IA: Arma política que usa mentiras e manipulação

ia

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma infraestrutura invisível da comunicação contemporânea. Hoje, uma parcela crescente do conteúdo que circula nas redes, textos, imagens, áudios e vídeos, já é gerada por modelos de IA. O problema não é apenas tecnológico. É institucional, econômico e, sobretudo, democrático. Relatórios recentes apontam que a desinformação impulsionada por IA está entre os maiores riscos globais de curto prazo, com impacto direto sobre a confiança pública e a estabilidade de eleições. Em paralelo, o uso malicioso dessas ferramentas cresce em ritmo exponencial: tentativas de fraude com deepfakes aumentaram mais de 2.000% nos últimos três anos, incluindo golpes com clonagem de voz e identidade digital.

Os números têm origem precisa. Segundo o 1º Panorama da Desinformação no Brasil, do Observatório Lupa, deepfakes e peças geradas por IA passaram de 39 casos em 2024 , 4,6% do total de checagens, para 159 em 2025, equivalendo a 25% das verificações. Em 2024, a IA servia majoritariamente para golpes financeiros, como deepfakes de famosos promovendo sites fraudulentos. Em 2025, virou arma política, quase 45% dos conteúdos falsos com IA tinham viés ideológico, ante 33% no ano anterior.

O WhatsApp, que concentrava 90% da desinformação em 2024, caiu para 46% em 2025, não porque as fakes diminuíram por lá, mas porque passaram a se espalhar simultaneamente em TikTok, Kwai, Instagram, X e Threads. Isso sinaliza um ponto crítico, a regulação existe, mas a capacidade de fiscalização ainda é limitada frente à velocidade da tecnologia.  O Estado reagiu com regras. A Resolução TSE nº 23.732/2024 proíbe deepfakes em campanhas, exige rotulagem de conteúdos gerados por IA, veda robôs que simulam diálogos com eleitores e responsabiliza plataformas pela remoção imediata de conteúdos manipulados, sob pena de sanções.

Estudos indicam que a desinformação tende a reforçar crenças já existentes, ampliando polarizações em vez de convencer novos eleitores. Esse é o verdadeiro risco, a fragmentação da realidade. Deepfakes criam o que especialistas chamam de crise de veracidade, na qual tudo pode ser questionado, inclusive fatos reais. Em termos práticos, isso permite dois movimentos perigosos: manipular narrativas falsas e desacreditar evidências verdadeiras.

Casos recentes ilustram essa dinâmica. Nas eleições americanas de 2026, vídeos manipulados foram usados em campanhas com custo baixo e alta eficácia, muitas vezes com avisos quase imperceptíveis de que eram gerados por IA. Ao mesmo tempo, plataformas digitais seguem inconsistentes na rotulagem desses conteúdos, ampliando o alcance da desinformação. Há ainda um fator estrutural, o custo marginal da manipulação caiu drasticamente. Produzir um vídeo falso convincente, que antes exigia equipes e recursos, hoje pode ser feito por um indivíduo com ferramentas acessíveis. Isso democratiza não apenas a criação, mas também o potencial de dano. Importante destacar que, até o momento, não há evidência conclusiva de que deepfakes tenham decidido resultados eleitorais em democracias consolidadas. No entanto, esse não é o principal ponto. O impacto mais relevante é cumulativo, e vem através da erosão da confiança, aumento do cinismo político e enfraquecimento das instituições.

PARA LER OUTROS ARTIGOS DE ARTUR MARQUES JR CLIQUE AQUI

Para o ambiente de negócios, o alerta é imediato. Empresas também são alvo, seja por fraudes, seja por associação indevida a conteúdos falsos. A gestão de reputação, antes centrada em comunicação, passa a exigir capacidade de verificação, monitoramento e resposta em tempo real.  O ciclo eleitoral que se aproxima será, portanto, também um teste econômico. Não apenas sobre quem vence nas urnas, mas sobre quais modelos de negócio prosperam nesse novo ambiente, os que exploram a manipulação ou os que investem em credibilidade.

Porque, no fim, a pergunta deixou de ser apenas tecnológica ou política. Tornou-se financeira. Quanto vale a verdade em um mundo onde a mentira é escalável, barata e altamente lucrativa? Porque, no fim, a tecnologia não substitui o julgamento humano, mas pode distorcê-lo. E, em eleições, essa diferença é decisiva.(Foto: Mohamed Nohassi/Unplash) 

ARTUR MARQUES JR

É cientista de dados e especialista em IA aplicada, com sólida atuação em educação digital e inovação. Coordena a pós-graduação digital na Cruzeiro do Sul Educacional e é PhD em Ensino de Matemática, Mestre em Física Computacional e Astrofísica. Atua como palestrante, mentor, cofundador do Grape Valley, é VP Fiscal do Hospital do GRENDACC e já foi VP da DAMA Brasil.

VEJA TAMBÉM

PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES