Esses dias fui para a casa da minha mãe levando minha filha de dois anos. Cena clássica: criança no colo, bolsa pendurada no ombro, brinquedos espalhados em algum lugar misterioso e a bengala tentando acompanhar toda aquela bagunça organizada que só quem é pai entende. Entrei no carro de aplicativo e, como faço normalmente, avisei o motorista que eu tinha deficiência visual. A partir dali, parecia que eu tinha acabado de revelar um segredo digno de filme da Marvel. Virei uma espécie de super-herói do banco de trás.
O motorista olhou pelo retrovisor algumas vezes, tentando entender a logística daquela cena. Acho que, na cabeça dele, uma pessoa cega deveria ficar parada em casa tendo todas suas necessidades atendidas pelos outros. Então começaram as perguntas:
– Você trabalha?
-Você pega ônibus?
-Você veio sozinho com a criança?
Cada resposta parecia aumentar a surpresa dele. Quando comentei que às vezes vou para São Paulo sozinho, ele soltou um “rapaz…” tão profundo que parecia narração de documentário. Depois contei que monto móveis, faço pequenos reparos em casa, instalo equipamentos e tento resolver o que estiver ao meu alcance antes de chamar ajuda. Foi aí que ele decretou:
-Você é tipo o Demolidor(foto)!
Confesso que quase perguntei onde estava meu uniforme vermelho e quando começariam minhas lutas contra o crime na cozinha de casa enquanto monto um guarda-roupa ouvindo desenho infantil ao fundo.
O mais curioso é que nada do que eu falei era extraordinário. Eu não escalo montanhas, não salto de prédios e muito menos tenho sentidos apurados capazes de ouvir um grão de arroz cair no chão do outro lado da cidade. Sou apenas uma pessoa vivendo a própria rotina. Não sou um super-herói…
Mas percebi, durante aquela conversa, que muita gente ainda olha para a deficiência como se ela anulasse automaticamente a capacidade da pessoa de viver. Como se trabalhar, cuidar da filha, pegar ônibus, viajar, consertar coisas ou simplesmente sair de casa fossem atos heroicos quando feitos por alguém com deficiência visual.
E não são. São apenas atividades da vida.
Claro que existem dificuldades. Existem limites. Tem coisa que eu faço sozinho e tem coisa que preciso de ajuda. Se a atividade exige algo muito visual, procuro alguém mais preparado ou peço auxílio sem problema nenhum. Independência não significa fazer tudo sozinho o tempo inteiro. Significa entender até onde dá para ir, reconhecer os próprios limites e ainda assim continuar vivendo.
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No fim da corrida, o motorista parecia realmente emocionado. Acho que ele entrou no carro esperando transportar um passageiro e terminou a viagem acreditando ter conhecido um personagem de filme.
E eu só estava tentando chegar na casa da minha mãe com uma criança, uma bolsa, uma bengala e metade dos brinquedos da minha filha. Naquele dia, o verdadeiro desafio de super-herói, inclusive, era encontrar a chupeta dentro daquela bolsa.(Foto: cena do filme ‘Demolidor’/Divulgação)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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