No último artigo tratei sobre como as casas inteligentes estão deixando de ser coisa de filme para virar realidade na nossa vizinhança. Mas, como tudo na vida, essa facilidade traz uma pergunta que muita gente prefere ignorar até que o problema apareça: “Minha casa é segura?”. Para começar a responder, vamos usar um exemplo que todo brasileiro conhece bem: a urna eletrônica. Mesmo sem estar ligada à internet, ela conta com mais de 30 camadas de proteção. Agora, pare e pense: se um equipamento isolado precisa de tanto cuidado, por que a gente coloca uma câmera barata ou uma lâmpada Wi-Fi dentro do quarto sem saber quem “fabricou” a segurança dela?
No mundo da engenharia, temos um conceito chamado security by design, que nada mais é do que planejar a segurança desde o primeiro desenho do produto. É como construir uma casa já pensando onde ficam as trancas e o alarme, em vez de tentar colocar uma grade depois que a parede já está pronta. Infelizmente, na pressa de vender aparelhos baratos, muitos fabricantes deixam essa “porta da frente” aberta, e é aí que o perigo mora. E não pense que isso é teoria de conspiração ou coisa de hacker de cinema. A história recente está cheia de exemplos que mostram como o mundo digital pode afetar o nosso mundo físico de um jeito bem real.
Um dos primeiros ataques conhecidos em IoT , se chamou “Botnet Mirai”. Milhares de câmeras de segurança e roteadores simples foram “sequestrados” por criminosos para derrubar sites gigantescos ao redor do mundo. Em outro caso assustador, na Finlândia, hackers conseguiram travar o sistema de aquecimento de prédios inteiros em pleno inverno, deixando as pessoas no frio. Teve até uma invasão famosa na rede de lojas Target, nos Estados Unidos, onde os bandidos não entraram pelo computador do caixa, mas sim através do sistema de ar-condicionado que estava conectado à rede. Mais recentemente, descobriu-se a BadBox, um problema em que Smart TVs já saíam da fábrica “doentes”, com vírus instalados para roubar dados dos usuários sem que eles sequer ligassem o aparelho pela primeira vez.
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O ponto principal aqui é entender que a segurança em IoT não é apenas um detalhe técnico chato; é sobre a proteção da sua privacidade e dos seus dados pessoais. Quando um dispositivo é invadido, o criminoso não quer apenas acender sua luz ou mudar o canal da TV. Ele quer a senha do seu Wi-Fi, o acesso ao seu celular e, eventualmente, os dados da sua conta bancária. O seu ar-condicionado ou sua geladeira podem ser a ponte que falta para alguém entrar na sua vida financeira.
Então, qual é o segredo para não ficar paranoico, mas continuar protegido? O conselho é simples e prático: antes de comprar qualquer “coisa” inteligente, seja uma babá eletrônica ou uma fechadura digital, não olhe apenas o preço. Pesquise sobre a marca e questione o fabricante. Pergunte ou procure saber: “Como vocês protegem meus dados na internet? Com que frequência esse aparelho recebe atualizações de segurança?”. Se a empresa não souber responder ou se o produto for de uma marca desconhecida que não oferece suporte, talvez o barato saia muito caro. Segurança digital hoje em dia não é mais um luxo para especialistas, é uma regra de sobrevivência para todos nós.(Foto: Tima Miroshnichenko/Pexels)

ROGÉRIO MOREIRA
É presidente da ABINC(Associação Brasileira da Internet das Coisas). É engenheiro eletrônico e mestre em administração de empresas. Atua profissionalmente na área de dispositivos semicondutores pela empresa americana Microchip Technology. É professor universitário da UniAnchieta em Jundiaí. Nasceu na cidade de São Paulo, e mora em Jundiaí há 33 anos.
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