Sessenta por cento. Essa é a proporção de patrocinadores que abandonaram a Parada LGBT de São Paulo. Empresas que estampavam seus logos no maior evento de diversidade do mundo decidiram, uma a uma, se retirar. A pergunta que circula é: isso é apoio ao conservadorismo? É covardia de mercado? É oportunismo? A resposta, como quase sempre, é mais incômoda do que qualquer uma dessas opções.
Existe um campo de estudos chamado semiótica — a ciência dos signos, dos sentidos, de como as coisas significam. Dois dos seus pensadores mais importantes, Algirdas Julien Greimas e Jacques Fontanille, desenvolveram o conceito de formas de vida: a ideia de que existir no mundo é sempre existir de um jeito, com um estilo, com uma presença que comunica algo antes mesmo de qualquer palavra.
As formas de vida são modos de ser, sentir, agir e significar o mundo. Elas organizam comportamentos individuais e coletivos e revelam os valores profundos que estruturam uma cultura. Não se trata apenas de opiniões ou identidades individuais, mas de maneiras compartilhadas de habitar a existência, produzir sentido e definir aquilo que uma sociedade considera legítimo, desejável ou possível.
A Parada LGBT é, nessa perspectiva, muito mais do que um evento. É uma forma de vida tornada visível. É um corpo coletivo que ocupa a rua e que diz: estamos aqui, existimos, não pedimos licença. Para pessoas que durante a vida inteira são forçadas à invisibilidade — no trabalho, na família, no transporte público —, a Parada é o momento em que a existência dissidente aparece em tamanho real. A Parada é uma ruptura no cotidiano, suspensão e interrupção da ordem hegemônica da vida. Por isso é vista como uma ameaça, por isso querem proibi-la, limitá-la, impedir a entrada de famílias, crianças, fechá-la entre quatro paredes.
A Parada torna visível uma forma de vida que historicamente foi empurrada para as margens. Ao ocupar o espaço público, ela não apenas celebra diferenças; ela disputa os critérios de reconhecimento, pertencimento e legitimidade que organizam a vida social. É nesse sentido que a festa se torna também um ato político de significação.
Quando uma empresa coloca seu logo nesse evento, ela não está apenas financiando um show. Ela se mescla à própria enunciação da Parada. Está dizendo, com sua marca, que aquela forma de vida pode ser vista, pode circular livremente. Que aqueles corpos têm valor.
O poder público também deve ser fazer presente. Sua força na construção de espaços de liberdade é grande, mas é preciso que respeite as lideranças dos grupos sociais. Theo Silveira (coordenador de participação social do Rio sem LGBTIfobia) confirma isso: “O poder público municipal precisa apoiar as paradas do interior do estado do Rio, mas sem retirar o protagonismo dos movimentos sociais. Embora não tenhamos apoio de empresas privadas, há tentativas de exploração pelo pink money por meio de festas oportunistas. A verdade é que as paradas do interior se tornaram o terceiro maior evento dos municípios, superadas apenas pelo Carnaval e pelo Ano Novo. Elas atraem o turismo e precisam ser valorizadas por essa relevância econômica e social.”
Além disso, mais do que apoiar uma causa, a empresa passa a se associar a um regime de valores. Seu logotipo deixa de funcionar apenas como signo comercial e participa de uma tomada de posição simbólica sobre quais formas de existência merecem reconhecimento e visibilidade no espaço público.
E quando ela retira o logo? A marca também está falando. Mas nesse caso, não está só: o capital, o mercado, falam juntos. A supressão do apoio surge assim não apenas como silêncio mas como interdição. Aquilo que podia então ser visto, não pode mais circular livremente. Sobre o valor dos corpos dissidentes, sobrepõem-se os valores de mercado. Nesse cenário, as identidades LGBTs não valem mais nada.
As empresas que saíram vão usar a linguagem da neutralidade: “decisão estratégica”, “foco no negócio”, “momento de cautela”. Mas a semiótica desfaz esse disfarce. Neutralidade é uma escolha. E escolher sair num momento em que o conservadorismo avança é, na prática, emprestar o silêncio a quem quer calar. Isso ocorre porque as formas de vida são produzidas, disputadas e transformadas por discursos, práticas, imagens, mídias e tecnologias.
Quando uma empresa decide retirar seu apoio, ela não está apenas realizando uma operação financeira: está intervindo num campo de disputas simbólicas e contribuindo para redefinir quais vidas merecem aparecer e quais devem voltar à invisibilidade.
Não é necessário que o CEO de nenhuma dessas empresas seja homofóbico. Não é necessário que haja uma reunião de diretoria deliberando contra a diversidade. Basta o cálculo frio: o custo político de apoiar esse evento ficou alto demais. E esse cálculo, por si só, já nos diz em que direção o vento corporativo está soprando.
O arco-íris que era de vidro e se quebrou – Havia um nome para o que essas empresas faziam antes: pink washing — ou, no vocabulário mais duro, capitalismo do arco-íris. Durante anos, marcas lucraram com a imagem da diversidade. Colocavam o logo colorido em junho, vendiam para o público LGBT, construíam reputação de empresas modernas e inclusivas. E embolsavam.
O problema é que esse apoio nunca foi uma forma de vida corporativa — foi uma estratégia de mercado. E estratégias de mercado mudam quando o mercado muda.
Uma forma de vida pressupõe alguma coerência entre valores, práticas e modos de presença no mundo. Ela não pode ser ativada apenas em campanhas sazonais. Se a diversidade fosse efetivamente uma forma de vida corporativa, ela resistiria às oscilações conjunturais. O que desaparece ao primeiro sinal de risco revela não um compromisso ético, mas uma conveniência estratégica.
O que estamos vendo agora é o fim da ilusão de que o capital seria aliado estrutural da diversidade. Ele nunca foi. Ele foi um aliado de conveniência, enquanto a diversidade era lucrativa e pouco arriscada. No momento em que o conservadorismo organizado passou a ameaçar o bolso e a reputação, o capital mostrou sua face real: ele não tem forma de vida, ele tem taxa de retorno.
O que fica quando o dinheiro vai – Aqui está o ponto que nos parece mais importante — e que raramente aparece nessas discussões. A Parada não precisa do logo dessas empresas para existir. Ela existe porque pessoas existem. Porque travestis, gays, lésbicas, bissexuais, não-binários e trans de todo o Brasil fazem a escolha de ocupar aquela avenida.
A forma de vida não depende do patrocínio — o patrocínio é que dependia dela para parecer relevante. O que o desinvestimento corporativo faz, na prática, é forçar uma pergunta urgente: como a Parada financia sua própria autonomia? Editais públicos, financiamento coletivo, economia solidária LGBT, fundo comunitário — essas são as respostas que o movimento precisa construir agora, antes que o próximo junho chegue com o caixa vazio.
Porque uma forma de vida que depende da generosidade de quem pode retirar o apoio a qualquer momento não é livre. É tolerada. E tolerância, como já disseram pessoas mais sábias do que eu, não é o mesmo que direito.
Para terminar – A semiótica não resolve o problema financeiro da Parada. Mas ela nos dá uma ferramenta poderosa: a capacidade de ler o que não foi dito. E o que as marcas disseram ao sair — mesmo sem comunicado, mesmo sem declaração pública — é que, quando a corda aperta, a diversidade é a primeira coisa que jogam fora.
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A semiótica nos lembra que pensar sobre as identidades é pensar as disputas de sentido. E é justamente nessas disputas que uma sociedade revela aquilo que considera negociável e aquilo que considera inegociável. O abandono corporativo da Parada não fala apenas sobre estratégias empresariais; ele fala sobre os valores que hoje estão em disputa na esfera pública brasileira. Isso não é surpresa. É confirmação.
A festa vai continuar, com ou sem eles, aliás, como sempre foi. (Artigo em parceira com Matheux Schwartzmann/Foto: paradasp)

SARA WAGNER YORK
É psicanalista, jornalista, pedagoga, biomédica, doutora e mestra em Educação/ UERJ. PosDoc UNESP/ FAPESP. Primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro. Imortal da Academia de Letras do Rio de Janeiro e percursora nas discussões das cotas trans no Brasil.
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