Bairros como a Colônia, Caxambu e Traviú, hoje símbolos da italianidade jundiaiense, são frutos dessa semente plantada pela elite cafeicultora. A história do Traviú é emblemática. Em 1893, um grupo de imigrantes do norte da Itália, com recursos próprios, comprou terras e lá se estabeleceu. Trouxeram a uva, que encontraria um solo fértil e se tornaria a identidade de Jundiaí, a “Terra da Uva”. A primeira Festa da Uva, em 1934, atraiu mais de 100 mil pessoas para uma cidade que não chegava a 40 mil habitantes(fotos).

Mas o que essa festa comemora, senão o triunfo de um projeto de apagamento? A uva Niagara Rosada, que nasceu de uma mutação espontânea no sítio da família Carbonari, é celebrada como um marco. Contudo, a história que não se conta é a de que, para que essa uva florisse, foi necessário arrancar pela raiz a cultura e a presença de um povo que não se enquadrava no ideal de “modernidade” das elites. A ideologia do branqueamento, que via a miscigenação como a solução para “clarear” a população, não era um devaneio; era uma política de Estado, um projeto de extermínio simbólico e cultural.
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Os dados são contundentes. Em alguns momentos, mais de 50% da população de Jundiaí era descendente direta de imigrantes. Entre 1880 e 1930, o Brasil recebeu mais de 4 milhões de europeus. Não foi um fluxo natural; foi uma engenharia social. A crença na superioridade racial branca, respaldada pelo racismo científico e pelo darwinismo social da época, guiou a mão dos legisladores. Leis foram criadas para facilitar a entrada do imigrante branco e dificultar a vida do trabalhador negro, que passou a ser desqualificado como “não civilizado”. Continua no dia 18.(Fotos: acervo professor Maurício Ferreira)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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