Se a memória não me trair — e ela anda colaborando —, em meados dos anos 1990 chegou uma excelente leva de jornalistas à redação do Jornal da Cidade. Oriundos (pronto, entreguei a idade…) da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCC) e da Cásper Líbero, em São Paulo. Uma turma do bem, talentosa, que rapidamente entrou no ritmo das pautas e no cotidiano de Jundiaí. Entre eles, Niza Souza, Jô Ribeiro, Fábio Furlan, Roberta Dutra e Cynthia Dalvia.
Esses novos repórteres, todos uns queridos, tinham suas particularidades e chegaram com o que a profissão exige: curiosidade, empatia e generosidade. Niza e Jô eram da turma que fazia o esquenta na minha casa antes de a gente ir para alguma balada. Naquele tempo, como diz o Evangelho (ou quase), eu tinha prazer em ser anfitrião, e os jantares eram muito bem executados no condomínio Chácara das Flores.
Com a Roberta Dutra, trabalhei um período no fechamento, e a gente revezava os plantões com o Alcir de Oliveira. Já com o Fábio Furlan, foram três fases distintas: ele como repórter e eu chefe da diagramação; depois, ele nos Suplementos e eu na diagramação; por fim, ele chefe de reportagem e eu como repórter dele. Inclusive, quando chegou à redação, ganhou o apelido de Tom Cruise, pela suposta semelhança — que ele jura não existir. Ainda assim, foi modelo de uma campanha do JC com o mote “Missão Impossível”, na clássica cena do cofre de informações da CIA.

E a Cynthia Dalvia? Riso fácil, simpatia plena, curiosidade na medida certa — e protagonista de duas situações hilárias (ou nem tanto), devidamente autorizadas para publicação.
A primeira aconteceu já na redação reformada, onde algum gênio resolveu parafusar os quatro aparelhos de telefone na mesa central. Cynthia falava ao telefone com a mãe. Que fique claro: eu não estava bisbilhotando a ligação, mas, em jornal, a gritaria faz parte do cotidiano e, para ter vez, é preciso falar alto.
— Mamãe, tudo bem? Preciso de um documento que deixei em casa. Você pode ver para mim se está na “sala de almoço”?
Confesso: nunca tinha ouvido falar em sala de almoço. Só conhecia sala de jantar e copa. Esperei ela desligar e, com a sutileza que me é peculiar, perguntei:
— Cynthia, e quarto você chama como? Sala de sexo?
Ela pensou por dois segundos — talvez imaginando mil maneiras de me torturar —, parou… e caiu na gargalhada. Como penitência, fui fazer minha famosa massagem nos ombros (sem malícia alguma, pois respeito é sempre fundamental), que, segundo ela, era a melhor.
Eu já havia ido de mala e cuia para o Departamento de Suplementos quando aconteceu a célebre série do “banho no escuro”. Como só havia computadores com o antigo Windows disponíveis para diagramar na redação, eu fechava o caderno Domingo Especial quando Cynthia chegou indignada — mas sem perder a classe — da pauta sobre a construção do Habib’s da avenida Nove de Julho, em frente ao prédio onde morava com os pais antes de se casar.
— Fui entrevistar os operários. A maioria não é de Jundiaí e eles dormem no alojamento da construtora. Perguntei o que faziam para se distrair…
(Este é um dos raros momentos em que a resposta deixa jornalista encabulado.)
— Ah! A gente observa a moça que toma banho naquele prédio — e apontaram.
Ela, incrédula, porém determinada, perguntou:
— Aquela janela ali, no segundo andar?
— Isso — responderam em coro.
Com toda a gentileza e doçura, mas percebendo que o momento não estava favorável, Cynthia revelou:
— É o meu apartamento. Fim da entrevista.
Somada a essa situação, depois ela descobriu que os meninos que jogavam na quadra também cultivavam o mesmo péssimo hábito da janela indiscreta.
A solução foi simples, prática e eficaz: banhos apenas com a luz apagada.
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E, para concluir, um dia levei dois álbuns com fotos minhas e dos amigos da redação — daqueles com película colante, verdadeiros documentos históricos da era analógica. Ela folheou com atenção e decretou:
— Não tem foto minha.
Sem a menor cerimônia, foi até o armário, voltou com a imagem que ilustra este texto(a cima) — lá estava ela, em cima de uma construção, em plena pauta, como manda o figurino do bom jornalismo.
Cynthia, todo o meu carinho e gratidão por termos trabalhado juntos nos áureos tempos do JC.

MIGUEL ÉDI GOMES
É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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