DIREITOS TRABALHISTAS: O protagonismo de Jundiaí

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Há um silêncio incômodo na historiografia tradicional quando se percorrem os manuais de história do trabalho no Brasil, Jundiaí comparece, quando muito, como nota de rodapé — uma cidade de passagem, cortada pelos trilhos da São Paulo Railway, mero cenário da expansão cafeeira. Mas Jundiaí não apenas testemunhou a formação da classe operária brasileira. Ela foi, já nas primeiras décadas do século XX, uma trincheira avançada do anarquismo, da exigência por direitos trabalhistas e da luta anticapitalista no interior paulista.

É preciso começar pelo dado demográfico, pois ele carrega uma tese. Em 1920, Jundiaí abrigava 6.310 imigrantes italianos (o oitavo município paulista em contingente daquela nacionalidade, à frente de praças industriais consolidadas como Araraquara e Jaboticabal). Esse número não é fortuito.

Entre aqueles milhares de camponeses do Vêneto e da Calábria que desembarcaram no porto de Santos e seguiram pela estrada de ferro até o interior, muitos traziam nas bagagens não apenas a esperança, mas também a experiência: tinham participado de greves agrícolas, lido jornais libertários, conhecido a aspereza da Lei Adolfo Gordo.

O primeiro registro documental dessa militância em terras jundiaienses remonta a 1913. Naquele ano, enquanto o senador paulista Adolfo Gordo defendia no Congresso a expulsão sumária de estrangeiros “agitadores”, “grevistas”, protestos eclodiram em várias cidades do estado. Os anais da repressão policial registram que Jundiaí esteve entre os municípios onde a contestação à Lei Adolfo Gordo ganhou as ruas ao lado de São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto e Rio Claro.

Não se tratou de adesão episódica. A lei de 1907, que permitia deportar imigrantes “perigosos” sem direito a defesa, era o símbolo mais acabado do projeto oligárquico: um país que importava braços, mas recusava cérebros; que queria o suor do trabalhador, mas não sua consciência. Jundiaí disse não.

Compreender o que significava ser anarquista em Jundiaí naqueles anos exige compreender que não se tratava de círculo doutrinário restrito, mas de um movimento enraizado nas ligas operárias, nos jornais de bairro e nas sociedades de resistência que floresciam à sombra das chaminés. Os anarquistas jundiaienses promoviam conferências e difundiam periódicos que chegavam pelo ramal ferroviário vindo da capital. A cidade integrava uma rede de solidariedade militante que conectava a Mooca(foto) ao Brás, o porto de Santos aos cafezais do Oeste, e Jundiaí a essa teia.

A grande greve de 1917 encontrou, portanto, terreno preparado. Embora os holofotes se concentrassem na capital, onde o jovem anarquista Antonio Martinez tombou sob bala e seu enterro paralisou São Paulo, o movimento expandiu-se como mancha de óleo. Santos parou. Rio Claro parou. Ribeirão Preto parou. E Jundiaí também moveu suas primeiras peças.

A lógica da organização operária no período permite afirmar: os trabalhadores jundiaienses não foram passivos àquela que foi a primeira greve geral da história do Brasil. Nos anos seguintes, entre 1917 e 1919, o movimento operário brasileiro viveu seu “biênio vermelho”. As greves sucediam-se, o custo de vida corroía salários, e a carestia gerada pela Primeira Guerra Mundial transformava a sobrevivência em batalha diária.

Em Jundiaí, esse caldo de cultura fermentou lideranças, forjou solidariedades e deixou cicatrizes. A repressão veio implacável. A segunda Lei Adolfo Gordo, nos anos 1920, endureceu ainda mais as deportações; o movimento anarquista entraria em refluxo, sufocado pela truculência do governo Artur Bernardes e, mais tarde, pelo cooptação sindical da era Vargas. Muitos daqueles italianos de Jundiaí foram expulsos ou silenciados. Mas o germe permaneceu.

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Quando, em 1946, os metalúrgicos locais fundaram seu sindicato; quando, em 1979, os operários jundiaienses cruzaram os braços em solidariedade ao ABC; quando, em 1983, os rodoviários da cidade tornaram-se os primeiros da categoria a filiar-se à CUT. Em todos esses momentos, havia uma herança subterrânea sendo mobilizada: a memória das greves de 1913 e 1917, transmitida oralmente nas famílias operárias, nos botequins de esquina, nas conversas entre companheiros de fábrica, constituiu o que E. P. Thompson chamaria de “economia moral da multidão”: um repertório de luta que se recusa a perecer.

A história que aqui se esboça não pretende preencher todas as lacunas. Muito do que os operários anarquistas de Jundiaí fizeram nas primeiras décadas do século XX ainda repousa em arquivos empoeirados, em jornais não lidos, na memória que o asfalto da modernização cobriu. Mas o suficiente já se conhece para afirmar: Jundiaí não foi coadjuvante. Foi palco, ator e testemunha de um dos períodos mais férteis da luta de classes no Brasil. Esquecê-lo não é apenas injustiça com o passado, é amputar do presente uma tradição de combate que ainda pode nos ensinar muito sobre organização, dignidade e resistência.(Foto: www.esquerdadiario.com.br)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetrasPara saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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