a risada do Nilsinho é daquelas sônicas, capazes de contagiar quem estiver próximo.
Quando tudo terminou, conversei com a palestrante para pegar algumas informações extras, e ela, educadamente, perguntou se eu estava bem. Senti os orelhões queimarem enquanto dizia “sim”, quase sem voz, e saí do auditório seguido do Nilson. Contei tudo para ele no corredor. Ele gargalhou daquele jeito inconfundível e sentenciou:
— Cospe o guarda, Édi…
Aí foi que eu comecei a rir de verdade, porque trapalhadas acontecem com todo mundo. Só que comigo… acontecem sempre acima da média.

MIGUEL ÉDI GOMES
É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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