As telas que NÃO VEJO abriram o mundo para mim

telas

No início da minha adolescência, a tecnologia começava a virar assunto nas mesas de café, escolas. As telas eram motivo para muita conversa fiada. Orkut, Facebook, depois o tal do WhatsApp. Todo mundo parecia ter uma novidade pra mostrar: um perfil novo, um depoimento emocionante, uma foto recém-trocada. Eu acompanhava tudo de longe, como quem assiste a um espetáculo bonito, mas claramente não feito para participar dele já que sou deficiente visual.

Naquele tempo, celulares começaram a perder os botões. As telas ficaram lisas, silenciosas, sem qualquer referência tátil. E eu me perguntava baixinho: onde eu me encaixo nisso? A sensação era de que a tecnologia avançava rápido demais, sem olhar para os lados. Computadores, celulares e videogames pareciam pertencer a outro mundo. Um mundo visual demais para mim.

Não era só uma dificuldade prática, era também simbólica. A ideia de uma pessoa com deficiência visual digitando, navegando na internet ou usando redes sociais soava estranha para muita gente. Em alguns momentos, soava estranha até para mim. A tecnologia encantava, mas também afastava. Era promessa de futuro… para os outros.

Com o passar do tempo, algo mudou. A tecnologia, que antes parecia indiferente, começou a abrir pequenas frestas. Surgiram as chamadas tecnologias assistivas. Entre elas, os leitores de telas — programas que fazem algo simples e, ao mesmo tempo, revolucionário: transformam o que está na tela em som. Textos, botões, menus, avisos. Tudo passa a ser narrado. O que antes era silêncio virou informação.

Aprendi que o teclado podia ser caminho. Que atalhos podiam substituir o olhar. Que, no celular, gestos simples tinham significado. Um deslizar de dedo, uma confirmação, uma escolha. Aos poucos, aquele universo que parecia inalcançável foi se tornando habitável. Hoje escrevo, estudo, trabalho, uso redes sociais e, como qualquer pessoa, também me perco em abas abertas demais.

A tecnologia não me devolveu a visão. Mas me deu algo igualmente importante: autonomia. Não como favor, não como exceção, mas como direito. E existe uma ironia bonita nisso tudo. É justamente por meio de uma tela que eu não vejo que consigo enxergar possibilidades que antes pareciam invisíveis.

Agora mesmo, estou diante de um computador, com um teclado sob as mãos e um leitor de telas me acompanhando, escrevendo este texto. A tecnologia não me fez enxergar o mundo, mas me garantiu presença nele. E, no fim das contas, talvez seja isso que realmente importa.(Foto: Eren Li/Pexels)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA

É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.

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