Mulheres agora comandam PMs. Falta de permissão ou pioneirismo?

mulheres

Senta aqui pra um café porque hoje a conversa não é sobre mérito. A conversa ainda é sobre portas fechadas. Recentemente, o Brasil celebrou a nomeação das primeiras mulheres que assumiram os comandos-gerais da PMs de Minas Gerais e São Paulo. A primeira instituição tem 250 anos. A Polícia Militar de São Paulo tem 194 anos. As manchetes chamaram as nomeações de ‘avanço histórico’. E é. Mas algumas manchetes também funcionam como confissão.

Quando uma instituição leva dois séculos para permitir que uma mulher chegue ao topo, o problema nunca foi falta de mulheres capazes. O problema sempre foi o desconforto histórico diante de mulheres com poder. Ou melhor: mulheres percebendo que nunca precisaram da autorização masculina que passaram séculos fingindo esperar.

As instituições de segurança pública brasileiras nasceram masculinas. Foram pensadas por homens, estruturadas por homens e alimentadas por uma ideia muito específica de autoridade que entra sem pedir licença e nunca precisa explicar por que está ali. Um modelo de pertencimento bastante conveniente para quem nunca precisou disputar a própria legitimidade.

Durante décadas, mulheres sequer eram imaginadas nesses lugares. Quando começaram a entrar nessas instituições, entraram pela lateral. Quase sempre para cuidar, acolher, ouvir, organizar e servir. A presença feminina precisava caber naquilo que o patriarcado considerava aceitável. À mulher foi permitido acolher vítimas. Não comandar tropas.

E talvez uma das maiores mentiras que a sociedade tenha contado seja a de que mulheres conquistaram espaço apenas com talento e paciência. Na verdade, nunca foi apenas sobre conquistar espaço. Muitas vezes foi preciso invadir. Foi preciso atravessar ambientes que deixavam claro, o tempo todo, que elas eram toleradas e não pertencentes. Foi preciso sobreviver ao constrangimento constante de precisar provar competência para homens medíocres promovidos sem metade da cobrança. Foi preciso aprender a endurecer sem “parecer difíceis”, comandar sem “parecer arrogantes”, falar sem “parecer histéricas” e ocupar espaço sem “parecer agressivas”.

Os homens chegam ocupando espaço. Mulheres chegam calculando. Calculando o tom da voz para não parecerem agressivas, o tamanho do sorriso para não parecerem frias, o quanto podem endurecer antes de serem chamadas de problema e o quanto precisam produzir para receber metade da legitimidade automaticamente concedida a muitos homens. Talvez uma das maiores exaustões femininas seja sobreviver profissionalmente em ambientes onde, além de trabalhar, ainda é preciso administrar permanentemente o desconforto diante da nossa presença.

Porque homens em posição de autoridade costumam ser vistos como naturais. Mulheres em posição de autoridade ainda são vistas como exceção. E exceções incomodam, especialmente em estruturas historicamente treinadas para obedecer vozes masculinas. Por isso tantas mulheres em cargos de liderança sejam analisadas não apenas pelo currículo, mas pela roupa, pela voz, pelo tom, pela expressão facial, pelo humor, pelo casamento, pela maternidade e até pelo nível de simpatia que conseguem oferecer enquanto exercem poder.

Homens raramente precisam ser agradáveis para serem respeitados. Mulheres frequentemente precisam ser agradáveis até para sobreviver institucionalmente. Em muitos ambientes o erro masculino costuma ser tratado como falha individual. Já o erro feminino frequentemente vira argumento contra a presença de todas as mulheres naquele espaço. Economia de generalização seletiva. O patriarcado sempre foi muito eficiente nisso.

E existe algo profundamente simbólico no fato de ainda comemorarmos “a primeira mulher” em pleno século XXI. A primeira comandante. A primeira chefe. A primeira coronel… O que deveria soar como celebração às vezes soa como atraso gritando no microfone. Enquanto manchetes celebram pioneirismos, elas também denunciam o tamanho da resistência histórica. Afinal, mulheres nunca faltaram. O que faltou foi permissão.

E talvez seja exatamente por isso que a ascensão feminina ainda provoque tanto desconforto em alguns ambientes. Mulheres não estão apenas ocupando cargos. Elas estão desmontando uma lógica antiga de propriedade masculina do poder. Uma lógica onde homens sempre circularam com naturalidade, inclusive em espaços de fala feminina. Opinam sobre corpos femininos, violência contra mulheres, feminismo, maternidade, comportamento, direitos reprodutivos e até sobre quais dores femininas seriam “legítimas”. Uma confiança impressionante para quem nunca precisou sobreviver dentro da própria pauta.

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Mas basta uma mulher ocupar um espaço historicamente masculino para que ainda apareça alguém insinuando invasão, exagero ou ameaça. Homens atravessam nossos espaços há séculos e chamam isso de opinião. Mulheres atravessam espaços masculinos e ainda há quem chame isso de afronta. No fundo, nunca se tratou apenas de competência. Sempre foi sobre controle de poder.

Por isso que algumas manchetes parecem menos homenagens e mais recibos históricos de exclusão: “Primeira mulher assume o comando após 250 anos”. Traduzindo: passaram 250 anos tentando impedir. Pega mais um café. Relaxa… não é nada que você já não tenha fingido não ver.

ANDRÉIA MELO

É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: [email protected]. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui.

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