Desde as primeiras décadas do século XIX, as elites brasileiras já previam o fim da escravidão. Não por um ímpeto humanitário, mas pela necessidade de remodelar a nação à imagem e semelhança da Europa, que se via como sinônimo de progresso. A política migratória, portanto, foi assumida como política de Estado, uma engrenagem cuidadosamente lubrificada para substituir não apenas a mão de obra escravizada pela livre, mas os trabalhadores negros pelos brancos. A construção da Hospedaria de Imigrantes do Brás, em 1886, e a chegada do primeiro grupo de europeus em junho de 1887, são marcos de um cronograma que culminou, meses depois, com a Lei Áurea. A coincidência não é fortuita; é a cara do cinismo. Em Jundiaí, esse projeto encontrou um de seus laboratórios mais perfeitos.
O território que, em sua origem, teve suas terras invadidas por bandeirantes e foi construído sobre o suor de indígenas e, posteriormente, de africanos escravizados, viu-se, no final do século XIX, transformada em um celeiro de “braços brancos”. Em 24 de setembro de 1887, chegavam ao Núcleo Colonial Barão de Jundiahy os primeiros 22 colonos italianos. A implementação desse núcleo, pelo então presidente da Província de São Paulo, Dr. Antônio de Queirós Telles (Conde de Parnaíba), foi um ato político de profunda carga simbólica.
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A esses imigrantes(foto), eram oferecidas passagens gratuitas nas ferrovias e lotes de terra. Enquanto isso, ao negro liberto, negava-se o acesso à terra e ao trabalho, num processo de exclusão paulatina que a legislação da época costurou com fios de uma segregação silenciosa, mas eficaz.
A memória de Antônio Mantovani, que guarda com orgulho os documentos de seus avós, Fortunato e Maria, que chegaram a Jundiaí em dezembro de 1888, é a memória oficial. Mas pergunto: e os descendentes daqueles que aqui já estavam, para onde foram? Seus documentos, suas histórias, onde estão? Segue no próximo dia 4…(Foto: acervo professor Maurício Ferreira)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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