Senta aqui pra um café. Hoje vamos falar sobre voo. Sobre uma menina que sonhava trabalhar entre nuvens enquanto a vida insistia em mantê-la presa ao chão. Durante anos de serviço, aprendi que algumas ocorrências terminam quando a viatura vai embora. Outras não. Algumas nos acompanham para casa, atravessam os anos e reaparecem sem aviso enquanto organizamos lembranças que acreditávamos já ter guardado. Esta é uma dessas histórias.
Não vou contar seu nome, sua idade ou qualquer detalhe que permita identificá-la. Algumas histórias pertencem à esfera pública. Outras pertencem à dignidade de quem sobreviveu. O que posso dizer é que ela era uma adolescente e que, quando nossos caminhos se cruzaram, carregava nos ombros um peso que ninguém daquela idade deveria conhecer.
Havia uma carta. Não me recordo das palavras exatas, porque o tempo costuma apagar detalhes e preservar apenas aquilo que realmente importa. Mas lembro do que ela carregava. Havia violência doméstica. Havia violência sexual. Havia abandono. Havia dores que começaram cedo demais e duraram tempo demais. Era a carta de alguém exausta de sobreviver, cansada de suportar sozinha fardos que jamais deveriam ter sido seus.
Mas o que mais me marcou naquele papel não foi a dor. Foi o sonho.
Entre relatos difíceis e sentimentos que transbordavam das páginas, encontrei algo inesperado. A menina estudava idiomas e falava sobre o desejo de ser comissária de bordo. Enquanto a vida lhe apresentava alguns dos seus rostos mais cruéis, ela ainda conseguia imaginar aeroportos, viagens, novos lugares e novos começos. Queria voar.
Talvez tenha sido justamente isso que me atingiu. Porque quem sonha em voar ainda não desistiu completamente da vida. Pode estar ferido, pode estar cansado, pode até acreditar que não possui mais forças naquele momento, mas ainda existe uma parte que continua olhando para frente e imaginando um amanhã diferente.
Muitas vezes, quando falamos sobre violência, concentramos nossa atenção apenas nas feridas. E é compreensível que seja assim. As feridas exigem cuidado. Exigem proteção. Exigem resposta. Mas, ao longo dos anos, aprendi que também precisamos prestar atenção aos sonhos. Às vezes eles são a única coisa que ainda mantém alguém conectado ao futuro.
Aquela menina poderia ter sido lembrada apenas pela tragédia que quase a consumiu. Aquela adolescente poderia ter sido reduzida a um registro, a uma estatística ou a mais uma história de sofrimento entre tantas outras. Mas havia nela algo que a violência não havia conseguido destruir. Havia desejo. Havia curiosidade pelo mundo. Havia a capacidade de imaginar uma vida diferente daquela que conhecia.
Quando soube do seu sonho, procurei ajuda. Não foi um gesto solitário. Histórias de reconstrução raramente são. Com a colaboração generosa de pessoas que acreditaram naquela possibilidade tanto quanto eu, conseguimos uma oportunidade que parecia distante: um curso de formação em uma escola de aviação, integralmente gratuito.
Não gosto de histórias contadas como se fossem milagres. A vida real não funciona assim. O curso não apagou o passado. Não eliminou as lembranças. Não curou instantaneamente feridas construídas ao longo de anos. A dor não desaparece por decreto, nem os traumas obedecem à nossa vontade de vê-los resolvidos.
Mas oportunidades têm um poder que muitas vezes subestimamos. Elas não mudam o passado. Mudam a direção do futuro. Ela abraçou aquela oportunidade com a mesma determinação que havia demonstrado ao continuar sonhando quando tudo parecia conspirar contra seus sonhos. Estudou. Se dedicou. Concluiu o curso. E, aos poucos, começou a construir uma nova narrativa para a própria vida.
Por algum tempo ainda mantivemos contato. Eu acompanhava, à distância, algumas das suas conquistas e torcia silenciosamente por ela. Depois, como acontece com tantas pessoas que reencontram seus caminhos, nossas rotas se separaram. Ela seguiu viagem. E talvez seja exatamente assim que deve ser.
Nem todas as pessoas que passam por nossas vidas permanecem nela para sempre. Algumas ficam apenas o tempo suficiente para nos ensinar algo importante. Anos depois, continuo me lembrando daquela carta, mas não pelas violências que descrevia. Lembro porque, em meio a tantas razões para desistir, uma adolescente escolheu continuar sonhando.
Ela me ensinou algo que jamais encontrei em manuais, cursos ou protocolos. Ensinou que esperança não é a ausência de sofrimento. Esperança é a capacidade de imaginar um amanhã mesmo quando o presente parece insuportável.
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Quando falamos sobre violência, costumamos contar as histórias de quem caiu. E precisamos contá-las. Mas também precisamos falar sobre quem encontrou forças para se levantar. Precisamos falar sobre as pessoas que, mesmo feridas, recusaram a ideia de que a dor definiria o restante de suas vidas.
Talvez seja por isso que eu ainda me lembre daquela menina. Porque, no fim, ela conseguiu o que queria. Talvez não exatamente da forma como imaginava quando escreveu aquela carta. Talvez o caminho tenha sido mais turbulento do que qualquer plano de voo permitiria prever. Mas conseguiu. Ela voou.
Não necessariamente entre aeroportos e aeronaves. Não apenas pelos lugares que conheceu ou pelos caminhos que escolheu percorrer. A menina voou porque conseguiu sair do lugar onde tentaram aprisionar seus sonhos. E, às vezes, essa é a viagem mais difícil, mais corajosa e mais importante de todas.
Pega mais um café. E olha pela janela. Às vezes, a diferença entre desistir e continuar é encontrar alguém que enxergue asas quando o resto do mundo só consegue ver a queda.(Foto: KoolShooters/Pexels)

ANDRÉIA MELO
É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: [email protected]. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui.
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