Entre o Refogado e o CARTÃO DE PONTO

refogado

Quando dizem que mentira tem perna curta, pode acreditar: é a mais pura verdade. Nem eu, com meus respeitáveis 1,84m, fui páreo para fugir dela naquele 11 de fevereiro de 1994. Foi o primeiro ano em que o Refogado do Sandi tomou o Centro e conquistou, de uma vez só, os corações e as memórias dos jundiaienses, pelas mãos do então vereador Erazê Martinho, do PT(*18/06/1933 – †01/04/2006). Depois que ele partiu, o trabalho de organização do bloco seguiu firme com a “Deretora” — sim, escrito desse jeito — Gisela Andrade Vieira.

O Refogado era a grande novidade daquele carnaval. Nasceu nas mesas do Bar do Sandi, na rua Pirapora, território conhecido pela diversidade, pelas discussões políticas intermináveis e pela cerveja sempre estupidamente gelada. A divulgação começou no boca a boca, ganhou as redações e, na tarde daquele 11 de fevereiro, rendeu fotos belíssimas para as capas dos jornais do dia seguinte (guardem bem essa informação).

Eu já integrava a equipe dos cadernos especiais — o Departamento de Suplementos — do quase saudoso Jornal da Cidade (JC), comandado por Zara Campos(na foto ao lado comigo), que chamo carinhosamente de mãe. Ela conseguia dar bronca e elogiar na mesma frase, em fração de segundos. Um talento raro.

Às sextas-feiras, meu horário era das 11h às 17h (sim, jornalistas trabalhavam cinco ou sete horas… bons tempos). Além disso, todos os cadernos já haviam sido entregues na quinta-feira, véspera. Era o cenário perfeito para as tradicionais confraternizações pós-expediente. Então, não foi surpresa saber quem seria escalada para cobrir o primeiro ano do Refogado: Jô Ribeiro.

Com a clássica desculpa de ir “tomar um lanche” — eu havia iniciado o expediente às 11h —, entrei no carro com a Jô e, mais uma vez, com Nilson Cologni, fotógrafo de guerra e de carnaval. A concentração acontecia dentro do Gabinete de Leitura Ruy Barbosa, ao lado da loja de brinquedos Bolinha. Fomos recebidos pelo próprio Ruy Barbosa… ou melhor, por Oswaldo Bárbaro(na foto abaixo, com a Jô Ribeiro). Oswaldo, pai do Picôco e Pituca Bárbaro, estava devidamente caracterizado, com Erazê ao lado e mais foliões chegando.

Ali tive certeza absoluta de que meu lanche de 15 minutos iria se estender. E muito. Pensei rápido — dentro do possível — e bolei um disfarce: corri até a loja Bolinha e comprei duas peruquinhas de palhaço. Uma para mim, outra para a Jô. Nilson fez alguns cliques, e pedi, ingenuamente, que depois me passasse as fotos e não colocasse a minha no copião usado pelo editor-chefe Alcir de Oliveira. Bobo eu achar que estava seguro.

Enquanto a Jô entrevistava, eu “entrevistava” o Erazê com copos. O bloco seguiu para a Barão, e eu fui atrás. No meio do caminho, encontro a amiga jornalista Denise Oliveira(um abraço pra você, Denise), que já havia cumprido corretamente seu expediente na assessoria de imprensa da Prefeitura de Jundiaí. Entre um “você pensa que cachaça é água…” e um “mas que calor, ô ô ô…”, segui com o Refogado até a sobriedade pedir arrego.

Nunca vi tanta bebida surgir do nada na minha mão. No melhor estilo “catando frango”, desci a Rua Coronel Leme da Fonseca até a antiga sede do JC. Ao chegar à portaria, olho para o estacionamento: o Corolla dourado da Zara Campos estava lá. “Uai, ela disse que não vinha hoje…”, divaguei. Pensei rápido — na velocidade que a cachaça permitia — e resolvi sentar no banco em frente ao Almoxarifado. O relógio marcava 16h50. Faltavam dez minutos para bater o cartão e voltar para o bloco.

Foi quando a Zara surgiu na janela do suplemento e gritou:

— Murphy! Tudo bem? Tudo certo com os cadernos?

Arrisquei apenas um “jóia” com o polegar. Se abrisse a boca, com a voz girando a 75 rotações de um vinil arranhado, seria demissão sumária. A sorte é que ela desceu, entrou no carro e foi embora. Eu também não aguentei e segui para casa — na época, no fim (ou começo?) da avenida Jundiaí, nunca sei. Dividia o apartamento com meu padrinho, Ari Ribeiro, que não disse uma palavra ao ver meu estado etílico. Amizade verdadeira é isso.

Por volta das 23h, veio a febre. Subiu, subiu, até bater nos tradicionais 40 graus. No sábado, Ari me levou ao pronto-socorro do Hospital Paulo Sacramento. Diagnóstico: cinco cálculos renais no rim direito. Resultado: de molho até a Quarta-feira de Cinzas, à base de chá de quebra-pedra, água e paracetamol. Seria castigo? Jamais saberemos, pois as pedras foram expelidas semanas depois…

O expediente da quarta pós-carnaval começava às 12h. A mentira começou a ser desmascarada pouco antes disso. Zara me liga oferecendo carona — iria buscar água na fonte do Condomínio Malota. Entrei no carro. Conversa tranquila, comentários banais. Falei da febre, do estado lastimável e que nem tinha curtido o carnaval.

Na altura do antigo Hospital Game, na avenida Jundiaí, ela comenta como foi ótima a estreia do Refogado do Sandi e solta:

— Falando nisso… na capa do JJ tinha um cara parecido com você.

Meu estômago gelou. Para piorar, eu estava usando a mesma camisa da sexta-feira, devidamente lavada e cheirosa — o que só reforçava o crime. A foto do jornal concorrente é a que está lá em cima, bem no alto desta página. Respirei fundo no espírito “o que é uma flatulência para quem já está todo borrado” e arrisquei:

— Ele estava com uma peruquinha de palhaço?

O semáforo fechou. Zara virou lentamente para mim, me olhou para a minha cara mais lavada do mundo e gritou:

— ERA VOCÊ, MURPHY! NÃO ACREDITOOOO!

Vieram soquinhos no ombro e a bronca:

— Você estava em horário de trabalho! Se alguém percebe isso… você é doido!

Mas não deu tempo nem de o carro andar de novo. Ela caiu na gargalhada e perguntou:

— Mas fala… o bloco estava bom?

E assim a vida seguiu, plena e animada, com o Refogado do Sandi — e com o perdão da Zara Campos.

Não tinha como contar essa história hoje sem citar a amiga Denise Oliveira, que no domingo precisou ser forte ao se despedir de seu pai, o “seo” Otávio. Ele concluiu a missão na Terra deixando um legado de exemplos sociais, fé e amor à família. Para a Deh, dona Nilva, sua mãe, e aos irmãos Sérgio, Márcia e Flávio, deixo todo meu carinho e gratidão por ter conhecido o “seo” Otávio.

Como ensina Santo Agostinho, na oração ‘a morte não é nada’:

“Que o seu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo. Sem nenhum traço de sombra ou tristeza. A vida significa tudo o que ela sempre significou; o fio não foi cortado. Por que ele estaria fora de seus pensamentos, agora que está apenas fora de suas vistas?”

Deh e família, um beijo no coração de todos.(Fotos: Nilson Cologni)

MIGUEL ÉDI GOMES

É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

VEJA TAMBÉM

PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES