Do silêncio que habita as coisas pequenas(Parte 2)

silêncio

E aqui topamos com a segunda face da injustiça memorial: a comoção seletiva. Quando o palacete ameaça ruir, formam-se comissões, abrem-se abaixo-assinados, brotam editais de emergência. Mas quando a pequena vila de pescadores é tragada pela especulação imobiliária, ou quando a capelinha de taipa é derrubada para alargar uma avenida, o silêncio é quase total. A comoção só irrompe, e ainda assim de forma pasteurizada, nas datas “comemorativas”, um 13 de maio que celebra uma liberdade inconclusa, o 20 de novembro que tenta resgatar o orgulho negro, como se a dor dos esquecidos só pudesse ser lembrada em dias marcados no calendário oficial.

Tal assimetria não é apenas cultural; é política.

Pierre Bourdieu chamaria de “violência simbólica” essa imposição de uma memória que naturaliza a exclusão. A escolha do que preservar é sempre uma escolha de poder, e o poder, no Brasil, tem cor e endereço. Enquanto os “lugares de memória” da elite forem os únicos a merecer o carimbo de “patrimônio histórico”, estaremos repetindo, no campo da cultura, a mesma lógica que, no campo da economia, mantém intacta a concentração de riqueza.

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Não se trata, entenda-se, de pregar a demolição dos casarões ou de negar-lhes valor histórico. Trata-se, isso sim, de alargar o conceito de patrimônio para que ele acolha também as marcas da maioria silenciada. A pequena moradia geminada do imigrante italiano, o terreiro de candomblé disfarçado de quintal, a vila de passagem onde se abrigavam os retirantes da seca, esses lugares também contam a nossa história, uma história que insiste em não caber nos livros oficiais. A arqueologia mais recente, atenta ao que se convencionou chamar de “patrimônio difícil”, começa a escavar essas camadas de esquecimento.

Mas a picareta anda mais depressa que a pesquisa.

Dói-me ver, como historiador e como cidadão, que a morte de um palacete provoque mais lágrimas do que o desaparecimento de uma comunidade inteira. A arquitetura do poder continua a ditar as regras da memória, e nós, que deveríamos ser os guardiões de todas as lembranças, acabamos cúmplices dessa seleção injusta. É preciso inverter o olhar, deslocar a lanterninha da história dos salões nobres para os porões, das fachadas para os fundos de quintal. Só assim, talvez, a comoção deixe de ser um privilégio de poucos e se transforme em um direito de todos os que ergueram, com as mãos calejadas e anônimas, as verdadeiras fundações deste país.(foto: Aysegul Aytoren/Pexels)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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