Há pouco tempo, alguns anos, fazia uma das minhas caminhadas regulares quando ao subir para a calçada, atravessando uma rua, bati com um dos pés na sarjeta e me desequilibrei. Na tentativa de não cair estiquei a outra perna com força excessiva e me estatelei. Tentando me levantar percebi que o esforço realmente fora demasiado e que o estrago parecia ser grande como depois constatei. A musculatura do posterior da coxa esquerda havia se rompido. O que era para ser um exercício tranqüilo se transformou em tragédia. São os imprevistos desta nossa vida que decididamente não conseguimos antecipar para nos proteger.
As consequências deste acidente foram severas e foi necessária uma cirurgia, felizmente realizadas por mãos competentes, para fixar novamente os músculos que se desprenderam dos ossos da bacia. Quase um mês usando muletas e extrema dificuldade para realizar mesmo as tarefas mais simples. Sem posição para dormir as noites eram intermináveis e os dias sofríveis e sonolentos, mas, como tudo, passou, sobretudo graças ao apoio da família e dos amigos em um processo de recuperação que pareceu interminável. Sessões dolorosas de fisioterapia se prolongaram até poder andar e sentar com regularidade.
Os americanos costumam dizer que só há duas coisas inevitáveis: a morte e os impostos. Assim, quando acontece alguma coisa que não estava nos roteiros que seguimos nossas vidas ficam de pernas para o ar. Todos os compromissos, alguns inadiáveis, todas as nossas rotinas, afazeres e hábitos são subitamente descontinuados em função de uma realidade que nos torna totalmente incapazes até de entender o que está nos acontecendo. Tudo fica irremediavelmente comprometido. Nunca estamos preparados para estes imprevistos. O inevitável nos alcançou.
Estes são períodos de muita reflexão, pois o tempo de recuperação não nos permite fazer muita coisa. Então prometemos a nós mesmos que vamos dar mais atenção para as pessoas que gostamos, vamos finalmente fazer alguma coisa que há muito planejamos e que não vamos mais nos importar tanto com tudo que nos aborrece. Infelizmente quando a dor e as restrições diminuem nos vemos fazendo quase tudo que fazíamos antes como se fossemos indestrutíveis e que o infortúnio não irá se repetir.
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Lembrei deste evento acompanhando as desventuras pós-cirúrgicas experimentadas recentemente pelo nosso editor. Cada situação levava a novas incertezas e novos incômodos de maior ou menor grau. Tudo fica repleto de imprevistos e nossas esperanças ficam ao sabor dos exames e seus resultados. Esta insegurança nos remete á nossa finitude, mas também às nossas fragilidades e limitações. Ficamos pensando em nossa trajetória, quando, na realidade são apenas os imprevistos que estão à espreita todo dia quando nos levantamos. Esta incerteza é bem tratada por Fernando Pessoa: “navegar é preciso; viver não é preciso”.
Espero que seu período de reflexões seja profícuo e que suas resoluções de como será sua vida depois dos sustos se efetivem.(Foto: Engin Akyurt/Pexels)

FERNANDO LEME DO PRADO
É educador
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